'Tem muita coisa estranha aí': uma frase cada vez mais comum

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Desde o início da pandemia e, em especial, a partir do momento em que as vacinas contra a covid começaram a aparecer, é possível que a leitora ou o leitor tenha se acostumado com a frase “Tem muita coisa estranha aí”.

Dias atrás peguei um Uber e o motorista estava sem máscara. Pedi gentilmente para o condutor usar a proteção facial, justifiquei que temia a variante ômicron do vírus. Pude perceber gestos de contrariedade do rapaz ao cobrir parte do rosto, seguidos do comentário “Ah, mas tem muita coisa estranha, a gente não sabe no que acreditar”. “Mas cada um tem sua opinião”, concluiu ironicamente o condutor do aplicativo.

Calei-me. Mas concordo com o rapaz quando disse ter muita coisa esquisita. A começar pela mais absoluta negação da realidade por parte da gente que só acredita no que quer. Ao contrário do que diz a ciência, a opinião de muitas pessoas – incluindo, aí, o mandatário do Poder Executivo – é de que a máscara não serve para nada.

Se cada um tem sua opinião e a ciência, experiência e o conhecimento acumulado da humanidade não servem para nada; se as decisões individuais, baseadas nessas opiniões, prevalecem sobre o bem-estar coletivo; se há um afastamento dos cidadãos da ideia de nação e o que se discute em subgrupos é a única coisa que vale; se há uma negação crescente de regras básicas para a vida saudável em sociedade, então estamos perdidos.

Por exemplo: No carro, se eu estivesse com pressa, poderia pedir ao tal motorista que cruzasse a rua com o semáforo no vermelho. Diria que, na minha opinião, a luz vermelha é um sinal de avanço. Buscaria na internet argumentos para justificar tal posição. Talvez achasse notícia – “fake”? – de um país distante onde os motoristas avançam no vermelho e que, lá, quase não há acidentes de trânsito. Seria a minha opinião contra a dele.

É quase certo que o condutor não desrespeitaria a regra de trânsito. Possivelmente por receio de ser multado e não pelo risco de um acidente grave ou fatal. Pois, se ele se negou a acreditar no uso da máscara para proteger a vida, por que pensaria em resguardar sua integridade física ao cruzar o semáforo?

Algumas empresas de redes sociais, ao incentivarem o engajamento pelo ódio, contribuem para a formação de sociedades com sujeitos autocentrados, sedentos por destilar opiniões raivosas sobre qualquer assunto. Há, entretanto, outros aspectos a serem pensados. A incapacidade de serviços públicos suprirem seus cidadãos com condições mínimas de saúde, educação, segurança, saneamento básico, cultura e transporte de qualidade, por exemplo. A economia em frangalhos, desemprego, fome; corrupção e concentração de renda. Mistura-se tudo numa grande panela de pressão aquecida por declarações presidenciais de indigesta perversidade e hipocrisia, acrescenta-se a destruição provocada por centenas de milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas e o que deveria se esperar a não ser um ambiente propenso ao ódio e desinformação?

Tem muita coisa estranha aí? Certamente. No caso da covid e das vacinas, basta observar a guerra entre as farmacêuticas por mercados e a valorização surreal de suas ações nas bolsas de valores mundiais. Como não considerar a hipótese de um ou outro agente público ter favorecido corporações em troca de propina? Isso deve, sim, ser investigado. Mas a investigação não invalida o efeito positivo das vacinas, que é de salvar vidas.

É possível que, assim como o motorista do aplicativo, tenha muita gente que só acredita no que quer por pura teimosia. Ou será que, muitas dessas pessoas, por terem seus quereres continuamente desrespeitados, perderam a esperança de acreditar em algo? Isso, talvez, explique a conclusão da frase que ouvi no carro: “... a gente não sabe no que acreditar”. Não sabe no que acreditar ou tem receio de acreditar?

Publicitário, escritor e vice-presidente da União Brasileira de Escritores (UBE-SP). Autor do romance “Através”.

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