Mãe de recruta internado: Marinha tem que parar de maltratar os filhos dos outros

Mãe do recruta Victor Hugo Pereira, de 19 anos, Marise Pereira, disse nesta terça-feira que um médico da corporação lhe garantiu que o filho teve rabidomiólise - quando diante da privação de líquidos, o organismo libera produtos inflamatórios, culminando para um edema de pulmão - e não outra doença provocada por uma bactéria, como chegou a ser informado pela Marinha. 

Revoltada, Marise afirmou que Victor Hugo se recusa a comer e necessita de ajuda psicológica. "A Marinha tem que devolver meu filho perfeito, como ele entrou. Tem que parar de maltratar os filhos dos outros. São desumanos, sem coração. Todos sabíamos que o meu filho seria submetido a treinamento intenso, mas não que o levasse a uma cama de hospital",  lamentou.

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Segundo Marise, a mãe de criação de outro recruta, Leonardo Gama, foi informada de que o filho deve perder um dos pulmões. 

No início da tarde de ontem, Victor Hugo Pereira (um dos casos mais graves) foi transferido da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Marcílio Dias para a enfermaria. Entretanto, ele vai permanecer dependente de sessões de hemodiálise.

"Ainda não sabemos se tomaremos providências contra a Marinha. O Victor Hugo é quem vai decidir o que será feito. O que eu desejo neste momento é a cura do meu filho", disse Marise.

Irmão do aspirante Leonardo, cujo estado de saúde é considerado de maior gravidade, Leandro Gama Rodrigues, 24 anos, disse que levou um susto ao receber a notícia de que o irmão não consegue sequer respirar por conta própria, além de estar inconsciente. 

"O sonho do meu irmão era ser fuzileiro naval e isto virou um pesadelo para toda a nossa família. Ele está com o pulmão muito afetado, todo entubado. Quando estive no hospital, fiquei chocado. Quando a Marinha me procurou para falar sobre o problema, disseram que o quadro dele era estável. Ao conversar com o médico, percebi a gravidade do problema", contou o assistente de produção que vive no Espírito Santo. "Eu soube que o grupo ficou dois dias sem beber água, mesmo fazendo exercícios físicos".

A Marinha confirmou que outros cinco recrutas do Centro de Instrução Almirante Milcíades Portela Alves (Ciampa), em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, foram internados no início da noite desta segunda-feira, no Hospital Naval Marcílio Dias, no Lins de Vasconcelos.

Segundo a Marinha, os sintomas de síndrome respiratória são os mesmos apresentados pelos 57 alunos que foram internados na quarta-feira (17). A Marinha informou, ainda, que os cinco alunos hospitalizados ontem passam por exames e estão em observação. Outros 11 jovens também deram entrada no hospital nesta segunda-feira com sintomas de conjuntivite. No entanto, segundo a Marinha, eles foram medicados, liberados e retornaram ao centro de treinamento.

Mais cedo, um grupo de 38 recrutas que estava internado recebeu alta médica. O Comando do Primeiro Distrito Naval informou que eles vão retornar às atividades normais no Curso e serão acompanhados pela Divisão de Saúde do Ciampa. Os demais alunos apresentam boa evolução clínica e continuam recebendo a necessária assistência médica.

O Curso de Formação de Soldados Fuzileiros Navais teve início no dia 8 no Ciampa, com 637 alunos matriculados.