O insustentável eclipse do Brasil

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'Que ardente chicotada em minha consciência é este discurso'
(Shakespeare. Hamlet. Ato 3. Cena 1 - Tradução de Millôr Fernandes)

 

O aplauso, sincero e entusiástico, dos membros do Parlamento Europeu ao presidente Lula merece registro especial por seu significado geopolítico e por reacender o sentimento nobre da brasilidade.
Justo sentimento, diga-se de passagem, nesses tempos em que a imprensa internacional nos relega a páginas sombrias tingidas de críticas, ironias, desprezo e pesar. O aplauso europeu coincide com os primeiros raios de sol a iluminar a face obscura do eclipse a nos envolver em trevas trazidas pela Peste, pela morte de mais de meio milhão de brasileiros e pela opacidade política de se ter semeado um ódio desconhecido na história da Democracia brasileira desde a Constituição de 1988.

Enganam-se os que confundem as manifestações europeias apenas como apreço pela pessoa do ex-presidente brasileiro ou como endosso ao candidato às eleições de 2022. O povo europeu é suficientemente ilustrado nas regras da soberania popular para saber que eleições são matéria de exclusiva responsabilidade das sociedades democráticas e nelas repousam o poder decisório, refratário a qualquer forma de ingerência formal ou informal, principalmente nestes tempos em que o abuso do poder digital já se transformou em forma velada de intervenção política.

Há casos recentes desses abusos, inclusive em países até então considerados inatingíveis por essas manobras manipuladoras de massas. Infelizmente, em certos casos estimuladas por candidatos que delas se beneficiam expondo a risco a liberdade de seu próprio povo. Ou a de outros povos, como o enlace Trump-Steve Bannon não esconde um projeto autoritário e antidemocrático a respingar lama em nosso processo eleitoral absolutamente confiável, principalmente quando comparado com a do próprio Estados Unidos da América.

Não há como não ver nas sucessivas manifestações de aplausos à palavra do ex-presidente dois fenômenos políticos sincronizados. O primeiro deles é o reconhecimento da indispensável presença da palavra brasileira no desarranjo da ordem internacional, principalmente em suas vertentes políticas e econômicas.

As palavras de Lula tocaram fundo os que hoje constatam os desvios da ordem democrática, os riscos de uma desastrosa nova guerra-fria entre as duas maiores potências mundiais, a falência social de um capitalismo financeiro desregulamentado a provocar distorções catastróficas nas rendas nacionais, no incremento acentuado das desigualdades econômicas e a hipertrofiar a brecha entre super-ricos e extremamente pobres.

Ao fazê-lo, com a eloquência do estadista, Lula ressaltou a importância do Brasil na geopolítica mundial não só por seus conhecidos fatores de dimensão territorial, riqueza energética e mineral, mas também pela influência histórica da diplomacia brasileira sustentada no Direito Internacional, na solução pacífica de controvérsias e - sem favor - num bem adestrado corpo de diplomatas recentemente jugulado pela ideologia autoritária e a mera ignorância das complexas teias entrelaçadas de interesses em jogo.

Lula recordou os mecanismos internacionais multilaterais e regionais criados com a liderança ou pelo menos a ativa participação do Brasil. Alguns, como a UNASUL, imediatamente desfeitos pelos governantes atuais com sérios prejuízos para a articulação possível dos países sul-americanos na defesa contra a Peste do Covid. Mencionou igualmente nossa timidez nos BRICS, a descontinuidade de nossas conversações mais profundas com a Índia, África do Sul e países da franja do pacífico na América do Sul.

Recordou nossa determinação em não aceitarmos acordos comerciais desequilibrados como a ALCA, sem colocar em risco nossas relações com os Estados Unidos da América e com os países membros do NAFTA, acordo regional posteriormente modificado para pior por Trump, destino a que seríamos empurrados tivéssemos aceitado e assinado a ALCA. Tudo isso Lula fez em conversas francas e abertas com o então presidente Bush, a quem chamava de “companheiro Bush”.

Essa diplomacia de defesa de interesses nacionais foi imediatamente substituída por uma artificial identidade de interesses com os Estados Unidos da América e quase nos levou a uma aventura militar com a Venezuela, obra da mente demoníaca de John Bolton, homem que muito contribuiu para a ignominiosa invasão do Iraque. No caso da Venezuela, tenho para mim que terá sido decisiva a participação do vice-presidente da República, general Mourão, quem soube cortar com determinação uma invasão da Venezuela com o concurso do Brasil, conflito que se sabia como começaria, mas não como poderia terminar.

