Jornal do Brasil

Rio - Eleições 2018

Troca de acusações entre candidatos ao governo do Rio em debate decepciona e desmobiliza eleitorado

Jornal do Brasil SÔNIA APOLINÁRIO, sonia.apolinario@jb.com.br

No início, a confiança. Porém, raiva e tristeza foram os sentimentos que marcaram presença ao final do segundo debate entre candidatos ao governo do Rio de Janeiro, transmitido pela televisão, no caso, SBT. Já o medo foi uma constante. Uma análise sobre os sentimentos que a atração despertou no público foi feito pela agência AP/Exata, de inteligência em comunicação digital, a pedido do JORNAL DO BRASIL. Para o trabalho, foram estudados 4.393 tuítes geolocalizados, publicados a partir do Estado do Rio de Janeiro, no último dia 19, entre 17h45 e 19h30. Foram coletadas publicações contendo a hashtag #DebateSBTRio. São oito as emoções analisadas pelo estudo: raiva, previsibilidade, desgosto, medo, alegria, tristeza, surpresa e confiança.

Quando o debate entrou no ar, 31,75% dos internautas manifestaram sentimentos de confiança. Em apenas cinco minutos, esse índice caiu para 19,86% e chegou ao final da atração com pouco mais do que 15%. No início, o medo era o sentimento de 20% da audiência. Chegou ao final empatado com a tristeza, em 15%. Já a raiva foi de 0% a 15% em menos de cinco minutos e chegou ao final como o sentimento de 20% dos internautas.

“Esse debate não motivou o eleitor. De uma maneira geral, os internautas passaram a maior parte do tempo criticando o nível baixo das participações. Percebemos também que cresceu o índice de surpresa, logo após o início do programa, revelando que os eleitores não tinham conhecimento da realização do debate”, observou o jornalista com Pós-Doutorado em Regulação da Internet Sergio Denicoli, um dos sócios da agência.

Macaque in the trees
Gráfico mostra as emoções que cada candidato despertou no público durante o debate (Foto: Arte de Romildo Gomes)

A confiança teve outro pico de queda, no segundo bloco. Passou de 24,59% para 15,32% quando Garotinho (PRP) iniciou um embate direto com o candidato do PSC, o ex-juiz federal Wilson Witzel. No terceiro bloco, quando os ataques entre os candidatos se tornaram mais contundentes e Garotinho incentivou Índio da Costa (PSD) a criticar a gestão de Eduardo Paes (DEM) como prefeito, houve outra queda no índice de confiança, de 20,13% para 17,88. Esse momento também registrou um aumento significativo dos sentimentos de medo, de tristeza e, principalmente, de desgosto, que passou de 8,31% para 14,35%. 

De acordo com Denicoli, Garotinho foi o nome mais citado pelos internautas e não houve um tema específico que tenha sobressaído, a partir do debate, nas discussões das redes sociais. Ao analisar cada uma das oito emoções, quem despertou mais raiva foi Wilson Witzel. Em segundo lugar apareceu Garotinho, praticamente empatado com Márcia Tiburi (PT) e Tarcísio Motta (PSOL). Já o mais previsível foi Romário (Podemos).

Quem mais provocou o sentimento de desgosto foi Garotinho, seguido de Eduardo Paes. Garotinho também foi quem mais causou medo. Neste caso, foi seguido por Márcia Tiburi. Quem mais motivou alegria foi Índio da Costa, seguido por Pedro Fernandes (PDT). Garotinho também foi o candidato que causou mais tristeza. Quem mais surpreendeu foi Pedro Fernandes, seguido bem de perto por Wilson Witzel. Pedro Fernandes também foi o candidato que mais despertou confiança, seguido por Tarcísio Motta.

Macaque in the trees
Nuvem de palavras mostra que nenhum tema ganhou destaque (Foto: Reprodução)

Perfil militante

Faz parte desse tipo de análise identificar a quantidade de “perfis militantes” em ação na hora do monitoramento. Esses “militantes” são robôs, perfis falsos ou criados exclusivamente para interferir em processos eleitorais, uma prática que vem crescendo a cada eleição e, segundo Denicoli, começou a ser usada com mais força, no Brasil, a partir de 2016. No caso do debate do SBT, os “militantes” corresponderam a 7% do total de perfis que formaram a audiência. Esse índice, segundo Denicoli é considerado baixo, ou seja, provocam menos interferências nos rumos dos debates. Os robôs são computadores programados para publicar vários temas a uma velocidade muito alta. Eles são os principais “aliados” dos “militantes”.

“Existem 31 critérios que ajudam a identificar um perfil como robô. Quantidade de postagens e o tempo entre elas, além do tipo de assunto são alguns desses critérios”, explicou Denicoli, sócio do também jornalista Álvaro Pereira na agência: “Para esse tipo de análise, o importante é acompanhar o padrão. Nós somos muito previsíveis e, quando muda algum padrão, dentro da rede, é como se começasse a piscar uma luz. Com essas mudanças, conseguimos detectar e antecipar tendências”.

Quando se trata de rede social, às vezes o “militante” pode ser um “torcedor” real. A análise detectou, por exemplo, que a alegria aumentou quando Índio da Costa declarou votar em Jair Bolsonaro para presidente da República. A audiência também ficou muito feliz quando ele classificou como “imbecil” a proposta de segurança exposta por Eduardo Paes. “É muito provável que, neste momento, os eleitores ou simpatizantes de Índio tenham se animado a se manifestar com mais entusiasmo, o que fez elevar o sentimento de alegria”, explicou Denicoli lembrando que Wilson Witzel também declarou seu apoio ao candidato presidencial do PSL sem provocar o mesmo sentimento na audiência.

Emoções

Programador da AP/Exata, o paulista Ricardo Martins foi quem transformou em algoritmo a Teoria das Oito Emoções Básicas desenvolvida pelo psicólogo norte-americano Robert Plutchik (1927-2006). Ele desenvolve essa tecnologia há três anos, como parte do seu doutorado em inteligência artifi cial na Universidade do Minho (Portugal). Segundo ele, seu trabalho consiste em detectar as emoções das pessoas a partir do que elas registram nas redes sociais. Depois, cada emoção ganha sua própria sequência formada apenas pelos números zero e um, o “alfabeto” da computação.

Segundo ele, seu desafi o, no momento, é estabelecer uma “maneira efi ciente” de detectar ironias. Martins ainda tem mais dois anos de estudos pela frente. Seu objetivo é detectar nas falas sinais de estresse e fadiga. “Essa tecnologia poderá ser utilizada para melhorar performances na escola ou no trabalho ou ainda evitar acidentes. É uma ferramenta que serve de apoio para muitas coisas”, comentou.



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