Trumpismo e suas cepas (3): o poder militar

.

“Pátria Amada, Pátria Armada”. A voz da Igreja Católica na data comemorativa da padroeira do Brasil. Sermão lúcido. A nos chamar a atenção para os descaminhos que percorremos. Armas nas mãos de todos, não para a defesa da Pátria, mas como convite ao banho de sangue fratricida. Um alerta e uma quase excomunhão de deuses com pele de Lúcifer. Uma página que lembra Vieira diante da invasão das naus inimigas.

Meus amigos perguntam por que insisto em relacionar o trumpismo com o quadro nacional. Porque, respondo, só os cegos não veem a tessitura dos mesmos abismos, das mesmas armadilhas, das mesmas conspirações.

Todos os desatinos do trumpismo referidos em meus últimos artigos se apoiam no depoimento de Bob Woodward em seu último livro “Peril". É o terceiro do mesmo autor sobre o governo Trump e se concentra em seus últimos meses na Casa Branca.

Woodward, desde os tempos do escândalo de Watergate, nos anos Nixon, consagrou-se como repórter político de extrema respeitabilidade. Suas informações são sempre fidedignas, sua disciplina intelectual e moral fazem de seus livros fontes relevantes de nossa história corrente e, que eu saiba, jamais foi objeto de contestação judicial seja por disseminar inverdades seja por tingir com as cores do ficcionismo os diálogos mais confidenciais dos personagens a circular por corredores do poder.

Há uma outra razão tão forte ou até mais profunda a nos interessar de perto, pois são sabidos e divulgados na imprensa brasileira os arranjos formais ou informais entre auxiliares e familiares do presidente do Brasil e o personagem atrabiliário do entorno trumpiano, Steve Bannon. Líder de extrema direita, com passado criminoso em sua passagem pela gerência da usina de "fake news" "Cambridge Analítica” (fechada judicialmente) e influente assessor de candidaturas extremistas na Europa, sobretudo na Itália, e protagonista da criação de uma associação de mesmo conteúdo político mundo afora com ramificações até no Brasil.

Ainda recentemente, os jornais brasileiros noticiaram, por volta de sete de setembro próximo passado, a realização no Rio de Janeiro de uma reunião dos prepostos de Steve Bannon com marqueteiros de candidaturas brasileiras, dentre as quais as relacionadas com a campanha de reeleição no Brasil. O tema foi objeto de interveniência de membro do Supremo Tribunal Federal a impedir a transferência de fundos entre os prepostos de Bannon e os agentes brasileiros.

Em “Peril“ Woodward descreve com a habitual clareza o papel de Steve Bannon nos eventos preparatórios da invasão do Capitólio no dia 6 de janeiro. Ali se vê o radicalismo de Bannon não só a convocar simpatizantes de Trump para a ação criminosa contra o regime democrático, mas também sua selvageria em estimular a violência que depois assistimos perplexos pela televisão.

Woodward detém-se também no comportamento cínico e inescrupuloso de Trump antes e durante o episódio. Antes, Trump ameaçou os representantes do Partido Republicano, governadores de Estados e juízes estaduais para que se opusessem à certificação de votos pela Congresso - ritual necessário para a confirmação do presidente eleito - tarefa constitucionalmente de exclusiva competência do vice-presidente em suas funções de presidente do Congresso americano. As ameaças pessoais e políticas feitas a Mike Pence por Trump no salão oval da Casa Branca ultrapassam o linguajar e a ferocidade de um chefão de Máfia. A horda que invadiu o Capitólio gritava “morte a Pence” como nos velhos filmes de faroeste americano, sob o império da força bruta.

A cada dia em que via perder substância legal suas reivindicações, Trump mergulhava numa ira incontida a preocupar seriamente o comandante das Forças Armadas americanas general Milley que o enfrentou em diálogos ásperos, opondo-se às intenções de Trump em utilizar forças do exército como linhas auxiliares de seu golpismo.

A preocupação com o estado de saúde mental de Trump levou o general a tomar duas providências inéditas para a segurança interna e externa dos Estados Unidos. No primeiro caso, o comandante reuniu-se com seus subordinados e auxiliares diretos e criou mecanismos sigilosos entre eles para não darem prosseguimento a qualquer ordem de Trump que implicasse em uso de forcas militares no território nacional, sem prévio e exclusivo assentimento dele, general Milley.

Com relação à tranquilidade externa, o general tomou a iniciativa de telefonar para seu contraparte chinês, dar-lhe conhecimento de que as forças armadas americanas, inclusive as responsáveis por lançamentos nucleares, estavam perfeitamente sincronizadas com ele, general, e que não haveria hipótese alguma de qualquer atitude bélica dos Estados Unidos. A descrição das conversas entre os generais chinês e americano, vale o preço do livro e me lembrou em muito o fio de navalha em que vivemos no mundo das armas nucleares, retratada no filme “cult" de Kubrick, “Doctor Strangelove”, talvez a melhor e mais ampla exibição do talento artístico de Peter Sellers. Vale a pena ver ou rever.
Do episódio, fica a lição do respeito ao texto constitucional pelo comandante militar americano ao deixar claro a seus comandados e à população americana que o único juramento vinculante dos militares é ao texto constitucional. E não há juramento a presidentes, tiranos ou não, que se substituam a ele.

Bela lição de que a Pátria Amada pode ser também a Pátria Armada. Não é outra a constante e reiterada advertência do Supremo Tribunal Federal, único e legítimo intérprete de nossa Constituição.

*Embaixador aposentado

Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade.
Ao continuar navegando, você concorda com estas condições.
Saiba mais