Por que Jair Bolsonaro não tem um líder no Senado?

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Foto: Pedro Ladeira/Folhapress
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O senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente da República, tem atuado informalmente como uma espécie de líder do governo no Senado, posto que está vago há pouco mais de dois meses, desde a saída de Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE). Faltando apenas oito meses para o primeiro turno das eleições, a ausência de liderança na Casa se transformou em um problema grave para a articulação política do presidente, traduzido também em números: das 45 propostas apontadas pelo governo como prioritárias, e encaminhadas ao Congresso na semana passada, 11 tramitam no Senado e estão travadas.

Atualmente, o Senado é presidido por um parlamentar que é concorrente de Bolsonaro nas eleições de outubro, o senador Rodrigo Pacheco, pré-candidato à presidência da República pelo PSD. As circunstâncias e o cenário pouco promissor para o presidente brasileiro levantam dúvidas: por que existe uma vacância em um cargo tão influente? E como esse quadro pode prejudicar a tramitação dos projetos do governo?

Para o cientista político Acácio Miranda da Silva Filho, o presidente está sem líder no Senado porque há poucos senadores que tenham afinidade política com Jair Bolsonaro. Ele explicou que, após a eleição de 2018, muitos senadores recém-eleitos eram "lavajatistas", e por isso criou-se a percepção de que o presidente teria um Congresso favorável ao seu governo.

Acácio Miranda entende que o presidente, ao invés disso, "teve grandes dificuldades em falar com os outros poderes, Legislativo ou Judiciário". Tratando-se do Senado, embora tenha havido uma grande renovação de senadores em 2018, e "essa grande renovação tenha se dado a reboque do mesmo movimento politico que elegeu o presidente [lavajatismo], "não há afinidade política com ele".

"São senadores que têm uma afinidade ideológica muito fiel aos interesses particulares de seus respectivos eleitorados, "isso reverbera em uma posição independência", comentou, em entrevista à agência de notícias Sputnik Brasil, relembrando casos em que o Senado apoiou a oposição, e em outros, o governo.

Para Acácio Miranda, as outras vagas para o Senado das eleições de 2018 "foram preenchidas por caciques políticos", e estes não devem se aproximar do presidente ao ponto de representarem o governo no Senado. "Não achar um senador evidencia as dificuldades" que o presidente tem na Casa.

Historiador da Universidade Federal Fluminense, Victor Leandro Chaves Gomes também analisou o cenário político do presidente brasileiro dentro do Congresso. Ele avalia que "Bolsonaro vem perdendo capital político de maneira muito acelerada, em especial por conta da situação calamitosa do país ao longo da pandemia". Para ele, as complicações econômicas do Brasil, como "o crescimento pífio, o retorno ao mapa da fome, as dificuldades de sensibilidade do governo, o numero de desempregados", são fatores que também podem explicar as dificuldades para o governo conseguir um representante oficial no Senado.

Vale lembrar que, segundo pesquisas recentes, o governo é desaprovado por 59% da população, e 53% classificam Bolsonaro como ruim ou péssimo. Diante da falta de apoio, Bolsonaro está com sua reforma tributária parada (talvez a principal promessa de Paulo Guedes antes da eleição), e a imprensa fala abertamente das desavenças entre presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, e o ministro da Economia.

A avaliação de aliados de Pacheco é a de que Guedes faz discurso de ajuste fiscal, mas sempre se rende às ideias do presidente Jair Bolsonaro, que quer "abrir o cofre em sua campanha" pela reeleição. A pressão do Planalto para que governadores reduzam a cobrança do ICMS, imposto arrecadado pelos Estados, também incomodou o Senado.

Por outro lado, embora seja evidente que o presidente tenha problemas no relacionamento com o Legislativo, e que isso desencadeou problemas de governabilidade, Victor Leandro Chaves não acredita que a eleição esteja resolvida para a oposição. "É um erro estratégico gravíssimo afirmar que Bolsonaro está fora da disputa", comentou.

"É preciso olhar para as redes sociais, e pensar em estratégias. É preciso pensar também no avanço das fake news e do serviço da máquina pública ao governo. O Bolsonaro está em campanha desde 2019, e por isso, apesar do cenário favorável [para a oposição], não se ganha eleição de véspera", concluiu. (com agência Sputnik Brasil)

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