ARTIGOS
Reflexões à beira das trevas
Por ADHEMAR BAHADIAN
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Publicado em 16/10/2022 às 09:08
Alterado em 16/10/2022 às 09:08
Começo com um teste para os bem informados: quem dos seguintes personagens vivos ou mortos escreveu a seguinte frase: “quando os pais não podem alimentar seus filhos, nada mais importa”. Gandhi? Roosevelt? Bolsonaro? Biden? Lula? Trump? Papa Francisco? Bispo Crivella? Padre Antonio Vieira? Dom João VI? Marx? Madre Teresa?
Acertou quem respondeu Biden. E num dos mais importantes documentos dos Estados Unidos da América publicado na ultima segunda-feira 10. Trata-se da Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos proposta pelo governo de Joe Biden.
O documento merece análise detida, mas extrapola os limites de espaço e, sobretudo, de erudição deste cronista. É tarefa para os professores da UFRJ, José Fiori e Mauricio Metri, craques da geopolítica e da política internacional.
As considerações abaixo talvez possam interessar eleitores brasileiros nas vésperas do segundo turno eleitoral no próximo dia 30. É com espírito certamente crítico, mas igualmente leal, que as faço aqui para eventual leitura em busca de uma racionalidade mais do que necessária neste outubro de 2022.
Em primeiro lugar, noto com prazer a mudança de arrogância dos textos da Era Trump, embora se explicite de forma claríssima que os Estados Unidos da América insistam no papel hegemônico de “primus inter pares”, ameaçado pelo crescimento econômico-militar da China. Não reside aí nenhuma novidade.
Novidade é o reconhecimento de que a globalização e a consequente ideologia neoliberal demandam correção de óbvios desequilíbrios e desajustes sociais . Assinala dever-se taxar ainda que minimamente as grandes corporações internacionais onde quer que se encontrem, promover um controle climático de caráter universal com vistas a promover desenvolvimento econômico universal.
Advoga que as organizações internacionais, ONU `a frente, devem retomar os esforços multilaterais em estreita cooperação com políticas diplomáticas bilaterais ou regionais. Uma óbvia crítica ao bilateralismo esmagador defendido por Trump.
Finalmente, e certamente da maior relevância , o documento assevera a importância da Democracia como indispensável para a consecução desses objetivos e condena de forma enfática os movimentos desagregadores autocráticos como falidas alternativas.
Por mais que a Estratégia de Segurança de John Biden reafirme conceitos hoje discutíveis da geopolítica planetária, é de inegável evidência que reconhece os exageros da globalização e do neoliberalismo, cartilha seguida desde os tempos de Reagan e Thatcher nos anos 80 do século passado.
Surge agora na agenda da política externa americana o reconhecimento de que só através de um desenvolvimento mais igualitário se poderá avançar na preservação do próprio planeta, ameaçado pelo descontrole climático e ambiental. Enfatiza o papel da Democracia e condena movimentos autoritários a ela pretensamente superiores.
O documento exige reflexão por parte dos eleitores brasileiros ,em especial pelos que temem possa o Brasil optar por um regime autocrático na hora de anunciado combate ao desajuste social e econômico com propostas racionais de erradicação do desarranjo internacional neoliberal.
Não deixa de ser sintomático a estratégia de segurança dos Estados Unidos apontar o hemisfério Ocidental ( a massa geográfica que vai do Canada, atravessa o Brasil, abarca o Caribe e termina no extremo da América do Sul ) como o de maior importância à segurança dos Estados Unidos da América.
Mais sintomático ainda é o silêncio do documento sobre o Brasil, embora se refira ao Canadá, ao México e à Argentina, realçando a participação desta última na reunião do G7.
Para bom entendedor meia palavra basta. E a palavra aparece na importância da floresta amazônica no controle climático. Não leio nem a omissão do nome de nosso país como censura, nem a menção à Amazonia como advertência . Vejo apenas expectativas diante da decisão do povo brasileiro em 30 de outubro.
Até os monges trapistas, calados e surdos às notícias deste mundo, sabem que depois do primeiro turno, em que o Congresso Nacional oferece expressiva maioria a eventuais propostas do atual Executivo, vieram à luz do dia declarações , mais do que espantosas, a indicar a intenção de se transformar o Brasil numa Democracia iliberal, codinome de ditadura.
