ARTIGOS
Perdoa-me por me traíres
Por ADHEMAR BAHADIAN
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Publicado em 03/04/2022 às 09:41
Alterado em 03/04/2022 às 09:41
O titulo é sim, descarada e intencionalmente, roubado de Nelson Rodrigues, talvez o maior teatrólogo brasileiro do século 20. Se tivesse nascido nos Estados Unidos, Nelson seria par de Tennessee Wiliamms. Na Inglaterra, um conviva de Harold Pinter. No título e na trama desta peça há uma intimidade com as pulsões, tão bem descritas por Freud, êmulo de Shakespeare. Todos os quatro, brilhantes arqueólogos de nossos sentimentos mais obscuros, seguidos de perto por Buñuel.
No Brasil, estamos sendo confrontados com os nossos mais profundos temores e tudo que Erich Fromm escreveu em seu “Medo à liberdade” se tornou nosso pesadelo social cotidiano. Estamos a viver um teatro de horrores.
Nunca, nestes meus oitenta e um anos de vida, nem mesmo nos piores momentos da ditadura militar senti no ar deste país a presença tão palpável do totalitarismo como proposta de opção ou forma de vida. Tínhamos, nos anos 60, uma esperança que nos falta hoje. Quem não lembra a magia da canção de Chico, “Vai Passar”, dentre tantas outras, como antídoto ao desespero? Onde andam os nossos Chicos? Nossos Vinicius? Nossos Toms? Onde anda teu grito, Maria Bethânia? Carcará!
Hoje, há um mal inerente nas frases a penetrar nossos ouvidos como vertigem de labirintite a nos fazer temer os próprios passos, a duvidar que haja um amanhã de amor contraposto a este ódio pasmoso, renitente como a maleita, deformador como a lepra, viscoso como rastro da serpente. Um dia segue outro sem luz, sem alvorada, um céu plúmbeo, radioativo, cancerígeno.
Baixou aqui o Arcanjo-Satanás e, ao aproximar-se a eleição, nos apresenta a opção do mal como se fosse a do bem. Nos confunde com sua semântica deformada por uma visão de mundo onde Sodoma e Godorra parecem estações primaveris de um futuro inenarrável. Embalado em ideologia onde se mistura um patriotismo de aiatolás e violência voudu, O Brasil se transforma num asilo de loucos a confundir paz com guerra, comércio com assalto, política com traição e onde se distribui a mancheias armas de fogo como em nossa infância se doavam às crianças as balas de Cosme e Damião.
Tornou-se a religião um instrumento não da concórdia, mas da cobiça. O último escândalo, no centro sagrado da educação pública, transformou em realidade palpável o sacrilégio do bezerro de ouro. Nossas crianças continuam sem escolas. Sem vacinas. A poliomielite volta a preocupar. A imunização contra a Covid se atrasa para meninos e meninas, apenas aconselhados a vestir azul. Há um febril retrocesso cultural e uma caricatura tragicômica do pior que o trumpismo semeou nos Estados Unidos da América. Nossa elite política perdeu o senso do ridículo.
Nossa economia, pretensamente modernosa perdeu contacto com nossa história e, entregue a um pilantra dos números, cresce apenas nos preços do feijão, do tomate e explode na gasolina. Troca-se general, de forma deselegante, sem respeito pela dignidade do cargo, por lobista, com a mesma insensatez com que se propõe a privatização do investimento público quase centenário. E, como Pilatos, se lavam mãos e se beija Barrabás. Tudo, numa inversão total de valores em que se promete o que nunca se dá. Apenas na hora eleitoral se derrama a esmola comprometida com o voto de cabresto, sem política consequente ou confiável. O Brasil volta a ter famélicos.
E com grande desfaçatez se proclama aos ventos que o voto será sempre roubado em nome de inconfessáveis motivações. Uma tecnologia reconhecidamente avançada de eleições supervisionadas por magistrados é eivada de suspeição sem a menor base ou qualquer comprovação. Sempre hipnotizada pela baderna trumpista, advoga-se a reversão à contagem manual de votos.
Nossos ministros do Supremo Tribunal Federal, (nove fora dois), os juízes do Superior Tribunal Eleitoral já nos advertem sobre o risco de subversão da Democracia e nos alertam continuamente sobre o escárnio constitucional. Essas precauções, justificadas até mesmo porque são óbvias as manobras de associação indevida com empresas de já comprovada e desonesta manipulação do voto, inclusive sob amparo do trumpismo, são recebidas com impropérios em demonstração de desequilíbrio emocional patológico. Já não há sequer como retirar as crianças da sala.
E sai dia entra dia a sucessão de falsas verdades nos é administrada como dose de estupefacientes em drogados em remissão.
A verdade é que hoje nos vemos melhor de que antes. Se há "mea-culpa" a redimir, a primeira delas deve recair sobre nossa própria insensatez como elite dita educada. Somos nós os pais destas anomalias porque a desigualdade social na realidade nos importa apenas como paisagem. Nossa solidariedade se esgota no tapinha nas costas e temos a defesa histórica de atribuirmos a gerações anteriores a nossa a responsabilidade pela aparentemente irremediável desgraça social. Nós elegemos esses monstros. Demos a eles a maioria absoluta de nossos votos e fingimos não perceber que eles são crias nossas. Sempre privilegiamos os falsos mitos e os falsos profetas. Só que desta vez erramos barbaramente na dose e estamos amargamente perdidos a pedir perdão por termos sido traidores de nós mesmos.
E a hora da verdade se complica porque mundo afora também se vê o impasse a que nos leva o trumpismo, nome genérico do autoritarismo predatório. Esta, a armadilha que nos armamos. A arapuca a nos prender no medo de fazer um país de todos. Sem pobres. Sem fome. Sem Putin, Trump e outros feitores.
Bolsonaro apenas nos apresenta a conta. A dividir entre tantos. Em dólar. Já não lhe bastam os anéis. E consciente de nossa covardia, nos apresenta a fatura de nossa consentida submissão. Temos medo à liberdade. Temos horror a compartir nossos privilégios. Que pena que morreram Thatcher e Reagan. Eles nos convenciam desta pirataria em língua de Shakespeare. E éramos tão felizes para sempre.
E agora, vai encarar? Vai torcer para surgir um novo Jânio? Um novo Collor?
Ou, finalmente, não vai ter medo de ser feliz?
*Embaixador aposentado