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As mais belas fachadas do Brasil

Gustavo Capanema no Centro tem seu exterior, que marcou época na arquitetura, totalmente recuperado

Jornal do Brasil ROGÉRIO DAFLON, rogerio.daflon@jb.com.br

Inaugurado em 1946 como sede do Ministério da Educação e Saúde, o Palácio Gustavo Capanema é sempre acompanhado por um aposto, ou melhor, um clichê: ícone do modernismo. É muito pouco para o edifício que, no Centro do Rio de Janeiro, conta uma instigante história da arquitetura. Amanhã, um dos seus aspectos será realçado: as duas fachadas restauradas serão entregues à cidade numa cerimônia sob o comando do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A última das três fases da reforma do Capanema ainda não tem data para iniciar, mas é algo fundamental: a modernização de toda a parte interna, na qual se incluem a troca das instalações elétrica e hidráulica, fundamental à segurança necessária para que não aconteça uma tragédia como a do incendiado Museu Nacional. As obras no prédio começaram em 2014. Até o momento, os recursos somam R$ 28 milhões.

Macaque in the trees
O pilotis do projeto de Le Corbusier, com o mural de azulejos pintados por Cândido Portinari (Foto: José Peres)

Na fachada norte, o uso do brise-soleil (quebra-sol, em francês) foi numa escala até então não vista no mundo, como atesta o arquiteto Luciano Lopes, um estudioso da edificação. “Se a gente imaginar um retângulo, ao norte, vemos a fachada com brise-soleil e, ao sul, a fachada com janelas de vidro, também feita numa escala inédita nos padrões internacionais”, diz o arquiteto, ressaltando que as outras duas partes do retângulo são empenas mortas (apenas parede).

As fachadas, explica Lopes, têm imenso impacto estético, mas aproveitam muito bem o sol e o vento. “Como as fachadas são opostas uma a outra, garante-se assim a ventilação cruzada, que é o vento sem obstáculo para circular”, diz. É claro que alguns edifícios erguidos próximo ao Gustavo Capanema se tornaram bloqueios à ventilação, como o prédio anexo da Academia Brasileiras de Letras, projetado pelo arquiteto Maurício Roberto.

Macaque in the trees
A fachada traseira do prédio, envidraçada, que também foi recuperada (Foto: José Peres)

A fachada de vidro, acrescenta Lopes, foi feita num tempo em que não se fabricava vidro no Brasil. Nela, Lopes vê também a importação de ideias da Bauhaus, a escola alemã de design, artes plásticas e arquitetura de vanguarda criada na Alemanha, em 1919.

Quanto à fachada com janelas com brise-soleil, diz Lopes, “Trata-se do maior conjunto de brise-soleil do mundo”, dimensiona o arquiteto. “Não há monotonia na fachada norte, porque há como uma pessoa controlar como quer a entrada do sol e do vento”, diz ele, acentuando que a vista de quem olha esse conjunto da rua sempre impressiona.

O arquiteto também elucida o motivo da cor azul utilizada no brise-soleil. “Lúcio Costa considerava a cidade do Rio rica em elementos arquitetônicos. Uma das edificações que lhe agradavam era a Igreja de Santa Luzia, que tinha uma pintura externa azul. Foi aquele tom de azul que ele determinou que o conjunto de brise-soleil tivesse. Esse tom ficou conhecido como azul Lúcio Costa”, conta Luciano Lopes.

As linhas do Gustavo Capanema convergem para oito nomes do modernismo. Um deles é o franco-suíço Le Corbusier, consultor e inspirador do projeto ao qual exigiu os cinco pontos da arquitetura moderna: pilotis, planta livre, terraço-jardim, fachada livre e janelas horizontais. A convite de Lúcio Costa, Corbusier veio ao Rio em 1936 para aconselhar a equipe. Nela, estava um jovem arquiteto de 28 anos com quem o pai do modernismo conviveu três meses. Há quem diga que esse dia a dia com o estrangeiro influenciaria Oscar Niemeyer por toda sua vida. Mas foi sob a direção de Lúcio Costa que as linhas do Gustavo Capanema começaram a ser traçadas com o time também integrado por Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Ernani Vasconcelos e Jorge Machado Moreira.

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O Monumento à Juventude Brasileira, de Bruno Giorgi, nos jardins do palácio (Foto: José Peres)

Burle Marx (paisagismo), Portinari (painéis e quadros), Bruno Giorgi, Adriana Zamoiski, Celso Antônio e Jacques Lipchitz (esculturas) também não só compõem o genial grupo de trabalho, como expõem a intenção de casar arquitetura com artes plásticas.

Não à toa, o Gustavo Capanema será a estrela máxima a ser utilizada para o o 27º Congresso Mundial de Arquitetos, que em 2020 terá o Rio de Janeiro como sede. Promovido pela União Internacional de Arquitetos (UIA), o evento ocorrerá pela primeira vez no no Brasil.

Uma inspiração para que a preservação do mais famoso prédio sobre pilotis do país seja eterna.



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