Em busca do Brasil do Bem: (8) os ventos uivantes

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Parece uma biruta de aeroporto tangida por ventos uivantes. Assim me definiu um amigo os movimentos de idas e vindas do governo na última semana.

Uivantes ou não, os ventos políticos levantam uma poeira como se anunciasse uma tempestade de castelos reduzidos a areia. A economia brasileira perdeu de vez o rumo. Pretensamente neoliberal, defende o congelamento de preços. Radicalmente privatista, rebela-se contra a gestão comercial de empresa de capital-misto. Austera e saneadora, se vê diante de uma inflação de dois dígitos. Pretensamente desenvolvimentista, dialoga com um país cuja população perplexa tropeça em bolsões de miséria em suas grandes metrópoles, onde a miserabilidade, o medo e a inquietação brotam como cogumelos venenosos.

O chefe da nação admite privatizar na véspera o que tenta re-estatizar no dia seguinte. O posto Ipiranga, czar de uma economia em desmonte, insiste como Pangloss em minimizar danos e prometer melhores e primaveris dias num calendário de faz de conta e num horóscopo do mágico de Oz. E o povo a tudo assiste bestializado inclusive com as notícias de malfeitos na distribuição de verbas federais a prefeitos prontos a denunciar a chantagem ostensiva e maligna.

A perspectiva de abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito no Senado Federal daria ao governo o triste galardão de em menos de quatro anos ser acusado de desvios orçamentários na aquisição de vacinas contra a Pandemia e na educação de crianças já imensamente prejudicadas com o maior período de suspensão de aulas do planeta, com ainda não suficientemente avaliadas consequências para o desenvolvimento intelectual e emocional delas.

Em meio a todo este torvelinho, o governo conta como devida sua reeleição, necessária para seguir na obra saneadora que julga empreender e sobretudo para evitar a democrática alternância no poder.

Aprofunda as tensões sociais com a leviana alegação de que as urnas eletrônicas estariam viciadas e certamente levariam ao governo todo e qualquer candidato, à exceção do incumbente.

O Congresso, em especial a Câmara dos Deputados, se esmera na busca de soluções cada vez mais tingidas de uma coloração refratária às boas normas do respeito à ordem eleitoral ao fechar os olhos a propostas de emendas constitucionais lesivas à igualdade de direitos e oportunidades dos candidatos, em nome de uma mais do que discutível ajuda humanitária.

Não se recorre, como ocorreu nos anos do grande apagão de energia elétrica, à própria cidadania, privilegiando o transporte solidário em automóveis particulares, as corridas de três ou quatro clientes no mesmo taxi, ao aumento do fluxo de transporte metropolitano e finalmente ao aprofundamento do trabalho residencial popularizado na Pandemia. Pensa-se tão somente em baixar o preço da gasolina para gregos e troianos sem levar em consideração a renda real dos atingidos e dos beneficiados. Enquanto isto, o gás de cozinha continua a ser a ovelha negra dos desfavorecidos.

A redução de impostos estaduais apontada como ovo de Colombo, torna-se o ovo da serpente na medida em que promove um déficit considerável nas dotações orçamentárias de saúde e educação a que não se garante reposição e promove um efeito multiplicador negativo para os municípios de poucas rendas adicionais.

Diante de todas essas propostas, não há como não se indignar com a pobreza de planejamento nas despesas públicas, com a falta de solidariedade do governo que deveria assumir seu papel central de responsável pelo bem-estar social. Pior, nesta hora se torna evidente o descalabro de se pretender impor ao Brasil uma política macroeconômica neoliberal empobrecedora de milhares em benefício de uns poucos. E em fase de evidente abandono mundo afora.

Nesta toada, o Brasil se junta rapidamente aos países que fizeram transferência inversa de renda dos mais pobres para os mais ricos e onde a classe média teve sua renda achatada.

Nos Estados Unidos da América, 81% das famílias tiveram renda estagnada ou reduzida no período de 2005 a 2014. Desta desorganização, surgiu o golpista Trump com as sérias consequências sociais que estamos a assistir. E que infelizmente tendem a persistir.

O Brasil merece melhor destino. Mas, destino não está escrito nas estrelas. Há que saber fazê-lo, com determinação e solidariedade nacionais. O povo brasileiro sabe que unido em torno de um projeto de desenvolvimento nacional é capaz de atrair a admiração do mundo. Foi assim com a Marcha para o Oeste. Com Brasília.

Tínhamos na presidência um homem a motivar-nos com a grandeza de nosso destino. E jamais permitiu que neste solo pátrio germinasse um grão sequer de ódio. Quanto mais o tempo passa mais eu me sinto privilegiado por ter sido contemporâneo de JK.

*Embaixador aposentado

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