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Incêndio no Museu Nacional: Alma Mater

Jornal do Brasil ANTONIO CARLOS DE SOUZA LIMA*

Pediram-me que escrevesse sobre a tragédia (anunciada pelo descaso público de décadas para com a educação e cultura) do incêndio do Museu Nacional que, na noite de domingo, consumiu as entranhas de um prédio recheado de preciosidades. Documentos sobre a história de múltiplos povos, notadamente dos Povos Indígenas habitantes desta porção das Américas chamada hoje Brasil, dos povos negros para cá transplantados sob o jugo do tráfico de escravos, e sobre a incrível biodiversidade contida em nosso território e no mundo, expressa e exposta em coleções e exposições que “a Casa”, como muitos o chamavam, vinha recuperando pouco a pouco com enormes esforços e pouquíssimos recursos. E muitas coisas mais difíceis de se transmitir em 4.000 caracteres.

Ali entrei como aluno, em 1980, para cursar o mestrado no já então prestigioso Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, que em 2018, quanto o Museu comemorou seus 200 anos, celebra seu cinquentenário, viu sua preciosa biblioteca (das mais importantes em Antropologia na América Latina, um orgulho para todos nós), construída em cinco décadas de esforços de diversas gerações das quais sou parte, transformada em cinzas. Descobri então, que chegara onde sempre sonhara: numa “casa de ciência”, onde a pesquisa nunca entra de férias, em que é normal se trabalhar sábados e domingos por amor e prazer, onde há sempre movimento, se está sempre em produção, para além dos ritmos acadêmicos escolares.

Aprendi a conhecer e conviver com o maravilhoso trabalho de colegas biólogos, geólogos e paleontólogos, sem falar nos mais próximos da antropologia: bioantropólogos, arqueólogos e linguistas. Essa convivência nem sempre simples, nem sempre fácil, nos dá a todos a ideia da vastidão do conhecimento humano, de nossa grandeza para além do tempo. Ali me tornei pesquisador (1985) em projetos de pesquisa de grande vulto, técnico em antropologia (1987), prestei concurso em 1988, e tornei-me docente em 1989, chegando a Professor Titular de Etnologia em 2015.

Suas seis pós-graduações, ampla gama de ações e projetos de extensão — como o projeto “Meninas com ciência”, voltado para apresentar às meninas, ainda hoje em menor número em muitas áreas, variados aspectos da produção científica —, nunca cessaram de me encantar e, sobretudo, de me dar sentido à vida, de ajudar a tecer um projeto de futuro, de construir, pela via da pesquisa e do ensino, o futuro de um Brasil melhor, mais equânime e mais justo do que aquele da ditadura civil-militar sob o qual cresci e me profissionalizei.

Mais: redescobri o que sempre soube, isto é, que este museu, casa de formação, é para a população do Rio de Janeiro um ícone de lazer, aquisição de conhecimento, estímulo à curiosidade. Difícil encontrar quem não o tenha visitado, ao menos uma vez na infância, e que guarde na memória o “seu” Museu particular: para uns o meteorito Bendengó, para outros as múmias (algumas raríssimas no mundo afora), para outros os dinossauros ou “a baleia”. Um Museu amado, num parque cheio de vida aos finais de semana.

O Brasil e o mundo perderam, pela incúria de décadas de seus tomadores de decisão, de equipes econômicas (sic), assim como de elites empresariais tacanhas, alheias à cultura, um patrimônio incalculável e único. Pouco ali poderá ser reposto. Peças das culturas de povos que já não as fabricam, submetidos a séculos de opressão colonial, espécimes raros da fauna, como a linda exposição de corais que contava com material desde 1865, recém inaugurada.

Perdi, em brasas, e agora em poeira, a materialidade de minha Alma Mater — a Deusa Mãe em Roma, associada à terra nutriente, expressão hoje transposta às universidades em seu papel de provedoras do alimento do espírito e da razão, e que ali, antes de todas as universidades brasileiras floresceu. Perdi muito mais que uma parte de mim, em que pus mais de 30 anos de atividade incessante. Cresce o obscurantismo, amesquinham-se os tempos.

Mas a comoção da cidade e de todos os integrantes de nossa casa, diz-me que ela vive dentro de nós, e que não cessaremos de lutar para que volte a se materializar.

* Professor titular de Etnologia do Museu Nacional/UFRJ



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