Centrão pressiona governo a baixar combustíveis e antevê derrota de Bolsonaro

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Foto: Reuters / Adriano Machado
Credit...Foto: Reuters / Adriano Machado

Felipe Frazão - O núcleo do Centrão já dá como certa a derrota do presidente Jair Bolsonaro nas eleições, caso o governo não consiga imediatamente baixar o preço dos combustíveis. Principal fiador do governo, o grupo de partidos fisiológicos abandonou o discurso otimista de que Bolsonaro passaria o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva até este mês e agora diz que, se ele não resolver a alta do preço nas bombas, não tem como "começar a jogar" porque aí o "liberalismo vira uma coisa cruel e sanguinária". O plano de recuperação de Bolsonaro foi batizado por dirigentes do Centrão como "It's now or never" (do inglês, é agora ou nunca).

A pressa se justifica porque o governo, segundo líderes do grupo, precisa mudar a percepção do eleitor urgentemente. Para tanto, o caminho é fazê-lo sentir: 1) alívio no preço dos combustíveis; 2) sensação de que pode voltar a quitar suas dívidas; 3) consumo de volta e 4) que Bolsonaro é responsável por esta melhora.

Como o tempo é curto para o que precisa ser feito, o grupo já trata com ironia o resultado da eleição. Integrantes do Centrão dizem que terão de ser governo de qualquer jeito, “até mesmo com Lula”.

 

Medidas

Bolsonaro enfrenta resistências da equipe econômica para adotar medidas que repercutam no preço dos combustíveis. Uma das propostas da área política é o bolsa-caminhoneiro e um auxílio para motoristas de táxis e aplicativos, como mostrou o Estadão. O governo também estuda subsidiar o preço do diesel, mas há restrições impostas pelo teto de gastos, a regra que atrela o crescimento das despesas à inflação. Além disso, ele também precisa convencer o Congresso a tomar medidas para burlar a regra fiscal. Nesse momento, Bolsonaro não tem sequer líder no Congresso.

 

Lula

O Centrão não cogita ficar fora de um novo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), virtual vitorioso no cenário traçado por aliados do presidente, embora demonstre discordâncias com o receituário econômico petista, mais estatizante e contrário a privatizações que andaram com apoio do bloco de centro-direita. Um dos elos do grupo para justificar o ato de reatar com Lula, caso ele vença, tende a ser o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSB), que foi apoiado pelos caciques do bloco em 2018 e tem posições mais liberais.

Há quem avalie até mesmo que o Centrão poderia apoiar mais Alckmin do que Lula e enxergue nisso risco ao impeachment do petista, caso ele decida, por exemplo, restabelecer a relação de presidencialismo de coalizão que manteve no passado e enfrentar os mecanismos do orçamento secreto, elaborados pelo governo Bolsonaro pelo Centrão para fazer jorrar recursos bilionários nas mãos dos parlamentares.

Lula já foi aconselhado por petistas que comandaram a Câmara no passado a alterar a correlação de forças - atualmente, os congressistas detêm mais recursos que alguns ministros. O ex-presidente classificou como “podridão” o mecanismo que garantiu estabilidade a Bolsonaro e apoio eleitoral aos aliados do governo.

“O Congresso Nacional não tem que ter orçamento próprio, do relator. Quem tem que cuidar do orçamento é o Poder Executivo deste País. Então está tudo mudado, está tudo corrompido, está tudo diferente. E esse país tem que voltar à normalidade”, disse Lula ontem em Porto Alegre (RS) em encontro com representantes do setor cultural.

Como hoje quem dá as cartas na destinação das emendas são os congressistas, uma ala de senadores ciente da intenção de Lula de retomar o controle sobre fatia bilionária do orçamento começou a criar um modelo híbrido. A estratégia consiste em fazer com que os parlamentares continuem com o protagonismo na decisão, mas enviem dinheiro a um leque de obras definido pelo Executivo, especialmente as já paradas.

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