Jornal do Brasil

Rio

Mercadinho São José em risco

Espaço gastronômico e cultural de Laranjeiras pode ser despejado segunda-feira

Jornal do Brasil CELINA CÔRTES, celina.cortes@jb.com.br

O iminente risco de despejo do Mercado São José das Artes, centro de cultura e gastronomia de Laranjeiras, na Zona Sul, previsto para esta segunda-feira, ainda pode ser revertido. Isso porque nem todos os 16 boxistas que trabalham no local chegaram a ser cotados no processo movido pelo INSS, proprietário do imóvel, como é o caso do Grupo Abadá, um dos mais famosos grupos de capoeira do país, que está no local desde sua fundação, em 1989. A desativação do espaço está sendo executada por ordem do juiz Júlio Mansur, da 14ª Vara Federal.

Macaque in the trees
O Mercadinho: prédio é tombado pela prefeitura e já serviu de estrebaria de uma fazenda que existia em Laranjeiras (Foto: José Peres)

Durante a década de 80, o INSS deixou que o imóvel ficasse abandonado ao longo de dez anos. “Foi invadido por marginais e virou um depósito de lixo e criatório de ratos, baratas e insetos, que infestavam o bairro. Em 1989, a Associação de Moradores de Laranjeiras se mobilizou e conseguiu um acordo entre o INSS e a Secretaria de Cultura, para criar ali um centro cultural e gastronômico”, diz Carlos Newton, diretor cultural do espaço. “Só agora, depois de 25 anos, a Justiça decreta o despejo”, reclama.

Cerca de 60 pessoas perderão seus postos de trabalho com a reintegração de posse pelo INSS, entre microempresários e seus funcionários. Se a ordem judicial for cumprida, serão fechados os cinco restaurantes, a Escola/Estúdio de Música, o Centro Cultural Laranjeiras, mantido pelo ator Bernard Fuerth, o Atelier de Arte Luiza Mariana e o boxe do Grupo de Capoeira Abadá. “Além disso, o Mercado deixará de sediar três tradicionais blocos de carnaval: Imprensa que eu Gamo; Bloco da Ansiedade, o único do Rio que tem bonecos de Olinda; e Eu quero é botar meu bloco na rua, que homenageia o compositor Sérgio Sampaio”, lembra Newton.

Era no mercadinho que se reunia a turma de Tom Jobim, integrada por José Lewgoy, Paulo José e João Ubaldo Ribeiro, entre outros, antes de se mudar para a Cobal do Leblon, após a morte do proprietário do Bar Sociedade Morena, Deco Wanderley. Quando Tom foi homenageado como Cidadão Benemérito do Rio de Janeiro, foi alugado um piano de cauda para o show feito no mercadinho pelo autor de “Garota de Ipanema”.

Macaque in the trees
Carta de Tom Jobim enviada ao então prefeito Marcello Alencar pedindo a manutenção do espaço (Foto: Divulgação)

Não é a primeira vez que o Mercado São José corre risco de despejo. O então prefeito Marcello Alencar chegou a fazer essa ameaça mas desistiu dela, depois de receber uma carta [leia a reprodução ao lado] de Tom Jobim, pedindo a manutenção do importante espaço cultural. O maior temor de Carlos Newton é a falta de segurança do Mercado São José. “O espaço logo será invadido. São três entradas por portas altas e arredondadas, sem portões, e o que existe são apenas grades frágeis de madeira, que podem ser facilmente quebradas. Por isso, há necessidade de vigilância noturna, de caráter permanente, que até agora vem sendo paga pelos boxistas”, explica.

O despejo ocorre durante uma negociação em curso com o INSS, conduzida pelo secretário estadual de Cultura, Leandro Monteiro. Segundo o diretor cultural, que na quarta-feira teve reunião com três procuradores federais do INSS, a negociação já é do conhecimento do presidente do INSS, Edison Garcia, e foi interrompida porque houve mudança na Gerência Regional do INSS. “O novo titular só assume na segunda-feira, quando será consumado o despejo, se não houver a conciliação. Os procuradores revelaram que existe uma determinação de Brasília para que todos os imóveis do INSS sejam recuperados judicialmente para serem vendidos”, diz Newton.

Por ter sido tombado pela Câmara Municipal e pela Prefeitura do Rio, porém, o imóvel não pode sofrer modificações, o que reduz seu valor comercial. O espaço foi a estrebaria de uma fazenda que existia em Laranjeiras, onde eram plantados café e frutas cítricas, daí o nome do bairro. A estrebaria ficava à beira do Rio Carioca, que hoje corre subterrâneo até o Aterro do Flamengo.

Na própria quarta-feira, o advogado Leonardo de Souza Teixeira, que representa os boxistas, encaminhou uma petição ao juiz Julio Mansur, solicitando que seja sustado o despejo até a conclusão das negociações entre a Secretaria de Cultura e o INSS. O juiz, contudo, ainda não despachou a petição.



Recomendadas para você