A boca do jacaré e a mordida de 31 pontos

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“O chefe quer saber por que a participação de mercado caiu. Reunião na sala dele, em 10 minutos”. A vírgula depois da palavra “dele”, uma pausa dramática de 2 segundos, o veneno despejado pelo sádico portador da mensagem.

Ao ouvir a frase, o departamento parecia um formigueiro onde se atacou fogo. Era gente correndo de um lado para o outro. Nos instantes seguintes, pânico. Uns pegavam o primeiro calhamaço de papel à frente. A passos rápidos, voltavam às suas mesas. De cabeça baixa, enrolavam as folhas de sulfite como a simular familiaridade com o amontoado de celulose e angústia. Depois, voltavam com o mesmo calhamaço em mãos e o colocavam na mesa ao lado, a se livrar do problema.

Era preciso fazer algo, a coisa era séria. Buscava-se respostas, ainda que esfarrapadas. O importante era ganhar tempo. Como explicar a derrota? Se a resposta fosse conhecida o resultado seria outro. “Vamos?”, disse o gerente do departamento. A postos, seus soldados marchavam em fila indiana atrás do líder, o primeiro a dar a cara a tapa.

A porta da sala do chefe maior, cobrador de resultados, estava fechada. Duas batidas, mão na maçaneta, “Com licença?”, e entra o líder da equipe. Os subordinados o seguem. Tem nos olhos a expressão sisuda e resto de dignidade de uma tropa que vai para a guerra de peito aberto, em desvantagem, enfrentar o inimigo.

O gerente mostra papéis carregados de dados e sem análise alguma. A braveza calada do chefe intimida até o silêncio da sala. O ar é rarefeito. Pouco se respira, todos sufocados pela incapacidade e inoperância do chefe maior. Mas ele disfarça, atribui a perda aos demais, faz cara feia e dá um ou outro murro na mesa.

A cara feia some quando o gerente apresenta o gráfico de mercado. O desenho de duas linhas no fundo branco lembra a mandíbula aberta de um jacaré. O chefe maior esboça um sorriso: ouviu falar que isso pode ser um sinal positivo, só não se lembra onde e quem disse. “tem oportunidade aí”.

O leve inclinar dos lábios superiores logo dá lugar a olhos esbugalhados. A boca do chefe, cheia de espanto, só não é maior do que a mandíbula do jacaré. Isso porque lhe explicam que a linha de cima mostra o crescimento da concorrência. A de baixo, em queda livre, é o resultado de sua gestão. Ante o assombro do chefe maior, o gerente e subordinados relaxam os ombros e se acomodam nas cadeiras. Não há o que fazer.

Quando o líder sente a pancada, estão todos autorizados a perder. A partir de agora, é cada um por si. Tentamos, pelo menos, reconfortam-se, sem saber ao certo o que fizeram.

A última pesquisa do Datafolha mostra os níveis mais baixos de apoio ao governo federal. Desde o final de 2020, a aprovação só faz cair. Chegou a 22% entre as 3.667 pessoas ouvidas entre 13 e 15 de setembro.

Apenas cerca de 1 em 5 brasileiros apoiam o atual governo. Mais da metade, 53%, rejeitam o mandatário. As linhas de rejeição e aprovação desde o início do ano traçam uma mandíbula perfeita. Uma mordida que, hoje, seria de 31 pontos. E que segue aumentando. Sua Excelência está entre os dentes. Quanto maior a boca, mais forte a mordida.

Será que houve reunião de emergência em Brasília? O que teriam dito? Imagino os asseclas entrando no Palácio do Planalto. Cabeça baixa, calhamaços de folhas nas mãos, tentam explicar o inexplicável. Se eu fosse o da Economia, mostraria de cara o gráfico dos 31 pontos. Evitaria gritaria e murros na mesa. Melhor deixar o chefe maior de olhos esbugalhados. E, quem sabe, ganhar tempo para mais uma mordida. Antes do “salve-se quem puder”.

Publicitário, escritor e vice-presidente da União Brasileira de Escritores (UBE-SP). Autor do romance “Através”.