Na CPI, Witzel tenta envolver nome de Bolsonaro com assassinato da Marielle

Ex-governador disse que o porteiro do condominio do presidente, que testemunhou citando nome de Bolsonaro como tendo sido procurado pelo miliciano assassino da vereadora, foi investigado pela Polícia Federal e mudou o depoimento

AP Photo / Silvia Izquierdo
Credit...AP Photo / Silvia Izquierdo

Durante depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid nesta quarta-feira (16), o ex-governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel alegou que os estados e cidades "ficaram totalmente desamparados do apoio do governo federal", o que dificultou o combate à pandemia do novo coronavírus Sars-CoV-2.

O político explicou que a falta de efetividade na luta contra a emergência sanitária também se deu pela demora da administração de Jair Bolsonaro para iniciar o pagamento do auxílio emergencial, no ano passado.

"São várias declarações minhas que estão nos órgãos de comunicação a fim de que nós pudéssemos fazer com que o governo federal rapidamente aprovasse o auxílio emergencial, para que a população se sentisse acolhida. Se você pede para ficar em casa porque é necessário, e a população não tem uma resposta do auxílio emergencial na mesma agilidade que as medidas de combate à pandemia eram acionadas, evidentemente que você tem dificuldade de conduzir a pandemia. Então, demorou o auxílio emergencial", afirmou o ex-governador.

De acordo com o político, o envio das verbas federais aos estados para a gestão da pandemia não foi suficiente. "Desde o começo da pandemia, os governadores clamaram pela aprovação rápida do auxílio emergencial. Sabíamos que haveria redução de ICMS, de ISS e que somente o governo federal é que pode lançar mão de recursos para encaminhar aos estados", acrescentou.

Witzel aproveitou seu depoimento para criticar o presidente Jair Bolsonaro e ressaltou que a situação da pandemia no Brasil seria melhor se tivesse ocorrido um "diálogo" entre os governos estaduais e federal.

Ele afirmou que "suplicou" à presidência para encontrar soluções no controle do novo coronavírus. "Se o Brasil tivesse, através do governo federal, não sido negacionista, e desse determinação ao Itamaraty para que negociasse com o governo chinês, alemão e dos Estados Unidos para trazer insumos, respiradores e agora as vacinas, nós não teríamos ficado à mercê dos preços dos mercados internacionais".

Além disso, Witzel defendeu que a gestão Bolsonaro criou uma narrativa estrategicamente pensada - que os governadores destruiriam os empregos - para poder se livrar das consequências do que viria com a pandemia.

"Ele sabia que o isolamento social traria consequências. Como tem um país onde o presidente da república não dialoga com governador do estado? O único responsável pelos 450 mil mortes tem nome e endereço", enfatizou.

Witzel deixou o cargo de governador do Rio de Janeiro no final de abril após o Tribunal Especial Misto aprovar por unanimidade seu impeachment. Ele foi considerado culpado por crime de responsabilidade na gestão de contratos de Saúde durante a pandemia e estava afastado desde agosto de 2020.

Ao ser questionado sobre um possível superfaturamento na compra de respiradores para o estado, o ex-governador pediu para se retirar, e a sessão foi encerrada.

Uma decisão do ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), garantiu a Witzel a possibilidade de não comparecer ao depoimento. Caso comparecesse, ele poderia ficar em silêncio e não firmar compromisso de dizer a verdade.

Quando Witzel pediu para sair da sessão, o depoimento dele já durava mais de quatro horas. "Agradeço a oportunidade, agradeço as perguntas, e tenho certeza que muito tempos a contribuir futuramente", finalizou.

Caso Marielle

Durante uma sessão tumultuada, Witzel bateu-boca com o senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, e alegou não ser "porteiro" para ser intimidado pelo parlamentar.

A declaração foi dada em referência ao porteiro do condomínio em que Jair Bolsonaro tem residência no Rio de Janeiro, o qual informou inicialmente que os assassinos da ex-vereadora Marielle Franco teriam visitado a casa do presidente, mas mudou a versão do relato.

"Senador, o senhor pode ficar tranquilo que eu não sou porteiro. Não vai me intimidar, não. Mas, senador Flávio Bolsonaro, vossa excelência é contumaz ao dar declarações atacando o Poder Judiciário, especialmente o juiz Flávio Itabaiana", disse Witzel, ressaltando que Flávio era "mimado e mal educado".

Além disso, Witzel disse que sua saída do cargo tem ligação com as investigações no caso Marielle.

"Tudo isso começou por que eu mandei investigar sem parcialidade o caso Marielle", disse o ex-governador. "Por trás do meu impeachment estão aqueles que se aliaram a esse discurso de perseguição aos governadores", prosseguiu.

Quebra de sigilos

Nesta quarta, a CPI da Covid aprovou uma nova série de quebras de sigilo telefônico, telemático, fiscal e bancário. A decisão atinge cinco empresários, entre eles Carlos Wizard, apontado como um dos integrantes do suposto gabinete paralelo para aconselhar Bolsonaro em assuntos da pandemia.

Entre os alvos também estão o presidente do laboratório farmacêutico Apsen, Renato Spallicci e a vice-presidente executiva da empresa, Renata Spallicci; o sócio da Precisa Medicamentos, Francisco Emerson Maximiano; e o sócio-administrador da empresa Vitamedic Indústria Farmacêutica, Jose Alves Filho. (com agência Ansa)