ANÁLISE: Relação entre Brasil e EUA será construída entre diálogos e pressões

'Vários setores nos EUA são contrários ao Brasil e esperam pressionar na agenda ambiental'

Foto: Reuters / Kevin Lamarque
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As relações entre o Brasil de Jair Bolsonaro e os Estados Unidos de Joe Biden serão construídas entre diálogos e pressões: existirão acordos comerciais entre os países, sem deixar de haver também a cobrança para que sejam respeitados os direitos humanos e a agenda ambiental.

Esta é a análise de Denilde Holzhacker, professora de relações internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing em São Paulo (ESPM-SP). A especialista comentou as declarações da porta-voz do governo norte-americano, Jen Psaki, que nesta segunda-feira (8) anunciou o desejo dos EUA de continuar fortalecendo os laços econômicos e comerciais com o Brasil.

Holzhacker destaca que o governo Biden ainda está um momento de estruturação e de formação, reformulando a política norte-americana após anos de governo Trump. Por isso ela aposta que as relações internacionais dos EUA neste momento estarão pautadas em um ponto central da campanha de Joe Biden: o diálogo.

"Existe, sim, uma pressão forte. Vários setores nos EUA são contrários ao Brasil e esperam pressionar na agenda ambiental. Esta pressão está presente. Mas ainda é um momento de reconhecimento e de construção de um diálogo", afirma a especialista à agência de notícias Sputnik Brasil.

Assim como fizeram os EUA, por meio das declarações de Psaki, o Brasil também já sinalizou interesses de aproximação com os Estados Unidos. Em 20 de janeiro, Bolsonaro enviou uma carta a Biden, em que resgata o histórico de diplomacia entre os dois países e fala em aprofundar negociações comerciais e também em construir um acordo de livre comércio.

Por outro lado, apesar do interesse mútuo de aproximação comercial, os EUA não deixarão de pressionar o Brasil em questões sensíveis ao governo Biden, como as da agenda ambiental, de direitos humanos e de defesa à democracia.

"A agenda ambiental é vista como algo central dentro de todas as conversas e posicionamentos do governo Biden, tanto na politica externa como na interna. […] As pressões provavelmente vão continuar sobre o Brasil nesta agenda", avalia Holzhacker.


Alianças internacionais 'podem ser formas mais eficazes de pressionar o Brasil'

No início de fevereiro, Joe Biden recebeu um dossiê com dados e informações que recomendam o congelamento de acordos, negociações e alianças políticas com o Brasil enquanto Jair Bolsonaro for o presidente. O documento foi escrito por professores de dez universidades, além de diretores de ONGs internacionais, como a Amazon Watch, e conta com o endosso de mais de cem acadêmicos de universidades como Harvard, Brown e Columbia, e também de outras ONGs.

Para Holzhacker, a pressão de Biden sobre o governo Bolsonaro deve acontecer cada vez mais alinhada a discussões globais em torno de políticas ambientais e climáticas.

"Os fóruns internacionais, as alianças que os norte-americanos estão fazendo podem ser formas mais eficazes de pressionar o Brasil nestas áreas", opina a especialista.

Na mesma declaração em que anunciou o desejo de maior aproximação comercial entre Brasil e EUA, Psaki afirmou que o governo Biden não iria se "conter em áreas nas quais" discorda de Bolsonaro, referindo-se especialmente às questões ambientais.

Por isso, a especialista aposta em uma aproximação inicial de Biden a Bolsonaro e não acredita que isto signifique um enfraquecimento das pressões sobre o Brasil.

"Provavelmente, a estratégia do governo Biden vai começar por onde é convergente, e onde é possível estabelecer diálogo. E aí a gente não sabe como as agendas e as pressões vão se configurar. Mas essa é a sinalização que foi feita", diz Holzhacker.

'Existem dúvidas' sobre como se dará o fortalecimento dos laços comerciais
Caso as relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos realmente se intensifiquem, Holzhacker acredita em um impulso no âmbito do setor privado. Ela lembra que fóruns de discussão e reaproximação foram reativados recentemente, beneficiando setores como o industrial e os de serviço e tecnologia.

Por outro lado, a especialista cita alguns setores da economia brasileira que têm maior dificuldade de entrada no mercado norte-americano, como os de siderurgia e o etanol feito a partir do milho, que devem acabar preteridos em uma possível intensificação comercial com os EUA.

De maneira geral, no entanto, Holzhacker diz estar curiosa para saber como serão desenrolados os próximos acordos comerciais bilaterais dos EUA, visto que a prioridade do governo Biden está voltada para a economia interna, visando geração de empregos e fortalecimento das indústrias nacionais.

"Existem dúvidas se teria espaço para qualquer posicionamento mais amplo em termos de comércio bilateral, porque isso se chocaria com os interesses e com as políticas prioritárias nos EUA", finaliza Holzhacker. (com agência Sputnik Brasil)