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Secretaria de Patrimônio da União decide doar terreno abandonado para o Museu Nacional

Jornal do Brasil MARIA LUISA DE MELO, malu@jb.com.br

Depois do incêndio que atingiu o Museu Nacional e destruiu 90% de seu acervo, eis que surge uma boa notícia: após longo período de avaliação, a Secretaria de Patrimônio da União (SPU) decidiu doar ao museu um terreno de quase 50 mil metros quadrados, vizinho à Quinta da Boa Vista. A área, onde ficavam as antigas Cavalariças Imperiais, era pleiteada desde o ano passado pela direção da instituição. Agora, servirá para a construção de um anexo que abrigará exposições e obras doadas por colecionadores. Como o JORNAL DO BRASIL já havia antecipado, o terreno está localizado entre os bairros de São Cristóvão e Maracanã, e é o único não-tombado da região. Ou seja, pode ser edificado sem depender de autorizações do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Ao todo, segundo a seccional Rio de Janeiro da SPU, são 60 mil metros quadrados de área. Para o museu, ficarão 50 mil metros. Os outros 10 mil já estavam prometidos para o governo do estado e servirão para a construção da Casa da Mulher Brasileira — um projeto voltado para assistência de mulheres vítimas de violência.

Essa região, hoje, está completamente abandonada. Na entrada do terreno, cujo acesso se dá pela Avenida Bartolomeu de Gusmão, em frente ao Corpo de Bombeiros de São Cristóvão, usuários de drogas, autoescolas e um lava-jato clandestino ocupam o espaço.

Apesar de a área manter poucos resquícios históricos, nela eram tratados os cavalos da Corte até a Proclamação da República. Do século 19, restou apenas um grande portal, em estilo neoclássico, que está deteriorado. Em seu interior, foram improvisados quatro puxadinhos, dois em cada lateral. Sem qualquer fiscalização do poder público, oito autoescolas de bairros vizinhos, como Tijuca e Maracanã, usam livremente o espaço. Seus representantes já demarcaram, no chão, cada pedaço que cabe aos diferentes treinamentos para direção de ônibus, motocicletas e carros de passeio.

Segundo conta um condutor de uma autoescola que pediu para não ser identificado, agentes da Guarda Municipal fizeram uma ação no local há cerca de dois meses. Mas de nada adiantou. Foi só o grupo virar as costas que tudo voltou à completa desordem. “Colocaram até barreiras na entrada pra evitar o nosso acesso. Mas não adianta. Esse aqui é o melhor lugar para ensinar quem precisa aprender a dirigir. Não posso pegar um aluno e levar direto para dirigir na rua. É fundamental treiná-lo num espaço como esse. Já tentamos legalizar nosso acesso ao terreno com políticos, mas ainda não conseguimos”, contou.

Em frente ao histórico portal, um outro grupo também não tem o menor interesse em devolver a área. “Nosso lava-jato já é conhecido. Vem gente de fora para lavar o carro aqui. Se o museu realmente vier para cá, vão nos tirar. Aí a gente perde o ganha-pão”, queixou-se um dos responsáveis pelo negócio.

A doação do terreno para o Museu Nacional ainda depende de um decreto. Procurado, Sidrack de Oliveira, titular da Secretaria de Patrimônio da União, em Brasília, não foi encontrado, porque está de férias. Em nota, a assessoria do Ministério do Planejamento, à qual a SPU está subordinada, informou que “está providenciando a alteração da destinação da referida área para atender ao pedido do diretor do Museu Nacional, no Rio de Janeiro”. Segundo o documento, isso é necessário porque “o imóvel está destinado à provisão habitacional. Portanto, para ser entregue ao Museu Nacional terá que ter sua destinação modificada, o que deve ocorrer em breve”.

Ansioso para ter acesso à área, o diretor do Museu Nacional, Alexander Kellner, já faz planos para ocupar o espaço. Para ele, serão “50 mil metros quadrados de esperança”. “Teremos uma ligação do Museu Nacional com esse terreno, porque fica um colado no outro. Será uma extensão do espaço que temos hoje. O Museu não acabou. Temos muita gente querendo fazer doações, mas precisamos de espaço. Nossa ideia é manter exposições para receber muitos visitantes, sobretudo alunos, neste novo lugar”, explica o diretor.

As construções ali, segundo Kellner, terão no máximo três andares e contarão com extensos jardins, uma continuidade da Quinta da Boa Vista. Enquanto os prédios não ficarem prontos, o espaço contará com contêineres para abrigar pesquisadores, alunos e materiais. “Serão pequenos prédios em sistema de parque. A ideia central é que os espaços sejam de vidro, para que os visitantes vejam os pesquisadores trabalhando, seja preparando um animal ou limpando um fóssil para exposição”, conta o gestor.



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