Precatórios e Precauções

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Houve um erro tático na artimanha indecorosa da votação da PEC dos Precatórios. Contava-se que a Peste da hipocrisia generalizada, disfarçada de política social, embalada em emendas secretas e afagos do poder não encontraria objeção além do horror disseminado pela população brasileira já cansada e calejada com tantos e tão repetidos estupros da Constituição brasileira.

Com tantas e rotineiras subtrações do dinheiro público, com tantas e aberrantes injúrias à inteligência da cidadania, com tantas e sacrílegas invocações ao nome de Deus como justificativa para semear o ódio e a miséria num povo humilde, sequioso de um óbulo, um pão, uma agulha de vacina.

Erraram e se tornaram irremediavelmente nus, despidos de sua verborragia doentia, psicopatológica, demente e desagregadora. Tornaram-se zumbis de uma política necrológica, fratricida, suicida. Tornaram-se mortos-vivos a exalar pelos corredores do poder o nauseabundo odor da fortuna perdida.

Esbarraram mais uma vez, desta vez de forma frontal e inequívoca, na consciência e na honra nacionais e pela pluma da justiça, empunhada por uma mulher-ministra, de nome Rosa, conheceram o peso da letra e do espírito da Constituição brasileira, diariamente atacada, mas ainda capaz de se levantar em defesa do Estado de Direito, ameaçado de ser transformado em casa da mãe Joana ou lupanar da anarquia.

Que eu saiba, foi a melhor lição do primado da lei engolida por rebentos do coronelismo mais arraigado em nossa sociedade escravocrata.

A consequência maior será percebida aos poucos enquanto ainda escorre este sanguinário ano de 2021. Até que se abram os horizontes por que a esmagadora maioria do povo brasileiro anseia. A retomada de nossa vida longe de ameaças cotidianas de autoritarismos e despotismo. E do reinado absolutista da ignorância mesclada com irracionalidade.

Nossa moeda se derrete diante do dólar. Nossos alimentos exibem preços de iguarias de monarquias decadentes, nosso combustível sobe a cada dia com a cotação de especuladores invisíveis. Nosso ministro da Economia, que se autoimpôs a majestade não de um, mas de três ministérios, nos oferece uma tripla derrota no orçamento, no planejamento e no comércio. Falante, emudeceu. Exibido, aquartelou-se. A derrota sempre é madrasta do panache.

Nunca a Diplomacia brasileira se viu com tanto repúdio e nossos diplomatas começam a ouvir cada vez mais a ladainha dos que nos convidam a uma sociedade distante de nossos legítimos e históricos passos em busca de uma independência efetiva e não acólita dócil de parcerias leoninas. Nos tornamos um país de opereta. Os negociadores da União Europeia riram de nossas impensáveis concessões no Acordo com a Europa e agora ainda nos exigem mais. Nos tratam como pirralhos arruaceiros. E, convenhamos, algumas vezes merecemos esta caricatura.

E, por absurdo que pareça, devemos ser gratos aos que nos governam nestes dias de ira. Nunca tivemos a oportunidade de nos defrontarmos de forma tão cotidiana e tão explícita com o pior de nós mesmos. Longe vão os mitos do homem cordial brasileiro. Não é cordial a sociedade que deixa à beira da morte milhões de pobres. Não é sadia a sociedade que não consegue dar pão e escola para as crianças, soltas pelas ruas na antessala dos tribunais e das cadeias onde certamente terminarão suas vidas. Não é cordial uma sociedade que deixa morrer seiscentas e muitas mil pessoas por incúria na compra de vacinas.

Aprendemos quanto nos custa acreditar em vozes de messianismo político, em salvadores da Pátria que nos prometem a redenção, que se elegem condenando práticas corruptas e depois nelas chafurdam, mentem descaradamente sobre o que sabem e o que ignoram e nos acenam com o armamento como forma de diálogo e respeito.

Caímos todos numa armadilha cujas ramificações ultrapassam em muito a camarilha que dela se aproveita. Há meandros que apenas agora começam a mostrar seus pântanos embora ainda muito bem encobertos por quem se beneficia anonimamente da imensa desigualdade social que emerge mundo afora. Há algo de muito podre. E não só na Dinamarca. Como nos advertia Shakespeare.

Apenas me acalenta a certeza de que em 2022, ano de bicentenário de nossa Independência, teremos eleição no Brasil. Ou muito me engano ou as lições que aprendemos nestes últimos anos nos farão encontrar a via correta - não a chamada terceira via, codinome do jeitinho brasileiro - ancorada na convicção de nossa grandeza, de nosso compromisso com os princípios fundamentais de nossa Constituição de 1988.

Nela se encontra o destino de um país justo, uma sociedade solidária e comprometida com a preservação de nossa terra e o bem-estar do futuro de nossos filhos.
Não será fácil, mas certamente mais digno do que esta corrida insana de medo de nós mesmos.

*Embaixador aposentado

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