Va pensiero

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"Va pensiero" é um dos mais belos coros de ópera que conheço. Também chamado "coro dos peregrinos hebreus", emana dele o profundo sentimento de comunhão de um povo com seu país. Está em "Nabucco”, de Verdi, e recomendo muito que seja visto e ouvido, com legendas em português, no You tube; basta redigir “va pensiero legendado em português”. Melhor do que isto só a ópera inteira, também possível no You Tube. Há uma gravação na Arena de Verona, subtitulada em inglês (infelizmente) de uma beleza ímpar.

Ando estes dias em modo “va pensiero” e me sintonizo mais do que nunca com os versos de Verdi “Pátria minha, tão bela e perdida”. Estarei exagerando? Talvez, em delírio melancólico? Há quem ande dissipando pelas plataformas que Lula estaria a dar sinais de senilidade ou de perda de sensibilidade política por ter dito que o aborto é uma coisa de saúde pública. Já estamos de tal forma acostumados a “fake-news”, “fake-life”, que a verdade parece surreal. Talvez, consideremos normal que os cidadãos devam se municiar de revólveres, rifles e pistolas carregados com seiscentas balas ou projéteis prontos a disparar no primeiro comício político como forma de defesa contra nosso inimigo interno. E esta visão seja razoável. Civilizada. Democrática. Em perfeita consonância com nossa Constituição.

Quem viu e ouviu o discurso de Lula, o primeiro quando o STF anulou-lhe as condenações, deverá ter ficado indeciso entre Lula e Obama como o melhor orador político deste século 21. Obama, reconheçamos, será eloquente até mesmo em Libras ou até no monocórdio idioma tatibitate por alguns aqui falado nesta Terra da Santa Cruz, idioma que lembra o português, parece português, mas não é português. O discurso de Obama na Universidade do Cairo, em torno de Israel e Palestina, esta tragédia de dois países tão influentes em nossa própria cultura, merece ser ouvido porque na realidade é um “pensiero" sobre a concórdia e a discórdia humanas. Também está no You tube.

Mas, o discurso de Lula - principalmente depois dos primeiros 53 minutos - é um coro tão dolente quanto o “Va Pensiero”. E há hoje os que dizem que Lula pode estar viajando na maionese. Por quê ? Porque falou que o aborto é uma questão de saúde pública. Porque falou que o povo não precisa de armas. Porque lembrou que nestes quase quatro anos o que mais vicejou neste país foi o ódio. Porque nunca regredimos tanto como cidadãos, como brasileiros, como patriotas.

Pensando bem, Lula pode ter dado um nó górdio em seus inimigos e até mesmo em seus admiradores. Pois, a esta altura deste campeonato da insensatez, responsáveis últimos pela segurança deste país nos revelam não terem perdido uma anômala concepção da Democracia. E farão de tudo, como já fizeram no passado recente, para pintar Lula com a cara do Demo, do Anti-Cristo, do intolerado maior. Bem na hora em que Lula rasga o véu do templo e se une a Geraldo Alckmin. Expressão do sacrilégio. De demonologia política.

E para nós, míopes políticos, homens de pouca fé e de muito ódio, parece mesmo loucura convidar o adversário de ontem para com ele coabitar o mais alto comando desta nação. Lula e Alckmin são a única via. A via da “virtu”. A da racionalidade política, a do diálogo, porque se continuarmos assim, dentro em breve estaremos a ladrar uns com os outros e a fazer filas nos postos de vacinação anti-rábica.

Lula não é Deus. Muito menos mito. Talvez desde JK não tenha aparecido no Brasil alguém tão destemido. Homem que anistiou os aventureiros de Aragarças, aceitou se unir em frente democrática com Carlos Lacerda, inimigo figadal, e desta forma ser expurgado da vida pública pelos ralos da ira autocrática. Seria JK também um inconsequente, última arma que se quer levantar contra Lula?

Como JK, Lula volta a falar em industrialização e nos assinala os riscos de um desenvolvimento submisso. O governo atual pelo menos não nos engana em seu projeto autoritário, em sua aversão ao contraditório, ao debate de ideias. De uma franqueza sádica. Muitos, mas nem tantos assim, aderem a este retrocesso histórico e infelizmente muitos dentre eles acreditam que só pelo sangue, pela batalha fratricida se poderá fazer um Brasil melhor.

