Quem paga o pato? O sabiá?

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Acordo cedo, por volta das seis e meia. Lá fora, a vida começou faz tempo. Ouço o ronco de motores dos carros nas ruas. Ouço também um ou outro bom dia, distante, ao filho que tem aula mas não sai da cama. Aula online. A mãe bronqueia: “onde já se viu, vai se vestir, calça o sapato e levanta para estudar. Tomou o café da manhã?”

Outra mãe, uma sabiá, já matou a fome dos filhotes. Era madrugada cheia quando começou a piar. Essa uma mudança que a pandemia trouxe: os animais se aproximaram de nós. Efeito do ano passado, quando a cidade silenciou por meses? As aves voltaram. Com elas, os gatos, no muro, a perturbar a paz de cães cujos latidos só afagam a indolência felina. Um dos gatos, provocador, para, joga o rabo para o lado de cá do muro, balança feito serpente e sai, levando consigo os uivos e deixando a discórdia na matilha.

Outro felino, esse de casa, observa o sabiá que mais parece um pet. O tal pássaro, além do céu, ganhou o perigo confortável da casa. Entra na cozinha pelo buraco do vitrô, vai ao pote de ração e come um ou outro grão. Um mês atrás, ao me aproximar, ouvia o bater de asas. Hoje, ele – ou ela – mal se importa: quando me aproximo, dá uns passinhos para o lado. Logo estará bebericando na minha xícara de café fresco, coado na hora.

O gato de casa só observa. Tem o instinto do vírus da covid-19. Se espalha enquanto espera a hora de atacar. Muda de sofá, falseia, se finge de morto, invisível. Conta com a distração da pequena ave que, atraída pelo alimento fácil sob um teto, não sai de casa. Já nós, humanos, que não sabemos voar, fora de casa somos presa fácil. Basta respirar errado. Não existe almoço grátis.

Coloco pó no filtro, cubro com água fervente. Cuido para o líquido não transbordar. Daqui a meia hora tenho reunião. Online. Busco a máscara, ajeito no rosto. Para quê? Estou sozinho. O pássaro, à espera do café, estranha: Que tucano é esse? Após breve hesitação, sai, impaciente. Tiro a máscara, não há mais perigo. A presa se foi. A cauda do bichano de olhos fechados, antes em pé como um chocalho de cascavel, agora descansa na almofada.

O perigo está em todo lugar. Ao tomar um café em casa, os pássaros se arriscam. Uma gelada no bar? Nem pensar. O gato que se equilibre no muro. Cães: cuidado, não briguem. Uma mordida no lugar errado e já era. Estranho ecossistema: do portão de casa para dentro, precário equilíbrio. Lá fora, vírus por toda parte.

Tomo um gole do café, sozinho. Eu, o único humano acordado na casa. A impaciência levou o pássaro. O gato dorme no sofá. Os cães, no quintal estão bem alimentados. O saco de ração está cheio. Até quando? Nos últimos seis meses, o preço da ração aumentou mais de 30%. O que, ao contrário, diminuiu, foi a qualidade dos ingredientes. Basta olhar a composição na tabela nutricional. Quem paga o pato? O sabiá?

Hoje não preciso bater as asas fora de casa. Reuniões, só online. Sorte? Não para os 14,1% dos desempregados, dados do IBGE referentes ao 2º trimestre de 2021. Ao buscar emprego, muitos sairão da toca e se arriscarão em ares contaminados. Na mesma atmosfera onde os ventos do mercado financeiro trazem a meta ajustada de inflação para o ano: mais de 7%. Tempos difíceis? Não para a variante delta. Ao que parece, o vírus está no topo da cadeia alimentar. Bom não dar mole para o azar e continuar usando máscara.

Publicitário, escritor e vice-presidente da União Brasileira de Escritores (UBE-SP). Autor do romance “Através”.