Denise de Almeida e Marcello Gazzaneo, Agência JB
RIO - O relatório da Anistia Internacional sobre a violência no Rio de Janeiro, divulgado ontem, concluiu que falta uma política de segurança pública, de longo prazo, para combater as causas da criminalidade.
Tim Cahill, porta-voz da Anistia Internacional para o Brasil, culpa o Estado, que usa o medo da população como uma justificativa para responder aos bandidos com a força e acaba agravando a situação. Segundo Tim, o governo busca dar respostas imediatas, quando deveria se preocupar com o planejamento das ações.
- A polícia é só um dos elementos que compõem a segurança - alerta o porta-voz.
Para reduzir os crimes, a Anistia recomenda, como medida prioritária, combater a corrupção policial e os homicídios praticados por policiais e contra os colegas. Cumprida essa etapa, o Estado poderia implementar projetos de educação, habitação e saúde nas favelas.
A ausência de políticas de segurança se reflete na falência do sistema penitenciário, no abandono dos bairros pobres e na falta de recursos e de treinamento da polícia. Toda a sociedade sofre as conseqüências, principalmente os que residem nas favelas e são obrigados a conviver com os traficantes e milícias.
Uma comissão da entidade esteve, na semana passada, no Complexo do Alemão e ouviu relatos dos moradores e lideranças comunitárias sobre a violação dos direitos humanos.
- Todos disseram que querem o patrulhamento nas favelas, mas criticam a forma violenta que a polícia atua - explica Tim.
Os moradores de áreas onde há confrontos contaram a Tim que ficam desprotegidos depois que a polícia se retira. Vivem intimidados pelos bandidos, temem as trocas de tiros constantes e não conseguem ir morar em outro lugar.
- Vimos marcas de balas nas casas e até em igrejas e jovens armados andando pelas ruas - descreve Cahill.
O uso do caveirão - carro blindado da polícia - também é criticado pelo relatório da Anistia.
- Do ângulo em que eles atiram, é impossível discernir se a pessoa é bandido ou morador - ressalta Tim.
No Complexo do Alemão, 15 pessoas morreram e 51 ficaram feridas desde 1º de maio, quando começaram as operações policiais na favela.
- É assustador - comenta Cahill. - A polícia entra quando as crianças estão saindo das escolas e a população está nas ruas.
Num encontro com a Anistia Internacional, o Secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, disse que as ações repressivas no Complexo do Alemão são necessárias e defendem os moradores.
- Não sinto que haja vontade política do governo de reduzir a violência - lamenta o porta-voz.
Em contrapartida, enquanto o resultado do relatório era divulgado, um novo confronto no Complexo do Alemão levou pânico aos moradores do local.
Na manhã de quarta-feira, uma pessoa ficou ferida e um carro da polícia foi parcialmente destruído. Em quase uma hora e meia de tiroteio entre policiais do 16º BPM (Olaria) e do Batalhão de Operações Policiais (Bope) e traficantes, a favela da Grota e seus acessos ficaram sitiados. À tarde, o sub-procurador de Justiça e Direitos Humanos do Ministério Público (MP) estadual, Leonardo Chaves, disse que vai investigar as circunstâncias das mortes e dos feridos por bala perdida na Vila Cruzeiro, na Penha, registrados no período da ocupação policial, que já dura 23 dias.
O conflito de ontem foi iniciado assim que policiais chegaram à Grota para retirar uma barricada na Rua Joaquim de Queiroz, por volta das 10h. Foram recebidos a tiros e granadas. Ali, traficantes colocaram um Ford Ka virado, com um trilho fincado por uma das janelas, para impedir a passagem da polícia. Três caveirões - carros blindados da PM - foram usados para retirar o veículo da rua, a mais movimentada da favela. No tiroteio, Lindalva de Almeida Silva, 57 anos, foi ferida com um tiro na cabeça. Desde o início dos confrontos no complexo, que inclui a Vila Cruzeiro, já são 17 mortos e 55 feridos - a maioria por bala perdida.
Para rechaçar a polícia, os traficantes chegaram a usar balas traçantes. Moradores e motoristas, assustados, tentavam fugir das balas. Um motorista de um caminhão, desnorteado com o barulho dos tiros, perdeu a direção quando seguia pela Estrada do Itararé e acabou batendo num carro da PM, nas proximidades da Joaquim de Queiroz.
O governador Sérgio Cabral disse que as ações da polícia, apesar do medo imposto aos moradores, vão continuar.
- Não tenho dúvida que o estresse aumenta com a ação da polícia. Nossa ação vai continuar, a polícia está firme. Essa é uma luta que não se ganha do dia para a noite e a população tem compreendido - comentou Cabral.
No início da tarde, o clima ainda era de tensão na favela e poucos comerciantes tinham voltado a abrir suas lojas. Já na madrugada de ontem, um morador havia sido ferido. Airlom Santos Vieira, 25, levou um tiro na região lombar. O rapaz deu entrada no Hospital Getúlio Vargas, na Penha, à 1h30 passou por cirurgia. Até o fim da noite, seu estado era estável.
Tensão também não faltou na reunião do sub-procurador de Justiça e Direitos Humanos do MP, Leonardo Chaves, com moradores e líderes comunitários da Vila Cruzeiro, à tarde, no centro esportivo da favela. Quase no fim da reunião, estouros de fogos de artifícios foram ouvidos no local, assustando moradores e os participantes do encontro. Houve corre-corre. A suspeita é de que os fogos foram estourados para avisar a chegada da polícia.
Ao deixar a reunião, Leonardo Chaves anunciou que o MP vai investigar as mortes e os caso de feridos por bala perdida desde o primeiro dia de ocupação da polícia.
- Vamos apurar esses casos e tentar identificar a autoria e as circunstâncias de cada um. Se ficar claro que houve irresponsabilidade na conduta dos policias, vou levar o caso ao Judiciário - disse.
Para Leonardo, a situação indica ameaça aos direitos humanos.
- Se as escolas não funcionam e o comércio está fechado, isso fica evidente - presumiu.
No encontro, moradores relataram os dias de terror e angústia que vivem. Falta água, as linhas de telefone estão cortadas e a maioria quase não pode sair a rua.
- Vivemos um dia-a-dia de terror. Toda vez que um tiroteio começa, minha filha de 5 anos canta e diz que não está escutando nada - contou Dalva de Souza, que perdeu a filha Joice, de 6 anos, morta em casa por uma bala perdida em 1997. No último dia 6, Dalva foi baleada no braço ao proteger o filho de um tiroteio, no Morro da Chatuba.