Crise? Que crise?

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“Se trabalhasse numa empresa privada já teria sido demitido”. Esse o comentário que tenho escutado, de uns tempos para cá, de algumas amigas e amigos que trabalham em grandes corporações. Falam sobre o atual mandatário do executivo federal. Demitido?

Alguns resultados do governo: atraso na compra de vacina, o que resultou em boa parte dos quase 600 mil mortos pela covid-19; crise energética; desemprego que supera 14%; a inflação se aproxima da casa dos dois dígitos, no acumulado dos últimos 12 meses. A lista é longa. “Tem quase três anos de governo e, de concreto, o que produziu?”, pensaria uma parcela de seus eleitores, boa parte formada por trabalhadores sujeitos à eliminação de seus empregos. Os mesmos trabalhadores que, se pudessem, demitiriam o presidente.

Uma pequena e rica parte da sociedade, por sua vez, refletiria antes de mandar embora o executivo chefe da república. Ou os acionistas do Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil, cuja somatória dos respectivos lucros líquidos ultrapassou R$ 23 bilhões no segundo trimestre (o melhor trimestre da história) estariam insatisfeitos com o atual governo?

Sobre o mundo corporativo, há uma anedota que a leitora ou leitor talvez tenha escutado, mas peço licença para resgatá-la: um presidente acaba de assumir a empresa e seu antecessor, recém-desligado do cargo, lhe entrega três cartas em envelopes fechados. O primeiro envelope diz: “Abra na primeira crise”. Ao ler o conteúdo, o executivo lê: “Culpe seu antecessor”. E o repertório do atual ocupante do Palácio do Planalto é vasto. Aponta o dedo para Temer, Dilma, Lula, Fernando Henrique, Dom João VI e vai até o chefe da tribo Tupinambá, nas imediações de Iguape, onde passou a infância, quando o Brasil era Pindorama. Não só isso. Briga com pares, cria intrigas, favorece familiares em detrimento dos resultados, é misógino, autoritário, intempestivo, não dá satisfação. O resultado de eventual pesquisa de clima organizacional mostraria um relatório dizendo que se trata de uma corporação “tóxica”. O Brasil certamente não entraria na lista dos melhores países para se trabalhar. Não me parece, no entanto, que os acionistas do Itaú, cujo lucro líquido informado foi de aproximadamente R$ 7,6 bilhões no último trimestre, vejam o país em situação, digamos, tóxica.

Crise? Que crise? E o capitão aposentado se arrepende de ter rasgado o primeiro envelope.

O segundo envelope diz: “Abra na segunda crise”. Possivelmente iludido pelos donos do dinheiro, o chefe maior do Estado talvez não tenha rasgado o envelope e lido a mensagem: “Culpe o mercado, a concorrência, o dólar”. Embora tenha flertado com ataques à China, o mandatário de longe usufruiu da riqueza de desculpas que a mensagem proporciona. Ou porque não entende de mercado, ou porque está guardando os cartuchos para um cada vez mais improvável segundo mandato. Ou porque é de sua responsabilidade a política cambial. “Mas isso é com o financeiro”. E o presidente joga a batata quente no colo do subalterno.

Pode ser que, ciente do conteúdo da segunda mensagem, o presidente tenha guardado o envelope em algum canto, para abrir em 2023: “Vou deixar essa desculpa pra depois”. Mas como um autêntico sujeito desorganizado, não se lembra onde colocou o papel.

Segunda-feira: o executivo descansou no final de semana. “Terça passada foi bom. Viu como o pessoal me adora?”, disse o chefe maior aos “parças” no churrasco de domingo, orgulhoso por ter insultado os supostos inimigos. Às onze da manhã, tranquilo, entra no gabinete presidencial, senta-se na cadeira. Na mesa, olha para a gaveta. Ainda sob o efeito da cerveja da noite anterior, leva a mão ao puxador, recua. Quer crer que o segundo envelope ainda esteja lá. “Posso ter me enganado”. E abre a gaveta. Nada. No fundo, apenas a terceira carta. Lacrada. Um calafrio percorre sua espinha, seus olhos esbugalhados. Teme o conteúdo da mensagem: “Escreva mais três cartas”.

Coragem! Abra o envelope. Ou então, numa eventual operação deficitária, grandes especuladores, acostumados a agir na surdina, podem lhe entregar a carta em mãos. Com toda pompa e circunstância. Contratariam, sem que Vossa Excelência soubesse, um entregador de luxo, um ex-campeão de Fórmula 1, por exemplo. Que, num rolls-royce, lhe daria o recado pessoalmente.

Publicitário, escritor e vice-presidente da União Brasileira de Escritores (UBE-SP). Autor do romance “Através”.