Racionamento já, a Ida de ônibus para Shangri-la em Belford Roxo

.

Racionamento, porque é o cenário provável? Má gestão de um período de estiagem que não foi recorde, excesso de otimismo e elevação da carga baseado nos consumidores do mercado livre onde estão os grandes clientes com consumo intensivo de energia, em geral exportadores de “commodities metálicas” e outros que estão fazendo a festa com esse câmbio excessivamente desvalorizado. Assim como o primeiro governo FHC, com o câmbio valorizado, jogou as empresas exportadoras na lama, o inverso ocorre com a atual política cambial onde todas as empresas intensivas de energia exportadoras estão momentaneamente em Shangri-la ou Nirvana.

É um estado de euforia. Acontece que temos depois desse estágio o Shangri-lá de Belford Roxo. Nada contra nossa querida cidade do Rio de Janeiro. O problema é como chegar lá, vindo do Nirvana para entender que o arraiá acabou. Ônibus: 421, 5301. Isso já ocorreu 25 anos atrás com a festa de consumo importado dado pelo câmbio extremamente valorizado, caracterizado pela compra do carro importado Fiat Tipo (vindo inicialmente da Argentina), símbolo da festa de consumo da classe média que destruiu a economia com juros reais extorsivos.

A festa atual de algumas empresas vem do câmbio excessivamente desvalorizado e fez o PIB projetado sair de 2,5/3,0% em março para algo em torno de 5,3/5,5% em maio de 2021. Mas o setor energético não adotou essa premissa, ficou deitado em berço esplêndido e só reviu o PIB em 24/07/2021, passando para uma taxa de 4,6% sem contestação do Ministério da Economia.

Dado esse consumo intensivo projeta-se uma demanda 500 a 520 mil GWH de energia em 2021 contra 475 mil GWH em 2020 sendo o recorde de energia consumida no Brasil em 2019 de 483 mil GWH. A demanda industrial projetada é de 190 mil GWH recorde histórico para essa classe de consumidor, vindo de um consumo constante de 167 mil GWH em 2019/2020. O pico ocorreu em 2013 com consumo de 184 mil GWH.

Quanto à classe consumidora residencial, o comportamento está dentro do esperado, e o comercial sofreu bastante, mas vem se recuperando e depende da trajetória da pandemia, e os demais consumidores mantem estabilidade. O governo deve ser sempre conservador na área de energia. O cenário estava dado em outubro do ano passado e assim começou timidamente a despachar térmicas em novembro, mas recuou e agora não adianta colocar bandeiras tarifarias na lua, porque o efeito preço é pequeno. Agora, a preocupação de não ter energia tem resposta de demanda significativa e assim é que deve caminhar para reduzir os danos. Medidas de controle das águas a montante nos grandes reservatórios já deveriam estar “online”, mas sozinho é inócua, retardando somente o processo.

A crise hídrica é grave, poderá faltar potência para períodos de picos, o consumo instantâneo eleva-se 12/15 mil MW, entre 18 e 21 horas e energia, com o nível dos reservatórios.

O navio Brasil se sair do encalhe, com as graças de Deus e da Santa Bárbara, a protetora dos ventos, vai se deparar com enorme barranco ou “iceberg”, e aí colocarão culpa no falso projeto liberal. Deixar de lado as renováveis em sofrível expansão é a face da crise. São Pedro manda as chuvas no tempo e lugar certo. A solução é ligar térmicas poluidoras, será?

As projeções do ONS para meses à frente são: alcançar o nível de 21,7% em agosto, de 17% em setembro, de 12% em outubro e de 10% em novembro de 2021. A projeção considera a premissa de crescimento do PIB de 5%, sem especificar a elasticidade renda da demanda desagregada do setor residencial, comercial e industrial. Novembro poderá ser 5%?

O nível atual dos reservatórios da região Sudeste Centro Oeste tem 22,32% do volume total do estoque de energia e dado o esgotamento diário (546 GWH, 0,26%) temos mais 45 dias enquanto o sistema integrado (SIN) tem 60 dias. Ao final e ao cabo chegaremos a 10% de todos os reservatórios, crítico para a operação do sistema integrado. As datas podem diferir dias, mas chegaremos à segunda quinzena de outubro ao esgotamento do sistema.

