A renúncia de Jânio

Agosto é um mês de lembranças que marcaram a história brasileira

Agosto é um mês de lembranças que marcaram a história brasileira.

Entre os vários episódios que aconteceram nesse mês, além do suicídio de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, no Palácio do Catete, houve a renúncia de Jânio Quadros (1917-1992).

Eleito em 3 de outubro de 1960, pela coligação PTN-PDC-UDN-PR-PL, para o mandato de 1961 a 1965, Jânio Quadros teve quase 6 milhões de votos. Foi a maior votação obtida no Brasil até então.
Mas, seu governo teve um curto período. Na tarde de 25 de agosto de 1961, Jânio Quadros anunciou sua renúncia. Que foi prontamente aceita pelo Congresso Nacional.

O popular "Repórter Esso", em edição extraordinária, atribuiu a renúncia a "forças ocultas" - expressão criada pelo próprio Jânio.

Na ocasião, o vice de Jânio, o ex-presidente João Goulart (que teve mais votos que o próprio Jânio, para vice, pelo antigo PTB, naquela eleição em que as chapas não eram obrigadas a ser coligadas) estava em viagem oficial à China Comunista.

Jango, um grande democrata, tinha ficado com a fama de ser esquerdista quando exerceu o cargo de Ministro do Trabalho de Getúlio Vargas. E, aumentou o salário mínimo em 100 por cento.

Alguns udenistas dizem que Jânio, muito temperamental, achava que surgiriam manifestações populares contra sua renúncia. E, vaidoso, que voltaria ao poder pelos braços do povo.

Mas, isso não aconteceu.

Nos bastidores da política, o anúncio da renúncia só foi divulgado muito tempo depois.
A renúncia abriu uma crise nos setores militares e da UDN, que vetavam o nome de João Goulart para assumir presidência da República.

Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara, como representante do Congresso, assumiu provisoriamente.
E, foi formada uma Junta Provisória, que governou de fato, durante 13 dias, até a vitoriosa Campanha da Legalidade, liderada por Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul e cunhado de Jango.
Brizola e legalistas de todo o país conseguiram fazer pressão para que o vice do udenista (Jango) tomasse posse.

João Goulart assumiu, mas, antes disso, políticos ligados à UDN, militares e outros setores conservadores agiram e pressionaram para que fosse adotado o regime parlamentarista.

Tancredo Neves, amigo de João Goulart e colega de ministério (Jango foi ministro do Trabalho de Getúlio Vargas e Tancredo Neves, ministro da Justiça, no governo entre 1951 e 1954) era um conciliador.
Assumiu o cargo de Primeiro-Ministro do primeiro governo de João Goulart no dia 8 de setembro (Jango assumiu a presidência da República no dia 2 de setembro). Em junho de 1962, Tancredo se demitiu do cargo. E, em outubro, foi eleito deputado federal pelo PSD mineiro.

A experiência parlamentarista foi revogada por um plebiscito em 6 de janeiro de 1963. E, o presidencialismo (com Jango, como presidente) foi restaurado.

Jango tornou-se presidente da República. Mas, foi derrubado pelo golpe militar de 1964.
Um ano depois de sua renúncia do cargo de presidente, Jânio Quadros tentou eleger-se governador pelo Estado de São Paulo. Mas, foi derrotado por Ademar de Barros.

Fez muitas críticas à ditadura militar e, por causa disso, foi cassado. Em 1968, foi detido pelo exército, por ordem do ex-ministro da Justiça, Gama e Silva. Ficou confinado no Hotel Santa Mônica, em Corumbá, na fronteira com a Bolívia.

Recuperou os direitos políticos em 1974.

Em 1985, foi eleito prefeito de São Paulo, com o apoio de setores conservadores. Teve o apoio dos empresários que ajudaram a derrubar João Goulart, da Tradicional Família e Propriedade (TFP), de Maluf e Delfim Neto.

Derrotou Fernando Henrique Cardoso, que era o candidato preferido. Exerceu o mandato até 1989.
Com a saúde frágil, recusou-se a candidatar-se à presidência da República, em 1989. Deu apoio a Fernando Collor.

Teve três derrames cerebrais e morreu em fevereiro de 1992, em estado vegetativo.

*Empresário e ex-deputado.