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Verão de violência no Rio

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Renato Grendelle e Florença Mazza, Agência JB

RIO DE JANEIRO - Um verão de violência ...

Quinta-feira, 21 de dezembro, 19h. A volta para casa depois de mais um dia de trabalho engarrafa o Túnel Zuzu Angel, no sentido Zona Sul. A cena, familiar para os motoristas, é interrompida por dois homens em uma motocicleta. Passando rápido entre os carros, param ao lado do banco carona de um deles, dirigido por uma mulher, quebram o vidro e levam sua bolsa. Enquanto a dupla foge, testemunhas do crime buzinam e, inquietos, procuram uma saída. Temia-se que o assalto fosse o início de um arrastão. Não foi. Era o começo do verão.

A estação favorita dos cariocas, que já foi marcada pelas latas de maconha despejadas nas praias em 1988, pela tanga do Gabeira em 1979 e pelos aplausos para o pôr-do-sol no Posto 9, este ano foi marcada pela violência. Não porque os índices de criminalidade deram um salto. Segundo levantamento do recém-criado site Rio Body Count, que contabiliza as mortes violentas ocorridas na cidade por meio de pesquisas em jornais na internet, 343 mortes ocorreram desde 1° de fevereiro, o que daria uma média de 680 assassinatos no verão.

A estimativa é de que a estação termine com um saldo de 18 crimes por dia, ou 1.620 ao todo, conforme os outros anos da década. O que comprova que, o que deixou marcas, foi a barbaridade das ações dos bandidos.

Pela primeira vez, vimos uma criança de 6 anos arrastada por sete quilômetros presa na porta de um carro. O verão que foi inaugurado com uma onda de ataques de traficantes jamais vista e que matou 20 pessoas, termina na próxima terça-feira sob uma caçada a policiais militares que já vitimou 32 homens. Sem contar as imagens de mães que choram pelos filhos vítimas de balas perdidas.

- Finalmente despertamos para o avanço da criminalidade - analisa Silvia Ramos, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec). - Existe um clima de decepção muito aguçado em toda a cidade. Precisamos transformá-lo em reações maduras e levar o debate ao Congresso.

Os dramas pessoais não reinaram solitários no noticiário. Para Silvia, a onda de violência do verão mostra o crime buscando uma nova ordem.

- O avanço das milícias piorou a crise dos entorpecentes - destaca. - A classe média não vai às bocas-de-fumo como antes. Agora, consome drogas sintéticas, que não passam pela favela.

A frustração ainda não se traduziu em medidas concretas: o cobertor da polícia continua curto, e, em Brasília, a redução da maioridade penal, nova bandeira carioca, tramita a passos de tartaruga.

O ex-secretário nacional de Segurança Pública Luiz Eduardo Soares lembra de outra bandeira, levantada há cinco verões, mas que, infelizmente, segundo o sociólogo, não saiu do papel:

-É preciso reativar o Plano Nacional de Segurança Pública, de 2002, abandonado com o contigenciamento de recursos e com a questão da segurança relegada aos governos estaduais. A secretaria nacional ainda não tem o apoio político necessário.

O clima de decepção, diagnosticado por Silvia, para Soares ganha outros nomes:

- Existe um sentimento de angústia e indignação.

...mas ainda assim, verão

João Hélio, onda de ataques a PMs, menina de 12 anos baleada em Vila Isabel, morte cruel a três franceses que faziam o bem em terras brasileiras. Foi um verão doloroso, de fato. Mas as tragédias não ofuscaram de todo a estação predileta dos cariocas.

O três meses mais quentes - em todos os sentidos - do ano também tiveram suas alegrias. A volta de Chico aos palcos, as flores no cabelos das incontáveis garotas de Ipanema (ainda mais belas com o adereço), o carnaval. Ah, o carnaval...

Pierrôs, colombinas e piratas ganharam, este ano, novos companheiros. Se viu de tudo um pouco nos blocos: de casal vestindo fraldas a marmanjos barbados travestidos de noivinhas. Foi mais um carnaval de rua, batendo recorde de irreverência e público - o Monobloco, que teve de se mudar para Copacabana de tanto que cresceu, recebeu mais de 100 mil pessoas na Avenida Atlântica. No Bola Preta, no Centro, o público chegou a 2 milhões.

Foi um verão esquisito também. O sol só deu as caras em 2007 no dia 12 de janeiro. Até o dia 23, só três dias de praia para o carioca. Em compensação, quando a chuva resolveu dar trégua, haja ar-condicionado para dar conta de tantos dias de calor - foram 31 dias sem um pingo d'água. Estiagem que causou estragos na Mata Atlântica e que também prejudicou o abastecimento em alguns bairros, como Leme, Urca e Barra da Tijuca.

Estiagem que fez a festa das mocinhas, loucas para desfilar com seus shorts balonés e macaquinhos, dois hits da estação.

- O macaquinho foi o destaque do verão, sem dúvida. Assim como o vestido, é uma peça única, jovem, a cara do Rio. Uma influência da década de 80 que vai continuar no inverno - aposta Gabriela Rangel, gerente de compras da Leeloo.

Estiagem que ajudou a elevar os termômetros - o recorde foi dia 10 passado, com 40,4 graus na Praça Mauá - e, conseqüentemente, saltar as vendas de sorvete. Ponto para a empresária Renata Saboya, que ousou inaugurar três novas lojas do Mil Frutas e não se arrependeu.

- Vendi bem este ano - comemora.

Os campeões de público? Limão siciliano com casca de laranja, tapioca com canela e Abaneiro, feito a base de frutas tropicais, todos criados especialmente para a estação.

E, por fim, um verão de aplausos ao pôr-do-sol de Ipanema. Porque com todos os problemas, o Rio continua digno de palmas.