Sanidade pública e privada

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A chamada oposição me surpreende. Por oposição entendo o arco de partidos políticos no espectro da direita-centro-direita à centro-esquerda-esquerda. O incremento do auxilio aos 33 milhões de brasileiros que se encontram em estado de insuficiência alimentar é necessário e dispensa explicações óbvias.

Surpreende a oposição deixar passar a oportunidade de esclarecer definitivamente as razões pelas quais nossos índices econômicos estão em queda vertiginosa e tendem a continuar desta forma, senão a piorar em prazo curto, em especial após as eleições, independentemente de quem venha a ser o presidente eleito democraticamente pela vontade popular.

As "crises" no Brasil são decorrentes de causas próximas, como a Pandemia e a Guerra da Ucrânia, e de fatores mais remotos, talvez mais responsáveis do que os mais recentes para o agravamento dos movimentos políticos e econômicos que estamos a ver mundo afora.

A Pandemia contribuiu para revelar os riscos inerentes a uma globalização assimétrica e a uma cadeia de arranjos econômicos desnivelados, a datar dos anos 90 do século passado.

A escassez de filtros, máscaras e respiradores em muito aprofundou a disseminação do vírus, nos países ditos emergentes de forma acentuada. Hoje, estrategistas econômicos repensam as chamadas cadeias globais de valor e defendem seu redimensionamento à regionalização geográfica.

Arranjos bilaterais e plurilaterais de comércio, tidos como expansionistas do crescimento econômico, mostraram em áreas vitais, como a de elaboração de vacinas, as danosas consequências de uma politica de patentes abusiva na baixa velocidade da imunização da população mundial, a contribuir para o aparecimento de cepas múltiplas.

A guerra da Ucrânia - e não cabe aqui discutir as razões de sua eclosão - teve impacto óbvio nos custos de matérias primas e sobretudo do petróleo. O Brasil foi atingido tanto pela guerra em si quanto pelas sanções econômicas aplicadas à Rússia.

Se registro em primeiro lugar esses fenômenos mais recentes não quero com isso dar-lhes primazia na sequela de obstáculos ao crescimento econômico do Brasil.

Ao contrário, a responsabilidade maior repousa na insistência das autoridades brasileiras em persistir numa linha ideológica ultrapassada, já de algum tempo criticada por órgãos internacionais como o FMI, que originalmente a recomendaram a países emergentes. Lembro especialmente os mandamentos de austeridade e desregulamentação do Estado, inscritos no chamado Consenso de Washington.

A incauta insistência no neoliberalismo econômico, aqui no Brasil levada a extremos na drástica redução do investimento público, mostra hoje sua verdadeira face com a queda da industrialização do país como decorrência de uma abertura descompensada à concorrência internacional, uma tendência discutível em fazer do agro o principal motor das exportações brasileiras sem um razoável investimento público e privado na manutenção e crescimento do mercado consumidor interno.

A estratégia econômica - se assim se pode chamar o “liberalismo" caótico e anti-social - produziu o que hoje se vê: alta taxa de desemprego formal, volta do Brasil ao Mapa da Fome, redução das dotações orçamentárias em saúde, educação e pesquisa, tornando a penúria não só econômica, mas também cultural e tecnológica.

E nesse contexto passam a germinar impulsos ideológicos de natureza desagregadora e anárquica cujo exemplo mais chocante e mais evidente vem do trumpismo nos Estados Unidos da América com impactos crescentes na convivência inter-racial a ponto de levar alguns estudiosos a temer um conflito armado fratricida naquele país.

A passividade da oposição brasileira surpreende por não recordar à cidadania esses fatos, assinalar que algumas das propostas de última hora para aliviar a fome endêmica talvez tragam mais incertezas para a reconstrução nacional e muito provavelmente aprofundem os impasses econômicos e sociais.

Surpreende também que a oposição não seja capaz de encontrar meios e modos de incrementar o auxílio a necessitados sem acolher manobras constitucionais tão ou mais arriscadas do que os males que se pretende aliviar. É bom não esquecer que durante a Pandemia, o governo propôs inicialmente um auxílio de 200 reais. O que terá mudado de lá para cá?

Será que me equivoco? É muito provável, porque também me escapam os mecanismos de alocação de recursos financeiros pelo Congresso.

De qualquer forma, a cidadania a tudo assiste. E se pronunciará nas cabines eleitorais.


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Em Tempo. O desaparecimento quase simultâneo de Dom Claudio Hummes e Sergio Paulo Rouanet torna o Brasil mais pobre de intelectuais humanistas e comprometidos com o Bem. Tive o prazer de conhecer a ambos. Dom Claudio me honrou com sua presença amiga em inúmeras ocasiões na Embaixada do Brasil em Roma. Era um homem que os católicos chamam de “tocado pela graça de Deus”. Sergio Paulo Rouanet nos iluminou a todos no Itamaraty com sua inteligência e cultura, sem falar de seu humor constante e amigo. Ousei discutir com ele alguns ensinamentos de Freud que ele leu no original. Desisti na primeira esquina.

2. Insisto em recomendar o livro de Marcos Nobre, “Limites da Democracia”. A ele acrescento o terceiro volume de “Escravidão" de Laurentino Gomes. A leitura de ambos muito enriquecerá a compreensão de nossa sociedade e de nossos impasses atuais.

*Embaixador aposentado

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