Brasil sem memória

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No passado, o Brasil gostava de exaltar, e até de exagerar, os feitos dos seus ídolos e heróis.
Deus era brasileiro, Santos Dumont tinha “inventado” o avião e nosso futebol era imbatível e o maior do mundo. Até um bandido como Lampião virou o Robin Hood do sertão e o irresponsável Pedro I era o “libertador” da pátria.

Nossas cédulas e moedas traziam as estampas de Tiradentes, Felipe dos Santos, Tamandaré, Duque de Caxias, Getúlio Vargas, Barão do Rio Branco e Pedro II.

Mas, os tempos mudaram. Hoje é uma figura francesa, primeiro usada por Portugal, que está imortalizada nas cédulas e moedas do Real.

Como se pode observar, o Brasil adora desconstruir os seus ídolos.

Virou moda, graças à gloriosa Internet, falar mal das pessoas de uma maneira grosseira; detonar qualquer figura pública que cair nas garras dos que acham que “quanto pior, melhor”.

Um ex-ministro da Economia, sempre gentil, foi a primeira vítima; outro correto ministro, que cuidava dos pobres, com uma vida inteira dedicada as causas sociais, foi xingado e quase agredido por um desconhecido mal educado e mal informado em um restaurante.

A falta de respeito com as figuras públicas chegou a tal ponto que, muitos se recordam, quando uma turba de riquinhos avançou contra Chico Buarque, na porta de um bar, criticando suas posições políticas; um direito de todo cidadão. Só quem não viveu os anos de chumbo; só o ignorante obtuso, ou o que não sabe o que é poesia e música divina, pode desconhecer a importância de Chico Buarque para o Brasil e para o mundo. E o Chico achava que o amanhã seria outro dia.

Nossa história está repleta de figuras extraordinárias que até os livros escolares esqueceram: de Anita Garibaldi a Irmã Dulce ou Frei Galvão; de Carlos Chagas a Vital Brasil e Oswaldo Cruz, cuja homenagem no Instituto foi transformada em Fiocruz; de Rondon a Niemayer; de Vila Lobos a Tom, Vinícius e Chico; de Pelé a Garrincha; de Maria Ester Bueno a Guga; de Adhemar Ferreira da Silva a Eder Jofre; de JK a Lacerda; de FHC a Lula, que deram ao Brasil, a admiração e o respeito do mundo inteiro.

Mas, pelo andar da carruagem, todos esses ídolos, e ex ídolos, correm o risco de serem achincalhados a qualquer momento, se já não o foram, e de terem suas biografias jogadas no lixo. E quem é que sobra para os nossos professores contarem a história do Brasil?

Será que é por isso que nossas cédulas e moedas preferem estampar o perfil de um grego estilizado ou o desenho de uma onça pintada? Nossos heróis e ídolos não merecem a imortalidade estampada no Real?
Por outro lado, o governo americano acaba de anunciar que a imagem da ex-escrava e líder abolicionista Harriet Tubman substituirá a do ex-presidente Andrew Jackson (1829-1837) nas notas de vinte dólares. Os americanos reverenciam seus heróis, a sua bandeira e as suas instituições.

Os inglêses mostram com orgulho o perfil de sua Rainha em suas moedas e notas.

São muitos os exemplos em todo o mundo.

Quando é que vamos pelo menos respeitar os heróis da pátria? Quando resolverem ornamentar nossas cédulas e moedas com nossos heróis e heroínas não podem esquecer que Dona Zilda Arnes dedicou sua vida aos pobres brasileiros e morreu tentando salvar os famintos do Haiti? Será que Dom Helder Câmara, boicotado pelo sistema no Prêmio Nobel da Paz, não pode ser homenageado em uma moeda no lugar de um bicho do mato. Será que já esquecemos os feitos do campeão Airton Senna?

Parece que o Brasil perdeu a memória. Se para atrás o seu farol não ilumina mais, para a frente, nem pensar. O Brasil está economizando as palmas até para quem brilha nos maiores palcos do mundo.

Morena Baccarin, filha de um editor que levei para a Globo em Nova York, nos anos 70 é, hoje, uma das mais admiradas atrizes da TV americana. Brilhou na série “Homeland” e é a estrela maior de “Gothan”, séries campeãs de audiência. Só não vê quem não quer o talento do brasileiro Paulo Szol, aplaudido nos musicais na Broadway, em Nova York e ganhador do Prêmio Tony, o prestigiado Oscar do Teatro Americano. O Brasil não deu bola e a imprensa não fala de Jordana Brewster, brasileira que estrela os filmes da série “Velozes e Furiosos” que imortalizaram Paul Walker.

Por muito menos, nos anos 50, a cantora Carmem Miranda, ganhou notoriedade em Hollywood e foi idolatrada no Brasil vestida de baiana e rebolando com uma cesta de frutas na cabeça
Não vejo uma única linha, no Brasil, sobre os artistas plásticos Beatriz Milhazes ou Fernando Vignolli, que já nos deixou, e que conquistaram os Estados Unidos e tem seus quadros avaliados em milhões de dólares. Procurem no New York Times e vão encontrar.

O que aconteceu com o orgulho de ser brasileiro? E os nossos ídolos e heróis? Se em outras épocas era proibido lembra-los, agora o brasileiro faz questão de esquecê-los. Estamos criando um país sem heróis. Uma nação sem referências. Um país que nega seus ídolos e heróis é um país que nega seu passado e está condenado a não ter um futuro para o que virão depois de nós.

Hélio Costa é jornalista

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