Jogo menos desigual

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As antigas lutas pela emancipação parlamentar feminina ganham, neste ano, uma expectativa menos romântica e mais objetiva. Há, para sustentá-las, dispositivos legais recentemente conquistados, além da reserva de cotas de 30% para as mulheres nas chapas que vão disputar em eleição proporcional.

Acresce, agora, terem elas a garantia de participação na distribuição dos fundos eleitorais e na propaganda gratuita no rádio e na TV, sem que se obriguem, para tanto, a submeter seus projetos políticos a meras gentilezas dos partidos.

Há, portanto, um elenco de iniciativas que dão às vocações femininas um mínimo de condições de disputar, num modelo menos desigual frente aos homens.

Sendo maioria da população e no contingente eleitoral, é impensável que continuem desfrutando de parcela menor na vida parlamentar, como revela recente estudo patrocinado por órgão competente das Nações Unidas: em matéria de participação da mulher, nosso Congresso é o 142º entre os demais do mundo e o 9º na América Latina.

Romper essa diferença seria, entre outras razões, motivo de comemoração dos 90 anos da introdução do voto feminino na legislação eleitoral brasileira, o que ocorreu em fevereiro de 1932.

 

O que diz a pesquisa

O presidente Bolsonaro faz pouco-caso das pesquisas sobre tendências do eleitorado, que continuam sendo-lhe desfavoráveis, embora em escalas menores, se comparadas com as primeiras semanas do ano. Acaba de dizer que acreditar nelas é o mesmo que levar a sério os trenós do Papai Noel. Com toda certeza, exagerou na dose de descrédito, e seria mais justo se dissesse que elas refletem o momento em que se processam. Expõem o sentimento atual dos que são consultados, e nada pode garantir que a opinião de hoje sobreviva até outubro.

Agora policiadas por instruções do Tribunal Eleitoral, as consultas, se efetivamente revelam simpatias ou rejeição em relação aos candidatos, é porque elas retratam neles o que muitos contestam e lamentam na atualidade; não sinalizam, necessariamente, para projetos nacionais, o que seria lógico esperar por uma sociedade que evolui. Até porque, convenhamos, as candidaturas nem entraram na fase de julgamento de propostas. Objetivamente, ainda não disseram a que vêm. Por outro lado, além de estar distante a eleição, a radicalização que se sente entre dois postulantes também condena as pesquisas a se centrarem mais na guerra entre eles. Assim é, pelo menos por hora e será por mais algumas semanas.

Nenhuma dessas consultas, mesmo as que se pautam pela seriedade, tem o condão de nos dizer o que está para acontecer em outubro. Hoje, afora certo desejo de derrotar os indesejáveis, andam mais empenhadas em registrar o ânimo das pessoas em relação à inflação, ao desemprego, à saúde, à ofensa dos preços nas gôndolas dos supermercados. O governo é um saco de pancadas, o que é ótimo para quem, na oposição, ajuda a jogar pedras no telhado vizinho. Portanto, pesquisas não têm as ilusões do bom velhinho dos natais, como define o presidente, embora carregadas de preocupações e ansiedades. As preferências desapaixonadas sobre o melhor presidente desejável ainda não estão totalmente definidas.

 

Política traiçoeira

Ao fenômeno da instabilidade que se observa na vida dos partidos, cabe somar uma outra observação, neste tempo de pré-campanha, sobre os movimentos internos que têm resultado em atitudes traiçoeiras, cada vez mais comuns no cenário. Lembram os observadores políticos o caso Moro, que foi bem acolhido, no Podemos, pelo senador Álvaro Dias. Logo depois, atraído pelo União Brasil (DEM-PSL), acabou com o projeto de disputar a Presidência da República. Recorda-se, também, da prévia do PSDB, tão incensada como boa prática, mas a vitória de João Dória resultou na fragmentação partidária, onde uma parte não o aceitou. Predominou, ainda no campo do PSDB, o sentimento de disputa que envolve Dória e Aécio Neves. O ex-governador mineiro não quer que o partido lance candidato próprio, talvez para ter liberdade de apoiar Bolsonaro, rota igualmente perceptível em relação a outros tucanos. Cabe notar que, não só naquele ninho, mas em vários partidos, os candidatos à reeleição para a Câmara Federal não simpatizam com candidatura própria para presidente. É o que lhes garantiria mais recursos para sua própria campanha.

Recentemente surgiu uma candidatura feminina no MDB, através da emergente Simone Tebet, mas ela sofre pressão contrária de poderosos caciques emedebistas do Nordeste. As cascas de banana que a fazem escorregar estão em casa.

Tantos abalos sísmicos e traiçoeiros no interior das legendas alternativas à polarização dos líderes das pesquisas vão acabar confirmando a implosão do projeto da via de centro. É consequência dessa inconsistência. E Bolsonaro e Lula agradecem a cortesia.

Traições (ou como quer que se dê nome a rasteiras internas) devem persistir, pois, como se tem dito, o que está movendo prioritário interesse dos políticos é a eleição para a Câmara dos Deputados, com os benefícios dos fundos partidário e eleitoral. Os políticos pragmáticos enxergam longe: qualquer presidente que for eleito vai precisar de maioria no Congresso, e terá que negociar para governar.

Nessa profusão de tombos, um olhar sobre Ciro Gomes percebe que ele resiste no terceiro lugar em todas as pesquisas. E assim poderá continuar, caso não se torne vítima de movimento traiçoeiro dentro do PDT, contra candidatura própria. O que seria adotar a mesma lógica dos outros partidos, que querem eleger deputados, e pensam mais nisso do que em qualquer outra coisa.

 

Fidelidade sepultada

A Semana Santa, com a paixão e morte de Cristo, ensejou observar que as “janelas” por onde escaparam muitos deputados, os falsos acordos políticos feitos e desfeitos e as recém-criadas federações juntaram-se para sepultar, de vez, sem esperança de ressurreição, a fidelidade partidária; essa velha senhora, tão desejada como enjeitada. Não sobreviveu ao seu Calvário nem aos Iscariotes de sempre. Fidelidade a ideias e a programas virou utopia, mera ficção na política brasileira.

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