Chego a tremer diante do risco deste grande país, no ano do bicentenário de sua Independência, ver-se palco de massacres hediondos como os que estamos a ver na Ucrânia e continuamos a ver em tantos outros países que se deixaram enovelar pela ideologia irracional de natureza política ou religiosa, ambas a serviço do deus maior da ganância e do enriquecimento predatório.

Nada nos garante que se poderá manter a unidade territorial deste país, a partir do primeiro tiro de um tresloucado ou de um mercenário a serviço sabe-se lá de quem. Numa guerra civil no Brasil, a primeira vítima será nossa soberania política. Ou o que dela ainda resta. Num golpe militar, se escreverá o epitáfio de nossa aspiração a grande nação e nos reduziremos a um grande Porto-Rico.

E por esta razão também, por convicção nacional e patriótica, devemos repudiar o que infelizmente se vem instalando no país de forma larvar e insidiosa: o desrespeito à Constituição ou a interpretação sediciosa de alguns de seus artigos, como se houvesse um estamento burocrático mais iluminado e superior à vontade soberana das urnas. Ou ao exercício das eleições. Ou à sua fraude por estratagemas articulados entre o poder do dinheiro e a mentalidade Calabar de mercenários políticos e neocanibais econômicos.

Como vimos na mironga à meia luz quase bem sucedida nos Estados Unidos da América. E descaradamente apoiado por parte de nossas forças políticas. O que ,não se enganem os plantonistas do caos, jamais será esquecido… Na geopolítica americana “Brazil is not to big to fall“ e contar que em 2024 “America will be great again“ pode ser um erro fatal. De transformar o "pied-à-terre" dos sonhos em Miami no pesadelo das sindicâncias da famigerada secretaria da receita federal de Tio Sam.

E, por respeito à memória nacional, evite-se tentar nos convencer de que o autoritarismo nos induz a qualquer reação de simpatia, agradecimento ou saudosismo ao que foi um dos mais injucundos períodos de nossa história contemporânea. Assim ,aquela nota comemorativa foi, digamos, um drone bêbado.

Lula e Alckmim são um claro sinal de sanidade. Mas, nada poderão fazer sem nossa determinação de refundar um país tributário da inteligência e comprometido com a eliminação da discriminação social, econômica e racial. Única alternativa diante da marcha regressiva que infelizmente presenciamos a cada dia a cada hora em nosso ex-país do futuro, hoje reduzido por vontade própria a pária internacional.

Queiramos ou não, as eleições de 2022 farão surgir um novo tempo. Nosso último tempo. Poucas gerações tem a oportunidade de reconhecerem tantos erros e pouquíssimas a capacidade para definitivamente corrigi-los.

Nós, a geração dos anos 40 do século 20, agradecemos a atenção dispensada e, triste ou risonha, cabelos penteados, sapatos engraxados, temos pudor de dizer: fizemos, com carinho e afeto, o melhor de nós mesmos.
Agora é com você.

 

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Em tempo: a ópera Nabucco teria se transformado no período da unificação dos Estados Italianos, numa força agregadora e “va pensiero”quase uma canção de protesto como entendemos hoje o protesto político. “Va pensiero” foi um instrumento de resistência do povo italiano à invasão austríaca e cantado nas ruas contra o exército invasor. Mais recentemente, em 2011, o maestro Ricardo Mutti, após reger no Scala de Milão a ópera Nabucco, convidou a plateia para cantar com ele o “Va pensiero” como forma de protesto aos cortes orçamentários do governo aos programas culturais na Italia.

Na tradução para o português creio que se perde a força da contraposição entre “dor" e “virtude" quando os peregrinos parecem desejar que a dor se transforme em virtude. Na realidade, a mensagem de Verdi é muito mais profunda e a virtude de que ele fala é a “virtu" que Maquiavel associa à “fortuna" como as duas forcas à disposição do Principe. Transformar a dor em “virtu" é um canto de guerra e não de penitentes. E não é por acaso que a frase ou o sentido dela ocupa os quatro últimos versos do coro. A “virtu” é a sabedoria política capaz de fazer frente aos azares da “fortuna”. O governante de “virtu"não é um virtuoso no sentido comum da palavra. A “virtu” o transforma no estrategista capaz de conduzir o Estado na imprevisibilidade da ”fortuna”. Na minha crônica de hoje, não deixo dúvidas de que a aliança Lula-Alckmin é uma expressão da “virtu" ,em oposição às crendices das “fake-news” cotidianas. E que portanto será objeto de antagonismo tanto da chamada "esquerda” quanto da “direita”, principalmente da extrema-direita, engajada no caos.

*Embaixador aposentado

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