Daí para frente, foi um desastre atrás do outro que nos afastou de nossos aliados e nos colocou gratuitamente como uma figura “divertente" aos olhos de chefes de Estado nas Nações Unidas, onde temos a honraria de abrirmos todo ano o debate geral.

O segundo aspecto da intervenção de Lula no Parlamento europeu, sincronizado com os pontos que esbocei acima, tem a ver com a capacidade do estadista de fazer comum uma causa julgada até então como intratável por mecanismos de ação conjunta.

Não foi gratuita nem meramente lisonjeira a menção de Lula ao fato de a União Europeia ter superado inimizades e guerras históricas entre seus membros. Recordou-o para expor sua convicção de que a paz e o progresso são as avenidas abertas para o futuro global.

Trump, em sintonia com Estados autoritários, promove a ilusão de que o progresso se encontra num passado idealizado onde se mistura bem-estar social com segregações diversas sejam as ditadas pelo preconceito real sejam as emanadas de falsas e distorcidas concepções religiosas.

No discurso da extrema direita mundo afora surge de forma cada vez mais frequente o ódio ao imigrante, ao pobre e ao desvalido. As antigas políticas de cunho social-democrata são estigmatizadas em grande parte pelo sentimento generalizado de que o pagamento de impostos seria uma forma inaceitável de financiar a educação e a saúde públicas.

O “Make America Great Again” é uma apologia inconsequente num país que saiu da crise de 1929 com o “New Deal” de Roosevelt com forte investimento público. Aos poucos, de forma subreptícia, o Trumpismo se aproxima a passos largos da anarquia como etapa preliminar do autoritarismo em que o líder se substitui ao Estado Democrático de Direito. E esse risco não está totalmente afastado. Voltarei a este tema em artigos posteriores.

Lula não se furtou a responsabilizar o trumpismo pelo desmonte do sistema econômico internacional e convidou os países europeus a juntarem-se aos países latino-americanos num movimento de reforma das instituições de Bretton Woods e da Organização Mundial do Comércio a fim de ajustá-las às novas realidades do mundo contemporâneo.

Lula foi aplaudido porque deu forma e consistência ao sentimento de angústia de um mundo em transformação acelerada, aparentemente caótica e certamente desagregadora. O ex-presidente brasileiro, como bom estadista, sintoniza com as percepções ainda informes e dá a elas uma direção consequente.

Não foi por outra razão que mencionou o caráter global de um movimento urgente em prol da sobrevivência da Democracia e da paz universal. Assinalou que a ONU deveria jogar papel central como instrumento catalizador de uma reforma corretiva dos descontroles de uma globalização assimétrica e de uma ordem econômica socialmente injusta, comprometida com o capital improdutivo, a acumulação predatória e com a manutenção de novas formas cartelizadas de grandes empresas.

Teve a coragem de condenar em alto e bom som a perspectiva de uma guerra fria entre a China e os Estados Unidos da América o que levaria a uma nova clivagem dos países no eixo Ocidente-Oriente. Um mundo dividido pelo muro da rota da seda. Ou pela tecnologia do 5G. De qualquer forma, uma inversão histórica a nos transformar nos bárbaros do século 21.

Deixou muito bem delineada a verdadeira reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, onde hoje o poder de veto é um elemento muito mais propício a iniciativas bélicas do que um distensor de tensões, como vimos por ocasião da invasão do Iraque, talvez o mais inquestionável erro diplomático de nosso tempo.

Lula mostrou como hoje a sociedade mundial está integralmente envolvida na sobrevivência da espécie e do planeta e assinalou a importância de uma ação coletiva de auto-preservação.

Volta para casa com a mesma tranquilidade com que daqui saiu. Certo de sua missão e convencido de que a primeira tarefa será a de promover o reencontro de seu povo com a energia positiva de reconstruir a confiança em si mesmo. De qualquer forma, candidato ou não, Lula coloca o debate político brasileiro nos patamares da racionalidade e nos convida a um olhar mais benigno sobre nossa própria condição. É um facho de luz sobre as trevas que nos rodeiam.

E só desta forma o eclipse se dissolverá.

*Embaixador aposentado

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