A ética do perdão
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Cada vez mais em voga nas pesquisas acadêmicas das ciências sociais, humanas e de diferentes áreas da saúde, o tema “perdão” é alvo de discussão muito antes de virar objeto de análise pela ciência moderna. Seu conceito já vem sendo articulado pelas religiões há alguns milênios. Filósofos de épocas anteriores a Cristo também já elaboravam tratados sobre o tema. Muitas estradas já foram pavimentadas acerca deste assunto, possibilitando à humanidade percorrer com sabedoria seus muitas vezes árduos caminhos.
Seja qual for a natureza do saber que se debruça sobre ele, o perdão costuma aparecer como elemento regulador das experiências sociais humanas. Ele viabiliza a continuidade de relações que foram atravessadas por erros e feridas, possibilita o exercício da resiliência, dá clareza para a compreensão de limites que não podem ser ultrapassados e faz amadurecer. Não há quem não conheça, por vivência, a ética do perdão.
Mais do que um mero elemento necessário ao micromundo das relações interpessoais, o perdão é também um instrumento presente na diplomacia de diferentes povos e épocas, reconhecido inclusive como fato possibilitador de avanços civilizatórios. Ainda que a resolução de problemas em cenários dessa magnitude seja muito mais complexa, o perdão é um caminho historicamente reconhecido na reconstrução dos tecidos sociais de países marcados por guerras civis, governados por ditaduras, manchados por genocídios e violências de outras ordens.
Curiosamente, por mais conhecido que seja - já que não há quem viva sem a necessidade de recebê-lo e oferecê-lo -, o perdão carece de esclarecimento conceitual. Não por rigor acadêmico, mas pelo efeito que a má compreensão do tema provoca no cotidiano das pessoas. Seja na práxis pastoral ou na atuação clínica, me deparo corriqueiramente com resistências e desincentivos ao cultivo da ética do perdão, que se explicam pelas compreensões equivocadas que muitos têm sobre o tema. Especificamente três reincidem, fazendo com que pessoas o rejeitem: a ideia do perdão como esquecimento; como negligência; e como continuidade.
Demandar que a experiência do perdão se evidencie através do esquecimento de determinado fato é problemático. Esquecer algumas coisas é simplesmente impossível. Ademais, a demanda de que se esqueça algo que uma pessoa sofreu pode ser uma tortura a quem foi alvo da violência. O esquecimento pode configurar verdadeiro perigo. Isso leva à segunda compreensão equivocada sobre o tema: sob a hipótese de não ter havido perdão de verdade, alguns demandam a quem foi ferido “deixar o que aconteceu pra lá”. Entretanto, dependendo da situação, isso pode significar negligência e, consequentemente, risco de reincidência do mal feito. Por fim, há quem pense no perdão como esse exercício necessário de dar continuidade a histórias, a despeito dos riscos que elas ofereçam, do histórico que carregam e do prognóstico vislumbrado.
Perdoar é preciso, mas é necessário que compreendamos corretamente o papel que o perdão desempenha nas sociedades, para que dele nos beneficiemos. Ouçamos as ciências e os saberes, dos mais antigos aos mais modernos. O perdão não é um caminho alternativo à justiça, nem uma romantização ou simplificação na resolução dos conflitos dos relacionamentos humanos. Ele é, com todos os seus desafios e complexidades, o elemento ético indispensável, e talvez único, capaz de garantir a viabilidade das nossas relações.
Daniel Guanaes. PhD em teologia pela Universidade de Aberdeen, Escócia, é pastor na Igreja Presbiteriana do Recreio, no Rio de Janeiro, e psicólogo.