E o anúncio nos chegou dentre outros pelo líder do governo na Câmara dos Deputados, reeleito pela enésima vez, para o cargo de Deputado Federal. (Será que algum dia se fará uma reforma política que limite o carreirismo político, agravado agora com o orçamento secreto?). E o líder do governo não deixou pedra sobre pedra ao anunciar o que já se refoga nos caldeirões antidemocráticos: a manobra de se fazer uma alquimia à Frankenstein no Supremo Tribunal Federal.
Desmentidos e imprecações se seguiram à justa resistência da sociedade. Mas, não dá para carimbar um sigilo de cem anos em língua de compadre
Já na área econômica, os sinais de que se continuará na mesma toada de realejo caipira são mais do que óbvios. Nosso Czar deu-se ao trabalho de ir à reunião do FMI em Washington para criticar os que discrepam de sua iluminada visão do mundo e, de trivela, agrediu seus pares na Europa por estarem "dirigindo dormindo no volante.” Ao voltar, levantou a tranquilizadora bandeira de que os funcionários do governo que contribuem durante 30 ou mais anos para a previdência social não teriam direito a mais do que cinco mil reais mensais como proventos de aposentadoria.Uma mão de gata assanhada na poupança alheia. E uma triste cópia da reforma da Previdência de Pinochet, responsável por um surto de suicídios de anciãos naquele país. Uns por miséria, outros por não suportarem serem fardos para seus filhos.
Enquanto os Estados Unidos farão investimentos públicos de cerca de um trilhão de dólares nos próximos anos em infraestrutura , renovação da rede de saneamento público, projetos de energia renovável, nosso Czar retira da cartola mais um ratinho endiabrado a roer a renda da classe média brasileira. Típico de quem nunca deu a menor pelota para o desenvolvimento humano no Brasil, arpoou com a frieza de caçador de focas o ensino e a saúde públicas.
A ênfase da estratégia americana em meio ambiente, controle climático e preservação florestal é rota certa de atritos com o Brasil ,caso prossiga - como se anuncia- a política destes quase quatro anos. Será ingênuo pensar que Biden fará apenas protestos retóricos, como infantil minimizar o poder de constrangimento ao agronegócio seja com a temível concorrência da agricultura americana seja com obstáculos à exportação brasileira inquinada de abusiva do meio-ambiente e de territórios indígenas eventualmente transformados em serras-peladas. Em país que passa a boiada às vezes a vaca vai pro brejo. E isso inclui vaca chinesa.
Na minha percepção do andar da carruagem, temo estejamos numa marcha-à-ré galopante. Curiosamente, temos potencial como poucos países para fazermos de nossos biomas fonte de desenvolvimento econômico sustentável e desta forma aumentar nossa renda nacional e nosso respeito internacional. Enfim, como dizia minha avó napolitana, cada um sabe onde lhe apertam os calos.
Concluo com a questão democrática. A eventual aventura de se expandir ou aleijar o Supremo Tribunal Federal (na esteira dos conhecidos e desastrosos exemplos da Venezuela e da Hungria) não só terá impacto em nossos direitos pessoais e no Estado Democrático de Direito restaurados com a Constituição de 1988, mas também certamente afastará o investimento estrangeiro que tem horror conhecido à insegurança jurídica. Na melhor das hipóteses, nosso direito comercial será sopesado por arbitragens internacionais onde o pequeno e médio empresário brasileiro será gostosamente engolido pelo custo abusivo da advocacia dolarizada.
Não imaginem que desconheça o sacrilégio de se ter trazido para a arena política a inexistente adversidade entre cristãos, católicos ou não. O que desejam transplantar para nossa terra de um sincretismo religioso inquestionável ? A Irlanda do Norte ? Ou o Irã?
Sempre me lembro da frase final do Presidente Kennedy, em seu discurso de posse como primeiro presidente católico dos Estados Unidos da América. Parafraseando-o de memória, recordo que disse algo como : iniciemos uma nova era com a benção de Deus, mas conscientes de que aqui nesta terra a obra de Deus é o trabalho do homem.
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Em Tempo: deixo para os interessados o link do texto em inglês da Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos.