ARTIGOS

A invejável capacidade de liderar

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Por ADHEMAR BAHADIAN
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Publicado em 24/08/2022 às 09:22

Alterado em 24/08/2022 às 09:22

Às vezes me surpreendo com as reações do atual Presidente do Brasil. Não com os seus destemperos, cada vez mais corriqueiros, o último deles ao tentar arrancar um celular de um "you tuber" aliado. O que realmente me surpreende é a incapacidade de avaliar a oportunidade política proporcionada por crises e ,ao invés de usá-las para liderar o país, transformá-las em pontos de desunião nacional.

Creio que a diferença central entre o verdadeiro Estadista e o demagogo reside nesta incapacidade de liderar seu povo acima de objetivos partidários ou ideológicos separatistas.

A história recente nos ensina que Franklin Roosevelt, Churchill, Gandhi dentre outros foram homens que souberam unir seus países diante do infortúnio e liderá-los em busca da unidade de propósitos integradores.

No Brasil, já que estamos no bicentenário da Independência, os nome de José Bonifácio, Tiradentes, Dom Pedro I, saltam imediatamente à memória, mas no Brasil em que vivi os nomes de Getúlio Vargas e sobretudo de Juscelino Kubitschek são obviamente de recordação obrigatória.

JK revolucionou o Brasil com um sorriso e um pé-de-valsa. Jamais o vimos vociferar em público, ameaçar instituições ou adversários. Talvez tenha sido o mestre do diálogo politico brasileiro e imortalizou-se não só por construir Brasília, mas sobretudo por ter imprimido no povo o orgulho de ser brasileiro, e de nos fazer acreditar na capacidade de o Brasil tornar-se uma referência mundial.

Anistiou rebeldes, fez de um General legalista e austero seu Ministro da Guerra, como então se chamava o que hoje denominamos Defesa. Aliou-se ,por acreditar na restauração democrática, a Carlos Lacerda, adversário histórico e figadal, assim como a João Goulart ,numa Frente Ampla que só beneficiaria eleitoralmente Lacerda.

Teve seus direitos políticos cassados por esta manifestação de identidade com a liberdade e a democracia . Foi exilado. Chamado de ladrão e corrupto nunca contra ele se provou nada que o desabonasse. Era um homem de bem com a vida, e soube vivê-la para a alegria de seus contemporâneos e, a cada ano que passa, para o maior reconhecimento de nossa história política.

Imagine se JK fosse Presidente do Brasil durante a Pandemia de COVID. Seria o primeiro a vestir seu jaleco de médico e a incentivar a vacinação em massa dos brasileiros. Jamais teria a inimaginável indignidade de plantar o medo irracional na população pouco instruída com insinuações de que a vacina poderia provocar AIDS ou transformar o homem em jacaré. São momentos como esses que distinguem Estadistas de demagogos. Aliás, é curioso que o Presidente brasileiro tão ostensivamente admirador de Trump e Netanyahu não tenha seguido os exemplos dos dois políticos com relação às vacinas.

Trump, apesar de todas as suas doideiras, não hesitou em garantir vacinas para o povo americano usando o poder do dinheiro e da pressão política. Bibi, em Israel, hoje se diz abertamente, procurou pessoalmente o manda-chuva da Pfizer e pagando um preço acima do mercado também garantiu a vacinação de seu povo.

Aqui no Brasil, hoje também se sabe, a indústria farmacêutica líder ficou sem resposta do governo e não fosse a audácia política de João Dória talvez nossa vacinação ainda se arrastasse por mais tempo ainda.

Em sua entrevista ao Jornal Nacional, o Presidente em busca de reeleição condenou seu primeiro e dedicado Ministro da Saúde, Henrique Mandetta, de ter recomendado que os cidadãos ficassem em casa e, em caso de falta de ar ou sintomas como febre alta, procurassem os hospitais. Estranha a observação crítica do Presidente a seu Ministro ao dizer na mesma entrevista “ mandar para o hospital para quê, se não há tratamento?”. Esta frase tudo diz sobre a descabida ignorância médica de um Presidente e revela sua já mais do que conhecida falta de empatia com o sofrimento alheio.

O Presidente está muito longe de ser um agregador, tornou-se mau gerente de um país em que as mazelas sociais se aprofundam. Sabemos todos que o auxilio financeiro dado à população durante a Pandemia foi inicialmente fixado pelo Ministro da Economia em duzentos reais, posteriormente o Congresso o elevou a quinhentos reais e o Presidente então o elevou por cem reais.

A entrevista do Presidente aos âncoras do Jornal Nacional me trazia a vã esperança ( a última que morre) que o candidato à reeleição finalmente assumisse o papel de líder democrático, reconhecesse seus erros, se desculpasse pelas ignomínias durante a Pandemia, admitisse que a economia vai muito mal mesmo e que as reformas feitas ,muito longe de estimular um movimento em direção ao empresariado de pequeno porte, apenas aumentaram o endividamento das famílias.

A busca dos menos assistidos por alimentos nos trouxe o espetáculo digno de uma Biafra em que o leite se torna um alimento de luxo e a carne uma iguaria inatingível. Nossa educação fundamental se deteriorou, a saúde pública está voltando a tempos inimagináveis sem a vacinação conta a pólio e o sarampo. Regredimos econômica, cultural e civilizacionalmente.

Politicamente, pela primeira vez na história, um Presidente da República nos expõe como um país de bárbaros onde o sistema eleitoral é usualmente fraudado, o tribunal eleitoral dominado por canalhas .
De qualquer modo, a responsabilidade maior por termos como Presidente quem hoje temos é única e exclusivamente do voto popular.

Teremos brevemente a oportunidade de corrigirmos um erro histórico, "desde que……


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