2021, o ano começou em agosto

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Agosto sempre foi mês de mau olhado. Minha geração recorda o 24 de agosto de 1954 e as marchas fúnebres a sepultar as ilusões sobre o pacifismo do Brasil. Uma carta lida e relida. Ouvida ao longo das horas na voz do melhor locutor daqueles tempos, Heron Domingues, levado por um infarto em agosto de 1974, no dia seguinte em que anunciara a renúncia de Richard Nixon nos desdobramentos dos escândalos de Watergate.

Em agosto se dizia: “as bruxas estão soltas”. Até que os "idos de março", em 1964, se impuseram no calendário das derrapagens históricas.

Este agosto de 2021 talvez enterre de vez a má fama de um mês aziago e o transforme no signo da sensatez e marque na história deste país o momento em que a sociedade brasileira construiu uma barragem entre a barbárie e a civilização.

Tomara, no futuro nossos netos e bisnetos possam debater se as causas decisivas deste movimento regenerador da política brasileira do século XXI estarão ligadas à Praga do Covid-19 ou ao continuado abuso de poder do chefe, de cujo nome poucos se lembram e, quando o fazem, cospem de lado uns, batem na madeira outros, benzem-se contra assombração quase todos.

De qualquer forma, a eventual decisão sobre a prioridade desta ou daquela razão para explicar os eventos iniciados em agosto de 2021 será questão irrelevante e só permanecerá nas memórias dos tempos a inquestionável ascensão do Brasil como uma das mais importantes nações do século XXI. Justa, democrática e solidária.

Há um ponto sem divergências entre historiadores brasileiros ou estrangeiros ao identificarem o espetacular salto civilizacional iniciado em agosto de 2021 como a “Grande Opção pela Democracia”.

Não fosse a corajosa denúncia pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal Eleitoral talvez agosto de 2021 nos tivesse arrastado a uma negra noite de terror e sangue, alimentada pelo obscurantismo mais profundo vivido no Brasil na segunda década do século XXI.

É bem verdade que, em agosto de 2021, a sociedade brasileira em sua maioria não mais se iludia com as promessas e artimanhas articuladas por uma visão de mundo já fartamente em decadência. Alimentava-se em porões do poder a fantasia mítica, a espalhar nas redes sociais velhas ameaças de uma tomada do poder por forças comunistas. Como se ainda houvesse comunistas, como se ainda vivêssemos a polaridade da guerra fria, como se o Papa João XXIII não houvesse escrito a bela Encíclica “Pacem in Terris“, como se o maior desafio da contemporaneidade não fosse domesticar um capitalismo financeiro não produtivo e reduzir as desigualdades sociais, chagas abertas e dolorosas à toda inteligência e sensibilidade humanas.

Em agosto de 2021, os ideólogos do totalitarismo “alt-right" alambicado nas provetas de Trump-Steve Bannon só haviam acertado num aspecto do diagnóstico sociológico de botequim em que chafurdavam: a sociedade brasileira estava cansada, esgotada com as absurdas cifras da mortandade de brasileiros por uma Peste que não mereceu do governo um olhar humano ou pelo menos científico. Pior: inquéritos e investigações policiais e parlamentares mostraram a céu aberto a combinação maléfica de ignorância, preconceito e desonestidade com que se tratava a saúde pública no Brasil. E a educação pública. E os direitos fundamentais inscritos em nossa Constituição de 1988, peça central do pacto social após mais de duas décadas vividas sob o tacão autoritário, divisão dolorosa da sociedade brasileira e que no pré-agosto de 2021 se pretendia exaltar como política sustentável em um país civilizado.

A par desta ignomínia já em si criminosa, o deboche, os insultos com que diariamente autoridades do país se referiam aos que com elas não concordavam e a deselegância com que se dirigiam aos responsáveis por outros poderes da República minaram não só a confiança da sociedade em sua capacidade de governar com equilíbrio e sanidade, mas também contribuíram para o desprestígio de corporações públicas até então merecedoras de crédito.

E o trincar dos cristais se deu quando o delírio tomou a forma obsessiva de que o Supremo Tribunal Federal planejava a derrota eleitoral do chefe da nação, já embalado na insana busca de uma reeleição. Indiferente às pesquisas de opinião pública a mostrar a dificuldade de conseguir apoio para esta aspiração narcísica, empolgou bandeira de luta a questionar a integridade das urnas eletrônicas, sempre invejadas como a forma mais rápida e segura de votação num país de cento e cinquenta milhões de eleitores espalhados por território continental.

E do dia para a noite, passou a ser questão nacional a volta ao medieval sistema de votos por cédulas, sistema impensável pelos riscos de segurança e barroquismo neles envolvidos. Mas, na cabeça de uma pessoa que identifica vacinas com poções de feitiçaria, capazes de transformar um ser humano num réptil pré-diluviano, não se pode esperar nada de menos fulgurante.

Há certas condições humanas que nos escapam por seu absurdo e talvez fossem inócuas se não transpusessem as paredes de um abrigo ou até mesmo de uma casa de repouso. Mas, quando a realidade é distorcida de forma a transformar-se em verdade universal, o risco deve ser visto em toda sua dimensão, na exata proporção do mal que pode causar a milhões de pessoas inocentes, sequer conscientes de que sobre elas paira o mesmo destino de um avião nas mãos de um piloto decidido a espatifá-lo nos Alpes europeus. Já aconteceu.

Neste agosto de 2021, o Superior Tribunal Eleitoral abortou o plano de voo deste avião carregado de fantasmas. E nos lançou uma boia de resgate. Agora cabe a nós entender melhor o risco que corremos. E ter a consciência de que nosso caminho é balizado pela serenidade e pela lei.

Dar corda ou alento a tanto caos na hora em que temos uma epidemia ainda prenhe de astúcias, uma economia a se arrastar com a falência de milhões de desempregados, uma política externa que nos levou ao vexame internacional seria uma reação tão radical quanto a inseminada no organismo social brasileiro por hienas humanas sedentas de vinganças edipianas.

Hoje, nosso maior escudo contra a insanidade autoritária descarada diante de nós e impregnada de um ódio que sequer compreendemos será nos juntarmos a um Judiciário responsável pela guarda real de nossa Constituição democrática. Seu texto e seu espírito.

Não é só o Brasil que nos roubam. É nossa história e a de nossos pais. O futuro de nossos filhos e netos. Diante do mundo repelente a que se quer nos rastejar temos a dignidade e o dever de dizer NÃO.
E façamos de outubro de 2022, bicentenário de nossa Independência, a reafirmação da conquista de nossa soberania como homens livres, integrados numa terra abençoada, hoje infelizmente devastada pelo fogo criminoso das matas e pelos incêndios da ignorância autoritária.

*Embaixador aposentado