Dois 'meninos' perigosos e sua herança

Maria Clara Bingemer *, Jornal do Brasil

RIO - Parece amarga ironia que hajam sido batizadas de meninos (Little boy e Fat boy) as duas bombas atômicas que há 65 anos caíram sobre Hiroshima e Nagasáki, no Japão, lançadas por aviões norte-americanos. No dia 6 de agosto, o avião Enola Gay deixava cair seu fardo destruidor sobre Hiroshima. Três dias depois, era a vez de Fat boy ser lançada sobre a cidade de Nagasáki. As duas bombas mataram cerca de 140 mil pessoas em Hiroshima e 74 mil em Nagasáki. Este número aumentou expressivamente nos anos seguintes devido às sequelas causadas pela radiação.

Menos de uma semana depois dos ataques nucleares, em 15 de agosto de 1945, o Japão se rendia e a Segunda Guerra Mundial chegava ao fim, deixando atrás de si o maior saldo de mortes da história da humanidade: mais de 50 milhões, além dos cerca de 28 milhões de mutilados. O genocídio do povo judeu ceifou quase 6 milhões de vidas.

A amargura da ironia se torna maior. À destruição causada pela guerra se acrescenta outra ainda maior. Para deixar de matar por um lado, mata-se mais e mais cruelmente pelo outro. O mundo parece um doente terminal que, ao ser tratado de um mal, outro é desencadeado, e ao tomar um remédio que cura uma doença desperta outra no organismo frágil e esgarçado.

O capitão Theodore Van Kirk, tripulante do avião que lançou a bomba atômica sobre Hiroshima, entrevistado, não deixou transparecer um único sentimento de arrependimento pela violência que protagonizou. Ao contrário, disse sentir-se orgulhoso da missão que, segundo ele, salvou muitas vidas e pôs fim a uma odiosa guerra. Declarou que, assim como seus companheiros, tinha pleno conhecimento sobre o tipo de armamento que levavam. Isso fez com que passassem a noite anterior ao lançamento da bomba jogando pôquer, já que não podiam dormir. O menino explosivo que carregavam requeria vigilância permanente. Acrescentou, no entanto, que esse tipo de arma não deveria voltar a ser usado nunca mais.

Sessenta e cinco anos depois, o triste aniversário se celebra como de praxe. Minuto de silêncio pelos mortos. Discursos emocionados relembrando as vítimas e emitindo desejos de paz. Os hibakusha, como são chamados em japonês os sobreviventes da tragédia, estiveram no centro das celebrações. Receberam o preito de homenagem dos visitantes ilustres e serão recebidos pelo papa Bento XVI.

Mas esta celebração teve um toque diferente. Ali comparecerem pela primeira vez representantes dos Estados Unidos, Reino Unido e França. As três grandes potências, protagonistas da Segunda Guerra e aliadas no bombardeio a Hiroshima e Nagasáki, marcaram presença no Japão em sinal de apoio ao desarmamento nuclear.

Parece crescer a consciência de que não se combate a violência com mais violência. Ou de que a vitória final não é daquele que tem mais potencial destrutivo. Os dois meninos atômicos que deixaram esse rastro de dor e morte no Japão há 65 anos precisam ser definitivamente varridos da história e do cenário mundial.

Pois, como bem disse o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, a única maneira de assegurar que as armas nucleares não serão usadas é eliminá-las. Se outros meninos como os do Enola Gay ficarem à solta, os habikusha podemos ser todos nós.

8 Maria Clara Bingemer é autora de 'A argila e o espírito - Ensaios sobre ética, mística e poética' (Ed. Garamond), entre outros livros. (wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape)