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Rio

Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência comemora passagem do santo aos céus em 4 de outubro, com missas e dois concertos gratuitos

Jornal do Brasil CELINA CÔRTES, celina.cortes@jb.com.br

Com duas das três etapas de revitalização já aprovadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan) e pelo Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac), a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, no Largo da Carioca, no Centro, celebra o dia do santo, 4 de outubro — data em que São Francisco de Assis (1182-1226) teria subido aos céus —, com muitos motivos para comemorar. Ainda na fase de captação dos R$ 200 milhões destinados a obras emergenciais — como a instalação de elevadores —; à recuperação do acervo de 5.300 livros acumulados desde 1622 — já embrulhados por especialistas em panos para preservá-los da umidade —; e à construção de um anexo para o museu, para abrigar as mais de mil peças guardadas em reserva técnica, a igreja será aberta na data à visitação gratuita, com missas especiais e dois concertos de música clássica, às 12h e às 17h30.

A igreja passou 40 anos fechada ao público e foi reaberta à visitação há cerca de dez anos. Muitos cariocas sequer imaginam que a cidade do Rio de Janeiro abriga um tesouro deste quilate. No início a entrada era gratuita. Depois, passou a ser cobrado o ingresso de R$ 10 pela visita da igreja e do Museu Sacro — a visita guiada custa R$ 15 —, que reúne um rico acervo de mobiliário, prataria, cerâmicas e quadros.

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Visão da nave, cuja pintura glorifica São Francisco de Assis (Foto: Marcos Tristão)

Entre as obras, os jazigos do cemitério, por exemplo, de onde já foram transferidos os restos mortais para o espaço da Ordem Terceira no Cemi

TESOURO

tério do Caju, na Zona Norte, serão transformados em vitrines do acervo. Uma campanha realizada a partir de outubro de 2017 turbinou as visitas de 50 para até duas mil pessoas por mês. Agora, a menina dos olhos do administrador, Carlos Pinheiro, há 18 anos trabalhando no espaço e membro da Ordem Terceira, é conseguir o apoio das empresas de ônibus para manter as visitas gratuitas das escolas públicas. “Não são visitas para tratar de religião, mas dos estilos arquitetônicos dos prédios e das igrejas em aulas de arte e história”, esclarece. Isso sem falar no sonho em proporcionar aos jovens aulas de restauração e pintura nas dependências do convento, o que ainda vai depender de recursos, os quais Pinheiro estima chegarem até o início do próximo ano. “Temos um contrato com a Fundação Getúlio Vargas que garante a qualidade, execução e transparência do projeto”, conta.

A Ordem Terceira da Penitência começou a se estabelecer no Largo da Carioca em 1619, quando já existia ali a Igreja e o Convento de Santo Antônio, por iniciativa do casal de portugueses Luiz Figueiredo e Antônia Carneiro. A igreja foi concluída em 1748, com a instalação da portada de pedra de lioz e as armas da irmandade. Executada pela dupla de entalhadores lisboetas Manoel de Brito e Francisco Xavier de Brito, este último mestre do Aleijadinho, que seguiu para Minas Gerais após a conclusão das obras, a igreja deve a riqueza de sua decoração, exemplar máximo do barroco brasileiro, ao ouro mineiro. “Foi tudo talhado em madeira, com uma película de ouro não maciço”, diz Reinaldo Macedo, um dos voluntários da ordem que trabalham no local.

Uma curiosidade é que a igreja não possui torres sineiras, por exigência dos frades do convento vizinho. Outro detalhe singular é o Cristo seráco no altar principal, alado, observado por São Francisco de Assis. A pintura da nave é outro motivo de encantamento para os visitantes, cujo tema central é a gloricação do santo. Na invasão francesa de 1711, os corsários franceses visitaram a igreja e se deslumbraram com o que viram, conforme relato do escrivão da esquadra. Segundo ele, nem na Europa havia tal maravilha. “Embora a construção, realizada por 110 anos, tenha começado pelo projeto dos dois portugueses, tudo o que se fez depois seguiu aquela mesma orientação. É como se tivesse uma única assinatura, o que ajuda a explicar tanta beleza”, observa Pinheiro.

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Frei Estevão Ottenbreit e Carlos Pinheiro, no consistório (Foto: Marcos Tristão)

História de Francisco

É o frei franciscano Estevão Ottenbreit, da Ordem Primeira, que já viveu muitos anos no Rio e está na Universidade Antonianum, em Roma, que fala da vida de São Francisco de Assis, no início do século 18, quando o regime feudal passava à Idade Moderna e a riqueza representada da posse de terras migrava para as cidades e o comércio. Nascido Giovanni di Bernardone dei Moriconi, lho de um comerciante de tecidos, Francisco teve uma juventude irrequieta, até começar a viver experiências de fé. “Foram três momentos. No primeiro, ele propõe que Deus é o pai de todos; em seguida, que todos somos irmãos; e, nisso, inclui os seres humanos e a criação, as plantas e animais, o que acaba por transformar sua mensagem em algo tão atual. Ele foi um pioneiro na defesa do meio ambiente e patrono dos animais”, observa o frei. Como se sabe, o papa Francisco não apenas adotou o nome do santo, como tem seguido a mesma linha de respeito à humanidade e à natureza, como seu mentor.

Embora Francisco não se interessasse por fundar ordens, sua atitude passou a atrair muitos seguidores, que se organizaram em três modalidades: na Ordem Primeira, que reúne os freis; na Ordem Segunda, das clarissas, que permanecem em celibato; e na Ordem Terceira, de leigos, das três, a mais rica. “Na época não havia seguro social, de saúde ou aposentadoria, funções exercidas pela Ordem Terceira, cujo acesso incluía a doação dos bens em vida ou após a morte. No cuidado com a saúde eles mantiveram hospitais, como o da Ordem Terceira da Penitência, derrubado da Rua da Carioca no início do século 20 pelas reformas do prefeito Pereira Passos e transferido para a Tijuca”, explica o frei.

Hoje existem no Brasil 16.345 liados à Ordem Terceira da Penitência, distribuídos em 612 fraternidades pelo país. No mundo, eles estão em 70 países e somam 430 mil franciscanos. Os números são decrescentes, e essa redução é atribuída ao frei pelas famílias menos numerosas e aos compromissos da vida moderna. Em 20 de março de 2019, a ordem comemora 400 anos.



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