A luta das mulheres indígenas é a luta de todas as mulheres

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Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Credit...Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Quatro mil mulheres líderes de 150 etnias indígenas de diferentes regiões do país e mais de mil outras indígenas se manifestam nas ruas da capital federal pelos direitos dos povos originários e contra o “marco temporal”, julgado pelo Supremo Tribunal Federal desde o dia 26 de agosto. De acordo com a tese do “marco temporal”, os povos indígenas só teriam o direito à demarcação de terras que já ocupavam antes da promulgação da Constituição de 1988. É óbvio que Bolsonaro e ruralistas estão do lado oposto ao dos indígenas.

A Segunda Marcha das Mulheres Indígenas tem como tema “Mulheres originárias: reflorestando mentes para a cura da Terra” e é organizada pela Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade e pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil.

Comunicado divulgado durante o ato afirma: “Nós, mulheres indígenas, estamos em muitas lutas em âmbito nacional e internacional. Somos sementes plantadas através de nossos cantos por justiça social, por demarcação de território, pela floresta em pé, pela saúde, pela educação, para conter as mudanças climáticas e pela ‘Cura da Terra’. Nossas vozes já romperam silêncios imputados a nós desde a invasão do nosso território.” Ao ler o manifesto, me lembro que o líder indígena Ailton Krenak nomeia de “práticas desumanas” as ações que visam alterar o modo de vida dos povos originários para transformar a natureza em “recurso”, “como dizem os economistas”, nas palavras de Krenak.

As mulheres indígenas que estão em Brasília destacam o meio ambiente como um bem comum “que garante nossos modos de vida enquanto humanidade”. Complementando o que ensina Ailton Krenak, elas lembram que, para além de “recurso” físico, é morada dos espíritos das florestas, dos animais e das águas da vida. “Fonte de nossos conhecimentos ancestrais”.

Ora, não é difícil entender por que Bolsonaro se opõe à infinita sabedoria dos povos indígenas. Ele não faz a menor ideia do que seja “conhecimento”. Muito menos “conhecimento ancestral”. E os ruralistas? “Patriotas” que ganham muito, muito, muito dinheiro plantando basicamente soja e milho para exportação; que devem fechar este ano com faturamento superior a R$ 1 trilhão, segundo estimativa da entidade que representa o setor. 15,8% maior do que em 2020. Isso em plena pandemia, momento em que 14% da população brasileira está desempregada, de acordo com dados do IBGE, e mais da metade da população brasileira não se alimenta de forma adequada, segundo estudo da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar.

Como em uma sociedade de estrutura patriarcal cabe às mulheres cuidar da alimentação da família, são as mulheres quem mais sofrem com a fome dos filhos. Por isso, a luta das indígenas pelos seus territórios e pela “Cura da Terra” é a luta de todas as mulheres. Os povos originários não devem e não vão contribuir para o “sucesso” de um projeto de exaustão da natureza – nas palavras de Ailton Krenak – liderado pelo atual governo e pelo agronegócio.

Lídice Leão é jornalista, pesquisadora e mestranda em Psicologia Social pela USP