RIO - Depois de uma longa conversa na manhã desta terça-feira com o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, o chefe de Polícia Civil, delegado Allan Turnowski, deixou o cargo após os dois concluírem que esta seria a decisão mais adequada para preservar o bom funcionamento das instituições.
A saída de Turnowski acontece dias após a Operação Guilhotina, que investigava a relação de policiais militares e civis com traficantes. Foram presas 38 pessoas que ajudavam criminosos com informações sobre as operações policiais e negociando material de apreensão. Entre os presos está o delegado Carlos Oliveira, ex-braço direito de Allan Turnowski.
No último fim de semana, o secretário Beltrame deixou claro, em entrevista, que nenhum dos seus subordinados tem carrta branca para atuar, numa clara alusão a Allan Turnowski, que durante a Operação Guilhotina foi chamado a dar esclarecimentos à Polícia Federal.
O secretário agradeceu publicamente a dedicação e a fidelidade do delegado Turnowski durante sua gestão.
Em um ano e dez meses de trabalho no comando da Polícia Civil, Allan implantou projetos que contribuíram para a redução da criminalidade no Estado, segundo a Secretaria. Neste período, a Polícia Civil ganhou uma delegacia exclusiva para investigação de homicídios; aprimorou o atendimento nas delegacias distritais através do Dedic; fez prisões importantes contra a milícia; reduziu em taxas inéditas o roubo de veículos no Estado; além de melhorar a produtividade das delegacias quanto ao número de inquéritos relatados com autoria.
O secretário Beltrame reforçou ainda que eventuais mudanças na equipe não vão prejudicar o compromisso assumido com a sociedade que é o de fazer do Rio um lugar cada vez mais seguro.
A Secretaria de Segurança também informou que o delegado Rivaldo Barbosa deixou a Subsecretaria de Inteligência para se tornar assessor especial do secretário José Mariano Beltrame. Em seu lugar assume o cargo de subsecretário de Inteligência, o delegado federal Fábio Galvão. Segundo a assessoria, a mudança ocorreu no início do mês, antes de estourar a crise na cúpula da Segurança.
Turnowski divulga carta de despedida
O agora ex-chefa de Polícia Civil divulgou uma carta de despedida. Confira a íntegra:
"À população do Rio, aos meus colegas de trabalho, aos meus amigos, venho a público agradecer ao Governador Sérgio Cabral e ao Secretário de Segurança José Mariano Beltrame pela oportunidade de comandar minha instituição por quase dois anos. Hoje de manhã deixei o cargo de Chefe de Polícia após uma conversa franca e aberta com o Secretário Beltrame. Tenho certeza que esta é a melhor decisão para o momento.
Posso garantir que foi um período de aprendizado, de conquistas, de amadurecimento e também de realizações profissionais. Deixo para meu sucessor uma série de iniciativas estruturantes que podem elevar a Polícia Civil a outro patamar .
Agradeço também o apoio de meus familiares, que sacrificaram horas de convívio e atenção.
Um abraço a todos.
Allan Turnowski"
Ex-secretário mandou lacrar sede da Draco
A Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), na Zona Portuária do Rio, amanheceu fechada pelo segundo dia consecutivo. Mas, ao contrário de ontem, hoje não há policiais na porta da unidade. No domingo, o ex-chefe de Polícia Civil, Allan Turnowski, mandou lacrar a sede da Draco para a realização de uma devassa, após receber denúncias de que policiais estariam extorquindo prefeituras.
Turnowski garantiu que adotou a medida após consultar o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame. Na segunda pela manhã, a Corregedoria Interna da Polícia Civil começou a procurar documentos que possam provar possíveis irregularidades na Draco. As investigações continuam hoje. A expectativa é de que mais delegados e outros agentes possam ser presos nos próximos dias.
Delegado diz que está constrangido
O delegado titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), Claúdio Ferraz reconheceu estar constrangido com a devassa que está sendo feita na unidade pela Corregedoria da Polícia Civil.
"Ele (Turnowski) deve ter lá os seus motivos para estar agindo desta forma. Eu não tenho o que falar, mas é claro que é um constrangimento", afirmou Ferraz, ao deixar o prédio da unidade. Apesar de ter ficado cerca de quatro horas no local junto com o corregedor de polícia, Gilson Emiliano Soares, Ferraz disse que não foi à delegacia por causa do episódio.
Ainda na tarde desta segunda-feira dois documentos com a assinatura de Ferraz e de um de seus homens de confiança autorizam o arquivamento de processos naquela delegacia.
Associação de delegados quer que Cabral exonere Beltrame
O presidente da associação dos Delegados de Polícia do Estado do Rio de Janeiro (Adepol-RJ), Wladimir Reale, enviou ao governador Sérgio Cabral, na tarde de segunda-feira uma carta pedindo a exoneração do secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame.
O motivo do pedido a Cabral seriam os "abusos" praticados desde o início da Operação Guilhotina, que pretendia prender policiais civil e militares acusados de corrupção. A ação teve início na última sexta-feira.
Reale não questiona a ação em si, mas repudia as invasões às delegacias e diz que é uma situação inaceitável. Ele diz ainda que a "espetaculosidade" de Beltrame à frente da Secretaria de Segurança pode estar atrelada à candidatura do secretário a algum cargo eletivo.
O texto diz ainda que Beltrame é inexperiente: "É notória a inexperiência do Secretário Beltrame, no que se refere às atividades de polícia judiciária, tendo em conta que recém-saído da Academia Nacional de Polícia em Brasília, com um pouco mais de 2 anos no cargo de Delegado de Polícia Federal, foi nomeado para o cargo político de Secretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro".
Segundo assessores do governador Sérgio Cabral, nenhuma carta enviada pela Adepol foi protocolada no Palácio Guanabara, em Laranjeiras (Zona Suldo Rio) nesta segunda-feira.