Bruno Pontes, JB Online
RIO - Moradores do edifício Palace II, que desabou em fevereiro de 1998 na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, realizaram na manhã desta sexta-feira uma manifestação com direito a um gigantesco bolo pelo aniversário de 10 anos da tragédia que deixou oito mortos e mais de 100 famílias desabrigadas.
Antes do protesto em frente ao prédio do Supremo Tribunal de Justiça, no centro do Rio, os moradores participaram de uma missa na Igreja de Santa Luzia, também no centro, onde as vítimas do incidente foram homenageadas.
Após a cerimônia religiosa, os pouco mais de 20 proprietários caminharam para a Rua Presidente Antônio Carlos, onde colocaram o bolo de cerca de 10 metros de extensão, em frente ao STF.
Com faixas que mostravam a revolta e a dor pela perda de parentes e amigos, cartazes como '10 anos de sofrimento e luta à espera de justiça!', e fotos ampliadas de vítimas do desabamento estampavam mais do que em palavras a indignação pela impunidade.
A advogada da Associação das Vítimas do Palace II, Rauliete Barbosa, explicou que a idéia de se fazer um bolo no aniversário de uma década da tragédia, tem a intenção de alertar a justiça contra a impunidade predominante no país.
- É um dia importante que o mundo todo está vendo. Acredito que só a justiça divina poderá amparar as vítimas dessa tragédia desabafou a advogada, que explicou que até hoje existem moradores sem casa própria, morando em flats espalhados pela cidade.
A pedestre Brigite Soares, que passava pelo local no início da distribuição do bolo, mostrou que a solidariedade às vítimas se espalha pela cidade, e se uniu a causa por uma justiça mais eficiente.
- Acompanho isto todo o ano e com tanta impunidade não dá nem vontade de comer esse bolo disse Brigite ao receber uma das primeiras fatias do bolo-gigante.
Ao lembrar do empresário e ex-deputado federal Sérgio Augusto Naya, dono da construtora Sersan, responsável pela construção dos edifícios Palace I e Palace II, a revolta era ainda mais aparente em cada depoimento das vítimas.
- Ele mostrou que tinha capital até fora do país e que na verdade fez de tudo para não pagar a ninguém. Ele sempre teve recursos de sobra e não o fez afirmou Adonil Carvalho, que morava no apartamento 705.
Assim como outras 90 famílias, Adonil recebeu menos de 20% do valor real de seu apartamento, como indenização. No entanto, cerca de 30 famílias ainda esperam receber alguma compensação financeira pela perda de seu imóvel, como é o caso do aposentado Oswaldo Benevide, que perdeu seu filho no momento em que seu apartamento desabou.
- A gente se pergunta o que poderia ter sido feito para que a tragédia pudesse ser evitada, e sem resposta, vamos levar isso por toda a vida. Mesmo que me paguem, nada vai trazer meu filho de volta lamentou Oswaldo, que mantém suas esperanças na decisão da justiça em relação ao leilão de três imóveis de Sérgio Naya, que somados totalizam mais de R$: 12 milhões, que devem ser distribuídos entre as vítimas.
Em 10 anos de sofrimento, os ex-moradores do Palace II também somaram às dificuldades financeiras, problemas psicológicos e de saúde, como é o caso de Sebastião Rodrigues, de 55 anos, que morava na cobertura 2208 e que durante o protesto segurou a carcaça de seu laptop destruído no desabamento, com a frase 10 anos e nada .
- Fiquei com hipertensão e passei a dormir pouco com pesadelos todas as noites contou o morador que após perder seu apartamento, voltou para seu outro imóvel no Flamengo.
Outro morador que sofreu problemas sérios de saúde foi o Cel. reformado do Corpo de Bombeiros Marcus Silva, que apesar de ter recebido cerca de R$: 100 mil de indenização, afirmou que continuará dando apoio aos que continuam sem ressarcimento financeiro.
- Juntei meu dinheiro por 10 anos para ter minha casa própria, e agora somo mais 10 anos sem poder ter meu próprio apartamento. Tomo remédio para os nervos até hoje por causa daquele dia, e se depender do nosso esforço, todos os culpados serão punidos; o dinheiro nem importa mais garantiu Marcus Silva.
A esperança por justiça que resta aos moradores do extinto prédio vem agora nas acusações contra Naya, na área cível, onde o ex-deputado acumula mais de quatro processos.
Em julho de 2006, o ex-deputado havia sido absolvido na área criminal, pela 7ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio por cinco votos a zero, junto com o engenheiro Sérgio Murilo Domingues das acusações do crime de responsabilidade pelo desabamento do prédio.
A decisão manteve a sentença dada em 1ª instância e anulou o acórdão da 5ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça, que em 2002 havia condenado os réus a dois anos e oito meses de prisão.