Marcello Gazzaneo, Breno Costa, Jaime G. Filho e Marcello Victor, Agência JB
RIO - A situação é tranquila, até o momento, apesar do clima ainda tenso, no complexo de favelas do Alemão, nesta quarta-feira, depois da megaoperação das polícias Civil, Militar e da Força Nacional de Segurança (FNS), que deixou 19 mortos e dez feridos, sendo sete por bala perdida. Não foram registrados tiroteios entre policiais e traficantes de drogas. Disparos foram ouvidos, no início da manhã, com a entrada de um veículo blindado da PM, o chamado "Caveirão". Ele transportava policiais do Posto de Policiamento Comunitário (PPC) do Alemão, que chegavam para assumir o serviço. À tarde também foram ouvidos disparos.
A Sala de Operações do 16º BPM (Olaria) informou durante a tarde que não houve ocorrências de vulto em sua região de autuação. O clima foi de desconfiança e dúvida quando um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) com a inscrição GEIV, sobrevôou a região do Complexo do Alemão. Segundo um operador da Aeronáutica, trata-se de uma aeronave do Grupo Especial de Inspeção de Vôo. A equipe é da área de engenharia e responsável pela inspeção de equipamentos de instrumentação.
Em entrevista ao RJTV, o secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, disse que o trabalho da polícia é garantir o direito de ir e vir da população. Ele disse ainda que o policiamento na região do Complexo do Alemão seria mantido para impedir a entrada de armas e drogas nas favelas. Com relação a proximidade da megaoperação com o Pan-Americano, Beltrame garantiu que a PM está preparada para evitar que traficantes realizem operações criminosos.
- A partir de ontem, não há nenhum ponto em que o estado não tenha acesso nas comunidades do Complexo do Alemão.
A quinta-feira também foi de denúncia por parte de moradores, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e da Anistia Internacional sobre a megaoperação de quarta-feira. Moradores disseram que dos 19 mortos nove seriam criminosos e os outros inocentes. Três menores, sem envolvimento com o crime, segundo eles, teriam sido mortos covardemente: um de 16 anos com um tiro nas costas, outro com o braço amputado por um tiro e outro a facadas. As acusações foram feitas pela manhã, em visita do presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB, João Tancredo, o vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Estado do Rio (Alerj), Marcelo Freixo (P-SOL) e representantes das Organizações Não-Governamentais (ONGs) Observatório de Favelas e Justiça Global. Eles afirmam também que teria havia excessos por parte dos policiais, como saque de lojas e o roubo do rádio de um carro.
À tarde, o grupo foi recebido pelo subsecretário de Segurança Pública do Rio, Marcos Darene, na sede do órgão no Centro do Rio. Eles foram reivindicar a presença de um perito escolhido pela OAB para acompanhar a confecção dos laudos cadavéricos. Darene orientou que a entidade deverá formalizar o pedido, para que seja encaminhado e analisado por Beltrame. O presidente da Comissão de Direitos Humando da Alerj, deputado Alessandro Molon (PT), também participou.A manifestação na porta da secretaria,q ue chegou a ser anunciada por moradores, acabou não acontecendo.
Ainda à tarde, a Polícia Civil divulgou a relação com o nome de nove mortos, entre eles quatro menores, durante a megaoperação. São eles: José da Silva Farias Júnior, de 18 anos, Maxwel Vieira da Silva, 16, David Souza de Lima, 14, Geraldo Batista Ribeiro, 41, Bruno Rodrigues Alves, 21, Emerson Goulart, 26, Bruno Vianna Alcântara, 22, e Leandro Serrati Gualtero, de 13 anos. A maioria será enterrada no Cemitérrio de Inhaúma.
A Anistia Internacional, organização que luta pela defesa dos direitos humanos, classificou a megaoperação no Compelxo do Alemão como "violenta e caótica". Além dos 19 mortos, dez pessoas ficaram feridas na quarta-feira. As sete escolas e uma creche, que ficam na região do conflito e que não funcionaram ontem, continuaram fechadas nesta quinta feira. O comércio na localidade está funcionando normalmente. O trânsito fluiu normalmente nas imediações do complexo, assim como ônibus e pedestres.
- Essa foi uma operação violenta e caótica mas, acima de tudo, de reação e não pró-ativa - comentou Patrick Wilcken, ativista da Anistia Internacional, em Londres.
Conforme balanço da Secretaria de Segunça Pública, o saldo de apreensões da megaoperação foi 115 quilos de maconha, 30 quilos de cocaína, material para endolação, duas metralhadoras anti-aéreas calibre ponto 30 - capazes de derrubar um helicóptero e perfurar a blindagem dos "Caveirões" - dois fuzis, cinco pistolas, 60 bananas de dinamite e munição.
Os alvos da megaoperação foram às favelas da Fazendinha, Nova Brasília e Grota. Todos os acessos às comunidades foram cercados. O objetivo era cumprir mandados de prisão, além de apreender armas e drogas. Um helicóptero e três blindados deram apoio à operação. Na Grota, os tiros do confronto armado atingiram a parte elétrica e deixaram a favela sem luz. Também foram utilizadas retroescavadeiras para derrubar barricadas construídas pelos criminosos. O clima ficou tenso durante todo o dia e parte dos comerciantes fechou suas portas.