Uma brisa de racionalidade

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Na Rússia, a epítome do autoritarismo. Putin, imagem invertida de Stálin. A simbiose perversa entre o neoliberalismo fundamentalista e o populismo neofascista no eixo Putin- Trump ilustra ambas invasões : a da Ucrânia e a do Capitólio, em Washington. Trump é Putin.

Com direção maniqueísta de Steve Bannon, o filme do terrorismo político tem como figurantes aprendizes menos relevantes, alguns deles inquilinos do gabinete do ódio . Patéticos patetas a contribuir no roteiro com a fina flor da ignorância larvar, adubada com regressão cultural ,preconceito racial e misoginismo. E notável propensão à violência verbal,física e armada.

Inútil gastar tempo,tinta e talento a repetir o que se sabe. O Brasil está, à revelia de sua sociedade, atolado em areias movediças onde movimentos econômicos e políticos desencontrados aprofundam a miséria dos pobres, afastam investidores nacionais e estrangeiros e enriquecem os parasitas de sempre.
A possível escassez de fertilizantes agrícolas torna- se pretexto para uma tentativa de esfolar a Amazônia, os índios e a Constituição. Hienas políticas, já bem cevadas com a Pandemia e suas consequências, partem agora em direção a outras demolições. Pois, de demolição se trata. Este, o Brasil que temos.

Não desabou em nossas cabeças como raio divino nem mandinga ou mal-olhado. É fruto de voto majoritário. Não pela primeira vez . Temos tendência atávica a buscar santos e milagreiros. Nossa história está repleta deles. De Antônio Conselheiro a Bolsonaro. Menções honrosas para a vassoura de Jânio, a bala de prata do Collor. Compartilhamos nossa cidadania com Santos Guerreiros contra Dragões da Maldade. Já dizia Glauber Rocha.

Nunca nos meus oitenta e um anos de vida vi desmanche maior. Tantos desenganos e tantas mentiras. Mentira a ganhar status de “ fake news”. Objeto obscuro do desejo, a acumulação monetária sem teto nem limite. Só malandragem. Orçamento secreto a comprar votos no melhor estilo do coronelismo político. Bilhões para o fundo eleitoral público. Corrupção estilo República Velha. Descarada e deslavada moral dos costumes de um lado, jogatina mafiosa de outro.

Não seria melhor expor os lobbies? Quem quiser defender a Pharma que se identifique. Muito melhor do que ficar por aí a falar abobrinhas em nome da pesquisa científica, frequentemente subsidiada pelo Estado,sempre pintado como vilão pelos oligopólios globalizados.

A guerra da Ucrânia terá inevitavelmente repercussões sobre o que pedantemente se chama a governança global. O liberalismo exacerbado, neoliberalismo fundamentalista, vaza água por todos os poros. Vaza gasolina. Vaza gás.

Finalmente, vemos a que nos levou a ideologia antissocial de Tatcher, as reflexões hollywoodianas de Ronald Reagan, apoiadas por gurus como Milton Friedman . Olavo de Carvalho. Valha-me Deus!

Dos anos 80 do século 20 até hoje, promoveu-se a ideologia do desmonte do Estado,em nome de uma hipotética sanidade de mercados auto- regulados. Nesta esteira vivemos a maior crise financeira mundial desde 1929, alimentada por engenhosos créditos podres, bolhas diversas, cuja consequência irrefutável foi o desajuste social catastrófico, o enriquecimento indecente de uns poucos e o empobrecimento das classes médias nos Estados Unidos e mundo afora.Politicamente pululam movimentos populistas neofascistas, desemprego endêmico e redução drástica dos mecanismos de defesa social.

O Brasil, embora tenha resistido a exageros óbvios do neoliberalismo, a partir dos governo Temer e Bolsonaro chafurda nos postulados neoliberais e hoje nos vemos num estado socialmente deplorável,com aumento da pobreza, retorno da fome nas classes mais pobres e desindustrialização galopante.

Invoca-se a Pátria e o nome de Deus como salvaguardas para o bote peçonhento a cozinhar em fogo cibernético nos laboratórios de Putin. A reeleição a qualquer custo. Inclusive o do crime.

Estamos diante de ameaças reiteradas à democracia, à ordem constitucional, à integridade das eleições. E a orquestra continua a tocar a valsa do Titanic em direção ao naufrágio histórico. E o Procurador Geral da República, no dia internacional da mulher, enaltece a liberdade de as mulheres escolherem a cor do verniz de suas unhas. Felizardas mesmo. E o povo que não tem a possibilidade de escolher o seu defensor público?

Neste melancólico panorama, surge um movimento de proposta alternativa ao neoliberalismo que, confesso, muito me surpreendeu e muito me entusiasma. Trata-se da criação de um núcleo de economia política no âmbito do CEBRI ( Centro Brasileiro de Relações Internacionais) associado à FIESP.

Presidido por André Lara Resende, o núcleo nasce com a chancela de um intelectual brasileiro de inatacáveis credenciais e de coragem comprovada nas críticas reiteradas ao neoliberalismo radical. Expelido das rodinhas dos bem arrotantes ideólogos da submissão nacional. Ponto a seu favor.

O núcleo iniciou seus trabalhos esta semana passada com duas primorosas exposições sobre as falácias do neoliberalismo radical que se podem ver tanto no YouTube quanto no próprio site do CEBRI. A iniciativa inaugura um novo clima nos debates econômicos e sociais em nosso país e , ademais, tem a grande vantagem de oferecer textos para leitura e debate. Coisa rara nos encontros mercadológicos a que estamos involuntariamente submetidos.

O patrocínio da FIESP, na pessoa de seu novo presidente, Josue Gomes da Silva, indica o possível ressurgimento de uma política industrial mais afinada com os interesses do país. Pode significar um giro importante e significativo na retomada de nosso crescimento econômico. E pode marcar historicamente a gestão de Josue à frente da organização patronal mais importante do país.

Passarei a ser um acompanhante das próximas apresentações do núcleo de economia política e sugiro a você, que me honra com sua leitura, que faça o mesmo. E o compartilhe. Os conferencistas falam português claro e evitam o esnobismo rasteiro de economistas brasileiros a recomendar que o Brasil “ faça o dever de casa” e a assinalar que toda e qualquer monstruosidade advinda do neoliberalismo radical é apenas “ um ponto fora da curva”.

Mas, voltemos ao núcleo de economia política .Não conheço iniciativa com tanto potencial de melhorar o clima político-econômico . O debate aberto sobre o futuro de nosso país se impõe nesta época em que vacinas são confundidas com bruxarias e a regressão cultural é acalentada como manifestação de progresso.

Nos meus anos de infância, ouvia dizer que “ ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil.” A saúva hoje atende pelo codinome ignorância, incompetência e bonapartismo bastardo.
Cumprimento os organizadores ,em especial a André Lara Resende, por dedicarem tempo e inteligência a este mais do que bem-vindo trabalho social. E agradeço antecipadamente em nome de nossos netos.

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