De repente, ficamos cegos?

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Há quem vaticine como certa a reeleição do atual presidente. E no primeiro turno. Sem golpe. Apenas com o aproveitamento esperto das brechas legais. A distribuição fácil de auxílio emergencial, de crédito consignado, de subsídio à gasolina e a conversa mole de sempre fariam a mágica. E a mão sempre invisível do mercado. Impossível? Vejamos.

Nos últimos dias, coincidentemente, alguns artigos assinados por respeitados economistas do “mainstream”, codinome para economistas neoliberais empedernidos, passaram a defender, de forma quase agressiva, a política econômica do governo. Guedes saiu de um mutismo benfazejo e voltou a falar. Professores de instituições supostamente inatacáveis argumentam ser a reeleição de Bolsonaro um risco para as instituições democráticas, enquanto a de Lula, com Alckmin, um retrocesso econômico. Como se as duas coisas tivessem o mesmo peso. Ou sequer fossem uma dicotomia possível. Ou valores intercambiáveis. Ou meramente hipótese crível.

O bom de isto tudo é que da escuridão pode nascer a luz. Não se trata mais de pespegar em Lula, ou em quem quer que seja, o espantalho do comunismo. O que se teme é a perda de privilégios a engordar a minoria amamentada de política anti-social, injusta, responsável por um endividamento colossal da classe média brasileira, por um desemprego de hecatombe e pelo concubinato entre o poder e um capitalismo de compadrio a fazer inveja a oligarcas russos. E, claro, pela mal-disfarçada macaquice de auditório de um Putin. Ou um Trump. Farinha do mesmo saco autoritário.

O neoliberalismo está agônico. Mas, como diria Lampeduza, o novo ainda não nasceu. E há os que desejam abortar qualquer possibilidade de que defensores de uma politica econômica menos falimentar possam vir a dirigir o Estado brasileiro. Para os parasitas são inaceitáveis reformas tributárias a eliminar óbvios benefícios dos que pagam benévolos impostos incidentes sobre o capital, ainda que improdutivo. Isentos na grande herança das grandes fortunas. Ainda que essas formas de tributação sejam usuais na maioria dos países membros da OCDE, totem de pigmeus globalizados. Nesta perspectiva e para esses áulicos, a pobreza e a miséria são apenas incômodos óticos. Dos quais basta desviar o olhar. E há sobretudo quem se esmera em desviar nosso olhar do grande conto de vigário da dupla Reagan-Thatcher e o cantochão do TIA (There is no alternative). E enquanto o Titanic afunda, o pessoal da primeira classe reclama que falta água nos chuveiros.

A retomada da industrialização no Brasil é identificada com a recriação de feudos protecionistas e se defende a atual reprimarização das exportações brasileiras como um passo progressista. Há quem argumente que a vocação do Brasil sempre foi a de ser o celeiro do mundo. Embora aqui, a fome seja uma chaga social evidente.

A falência do neoliberalismo, registrada em cartório com a crise financeira de 2008, chega a sua fase terminal. Já estamos pagando as custas. O debate subdesenvolvido não se liberta da polaridade artificial esquerda-direita, flâmulas esfarrapadas do século XX. A preservação do planeta, o bem-estar social, o fim do preconceito racial e sobretudo o ocaso de unilateralismo predatório são considerados nova forma de "gauchismo“. As regurgitações de um Trump, de um Putin enfeitiçam mentes geneticamente autoritárias, algumas delas a vicejar bem próximas a nós. A Constituição brasileira de 1988 é subversiva. Irrealista. Irrelevante.

As eleições de 2022 estarão certamente subordinadas à dicotomia da racionalidade contra o obscurantismo. A tragédia a que estamos a assistir na Ucrânia é um sinal tão claro quanto o da Pandemia. E lutar contra o patenteamento de vacinas será coisa de anarquista. Bom mesmo é um mandar e o outro obedecer. Como diria o Chacrinha; “Teresinha, acabou a cloroquina".

O tumor finalmente explode. O voto em outubro realmente será decisivo. E as opções estão claríssimas. Nada que mais se possa escrever esclarecerá o falso dilema diante de nós. Não há dilema. Há apenas uma indomável ambição de enriquecer a qualquer custo. Inclusive a custo da recolonização do Brasil, no bicentenário de sua proclamada independência. Quem sabe, 50 Petrobras não resolvem o problema? Um candidato presidencial quer privatizá-la em 4 filhotes.

Nada está oculto. Não somos cegos. O eclipse é provocado pela ignorância e azeitado pela violência. Talvez, aqui deveria eu acrescentar um "que Deus nos ajude”. Mas, prefiro recordar John Kennedy em seu discurso de posse: na "Terra, em que pese a proteção de Deus, o homem é sempre o único responsável por seus atos”.

Não me penitencio se termino aqui, quando me sobra generoso espaço editorial. Faço-o de forma deliberada. Há horas em que o falar demais é uma descortesia com a clarividência dos fatos. E com a honestidade.

E como nos ensinam Freud em seus estudos e Harold Pinter em seu teatro, há silêncios de uma eloquência brutal.

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Em Tempo: É sinal bom nestes tempos a candidatura de Cristina Serra à presidência da ABI. Quem me dera pudesse nela votar e em sua chapa democrática que tem Helena Chagas e Luiz Taranto. Cristina Serra e Dorrit Harazim são leituras obrigatórias no jornalismo brasileiro. Divas.

 

*Embaixador aposentado

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