Isto posto é clara a preocupação por dois motivos: Os valores projetados são alarmantes na medida em que o segundo semestre de 2021 deverá ser pior que o ano de 2020. Os níveis de junho e julho do ano de 2021 são os menores da série de 2014 em diante, tanto para o SIN quanto para a região Sudeste-Centro Oeste. Pode-se afirmar que houve um “forte esvaziamento” dos reservatórios devido o aumento do consumo de energia nos meses de janeiro a julho e agora é olhar para frente, mas a administração dos reservatórios no ano foi extremamente arriscada, oposta à posição conservadora que o Estado Gestor do (SIN) deve assumir.

O setor industrial surpreendeu pelo alto nível dos preços de “commodities” e o câmbio extremamente desvalorizado, estimulando o consumo intensivo de energia, não trazendo benefícios diretos em termos de emprego e pagamento de impostos. Propor incentivos justamente a quem provocou a crise, não recuperará os reservatórios à frente.

Sendo conservador na gestão do sistema integrado e caso fossem bem administrados os reservatórios, teríamos hoje uma situação muito melhor. As fontes de energia renováveis, UHE´s a fio d'água, a geração eólica, a geração solar, as térmicas com prioridade a gás, elas foram preteridas pelas usinas térmicas poluidoras. As modificações do Clima afetaram as vazões afluentes e os consumidores intensivos usufruíram da crise para ampliar o consumo de energia e a lucratividade, em razão dos preços internacionais e da cotação do câmbio.

Por último, vamos comparar o período o atual com o racionamento ocorrido em jun-2001: em maio/2001 a demanda era de 40.000MWm caindo após prescrição do racionamento para 33.000MWm; por outro lado, hoje a demanda é de 70.000MWm, pouco se acresceu de usinas com reservatórios, mas a oferta energizou com UHE’s a fio d`água em 20milMW, eólicas de 17milMW, solar em 4 milMW e de 20/22 mil MW de térmicas a gás, biomassas e outras. Dado todas novas unidades de geração e expansão da transmissão, mesmo assim estamos limitados, com insuficiência de 5% de energia e potência para os meses de outubro e novembro de 2021, correndo um forte risco de falta de energia e de potência no horário de pico ou ponta do SIN, colocando em risco a integridade do conjunto turbina-gerador das UHE´s ao passar água enlameada nos referidos equipamentos.

A solução é eliminar o modelo onde as UHE´s são escolhidas para “pagar o pato”, criminalizando São Pedro e louvando Santa Barbara, agora não adianta mais. Hoje o operador projeta esvaziar os reservatórios até um limite não controlável chegando à situação crítica atual e difícil de ser revertida. A solução é a transformação urgente do crescimento da geração centrada em energia solar, eólica, gerando resultados no curto prazo de um (1) ano aliado ao incremento de térmicas a GNL nos centros de carga.

Os reservatórios serão a grande pilha e bateria do sistema. Dado essa mudança de configuração rever a privatização na margem da Eletrobrás, colocando no FRGPS capitalizando todos os atuais e futuros aposentados, por direito e justiça. Um novo universo com a imensidão dos brasileiros (75 milhões de famílias) detentores dessa joia, gula de alguns espertos. Para isso apenas uma caneta BIC, lei 101/2000, artigo 68. Acreditem...

Cada 10.000 MWm mês de térmica ligada daria uma economia de 7300 GWH. Como foram oito meses, teríamos economizado 60 mil GWH, o que faria uma transição tranquila agora.

O presidente delegou demais e os números e projeção foram escondidas e agora deixam perplexo o presidente. O ministro da área estava de férias no exterior e o da Economia, segundo a imprensa, não participou de reuniões importantes do comitê de crise. Assim, Bolsonaro foi tomado de surpresa. É a hora de decisões e mudanças para reduzir prejuízos e danos ao nosso querido Brasil. Não será com determinados grupos encastelados sempre no poder que resolverá a situação crítica que está à frente de todas as demais. Como no Plano JK sem energia não chegaremos ao futuro desejado e esperado por todos os brasileiros. É a hora da disrupção no setor de energia renováveis, ouçam as previsões de Tony Seba, temos tudo para mudar a rota para um Brasil grande e tecnologicamente desenvolvido no sexto ciclo de ondas de inovação mundial que influenciará o crescimento.

*Engenheiro Eletricista - IME e Doutor Em Economia EPGE-FGV