ARTIGOS
Léo Gola, o samba e as revoluções
Por LÍDICE LEÃO, [email protected]
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Publicado em 20/12/2021 às 18:46
Alterado em 20/12/2021 às 18:46
Eu havia dito à Stefânia Gola, uma das mulheres mais poderosas, criativas e generosas da cena cultural progressista de São Paulo, que escreveria para este espaço aqui do Jornal do Brasil um artigo sobre as mulheres do Ó do Borogodó. São várias parceiras, cheias de graça e de garra, que garantem luz ao samba na cidade de Adoniran e Geraldo Filme. Para quem ainda não teve a sorte de conhecer, o Ó do Borogodó está para São Paulo assim como a Roda do Bip está para o Rio. Dois templos de samba e resistência.
Mas, em vez de falar das mulheres do Ó, hoje precisamos falar do Léo Gola, fundador do Ó do Borogodó, na Vila Madalena, ao lado da irmã Stê - como Stefânia é carinhosamente chamada. O Léo nos deixou cedo demais. E deixou lembranças boas demais.
Numa brincadeira entre amigos, eu sempre dizia que o melhor do Ó do Borogodó era o pós-Ó do Borogodó. Aquele momento em que as portas do bar eram fechadas e nos sentávamos juntamente com o Léo e a Stê para relembrarmos as inesquecíveis histórias dos velhos tempos. O nosso Léo, invariavelmente de roupa branca, copo de uísque na mão, sorriso nostálgico, falava sobre a nossa infância na rua de paralelepípedos na zona norte. Sobre política, música, futebol. Parava. Pensava. Sorria. Refletia mais um tanto. Voltava a falar. Misturava a situação social do país com uma referência do samba. Atravessava com algum personagem que conhecia - um músico, um amigo militante, um pescador, um parceiro de carnaval. E sorria de novo.
Para a conversa, trazia Chico Buarque, Cartola, Jayme Leão, Juraci, "Seo" Naelson, Carlos Neder, belezas, mares, Mandaqui – o bairro em que crescemos. E naquele momento eu via o Léo criança, com camisa do Corinthians e dezenas de gritos de guerra que trazia dos estádios. Amigo inseparável do meu irmão, o Rodrigo. Via o Léo adolescente, cuíca nas mãos, tocando na nossa rua, com o labrador preto Zapata atrás dele. É óbvio que Zapata foi assim batizado em homenagem ao líder camponês da revolução mexicana, Emiliano Zapata. E é óbvio que quem deu o nome do cão foi o Léo. Porque o Léo amava as revoluções. Interesse que ficou evidente no Léo adulto: o Léo do Ó, o Léo do PT, o Léo admirador e parceiro de luta do Carlos Neder, que também nos deixou este ano. Aliás, que ano, minhas amigas e meus amigos. Que ano.
A nossa roda de conversa terminava com sorrisos e lágrimas. Porque o Léo era todo sentimento, assim como o título da música do Chico, que inventou o "tempo da delicadeza", onde o Léo está agora. Onde vamos encontrá-lo com certeza, para seguirmos encantados ao lado dele. Obrigada, Chico Buarque, por emprestar os seus versos para eu escrever sobre o Léo, o sambista que foi, mas foi sorrindo. Obrigada, Geraldo Filme, pelo samba lindo que enfeitou o gurufim do Léo no Ó. O mais lindo que já existiu, cantado pelos muitos amigos de vida do Léo.
E é claro que não dá para escrever sobre o Léo sem falar dos olhos de céu e mar. Como descreveu a minha mãe, que o Léo chamava de "tia" Gilca, o Léo tinha um olhar “para o além”. A olhar através da gente, do nosso espaço e do nosso tempo. Olhos de um azul de leveza. Olhos que deixaram o samba, os amigos e as revoluções desse mundo cheios de saudade.
Por aqui, a Stê segue tocando o Ó do Borogodó, com toda a força com que ergueu o templo da boa música ao lado do irmão. Porque a Stê é mulher de luta, doçura e resistência. Imagino a sua dor, querida. Afinal, ninguém deveria nos deixar aos 47 anos. Muito menos o Léo.
Viva o Léo Gola e o templo do samba paulistano, Ó do Borogodó, o lugar do Léo. O nosso amigo estará por lá nas noites de roda. Em cada lembrança, acorde e batuque.
Lídice Leão é jornalista e mestra em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo