O que era para ser uma convivência harmônica entre moradores e policiais militares de comunidades pacificadas, virou uma verdadeira guerra. Reclamando de abusos nas abordagens, a população lança mão de garrafas com pedras, coquetel molotov, paus e pedras para contra-atacar. Os casos de violência se repetem no Morro do Turano, no Rio Comprido (Zona Norte), na Cidade de Deus (Zona Oeste) e até no Complexo do Alemão - pacificado em novembro do ano passado - , onde ainda não há Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) e o comando está nas mãos de homens do Exército.
Na madrugada do último domingo, cinco ficaram feridos nas duas últimas favelas e uma mulher perdeu dentes após ser atingida por uma bala de borracha no maxilar. Neste último caso, o Ministério Público Federal e a Força de Pacificação apuram se houve excesso dos homens do Exército.
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"Os PMs das UPPs são abusados, abordam os moradores com grosseria. Quando querem que baixemos o som, não têm que ir disparando balas de borracha na nossa cara. Eles acabaram de chegar na favela e já se sentem os donos do pedaço. Então, é claro que a população vai reagir à altura", conta o morador do Turano, que preferiu se identificar apenas como João Paulo, referindo-se ao confronto do último dia 14 de agosto, quando um baile foi interrompido pela polícia e os moradores entraram em conflito com a PM, deixando quatro feridos.
No caso da Cidade de Deus, uma das maiores comunidades já pacificadas pela Secretaria de Segurança (que conta com unidades em pontos distintos para manter a ordem), policiais ouvidos pelo Jornal do Brasil acreditam que os atentados contra as UPPs da região só vão melhorar quando o baile funk próximo for suspenso. Segundo praças, a confusão começou na madrugada do último domingo após o baile funk que acontece semanalmente no Clube Coroado, nas proximidades da Praça dos Apartamentos. Os ataques contra os militares naquela região são constantes. Desta vez, no entanto, os vidros da sede de uma das UPPs foram destruídos por pauladas e pedradas. Quatro ficaram feridos.
Comandante das Unidades de Polícia Pacificadora, o coronel Robson Rodrigues acredita que os últimos confrontos em favelas já pacificadas "são casos isolados". Ele afirma que o spray de pimenta e as balas de borracha só são utilizados quando há "extrema necessidade". Ainda segundo oficial, os conflitos tomam grandes proporções porque muitos moradores não gostam de respeitar os horários impostos para festas e bailes.
“Os bailes funk de domingo não podem passar de 22h, porque os trabalhadores precisam levantar cedo na segunda-feira. Além disso, quem organiza festas sabe que a venda de bebidas alcoólicas para menores não é permitida. Só há rispidez no tratamento com moradores quando há necessidade. Os bailes funk podem acontecer desde que sejam feitos de maneira ordeira e as armas não letais são usadas quando as possibilidades de diálogo são esgotadas”, disse o coronel, negando que haja toque de recolher nas favelas pacificadas. "Com o advento da pacificação, festas com som alto passaram a ter horários para acontecer, não trata-se de toque de recolher", concluiu.
Câmeras identificam agressores
Para identificar os moradores que, segundo a polícia, causam tumulto, câmeras fotográfica e filmadora foram disponibilizadas nas sedes das 17 Unidades de Polícia Pacificadora. A intenção, segundo o comandante das UPPs, é punir os agressores.
“A orientação é de que se filme todas as agressões contra as UPPs e contra a tropa. Depois, entregamos para a Polícia Civil como prova. Quem atenta contra a polícia não pode ficar anônimo. Tem que ser identificado e, principalmente, punido”, afirma o coronel Robson Rodrigues.
Os cerca de 15 envolvidos nos conflitos do Turano estão respondendo criminalmente por agressão e danos ao patrimônio. As imagens gravadas pelos PM, mostrando as agressões, servem como provas em inquéritos.