A alta bandidagem e o jogo da esperteza tacanha

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Bolsonaro tem atacado a democracia desde muito antes se tornar presidente. Ao assumir o cargo, disse que iria acabar com “tudo o que está aí” e cumpriu o que prometeu: destruiu. Até aí, nada de novo. O inapto sujeito fez ruir as estruturas do governo federal e a maioria dos seus eleitores já se deu conta da incapacidade do mandatário. Basta ver, nas pesquisas de opinião, os gráficos de popularidade em queda livre.

Mas o atual governo não se caracteriza apenas pela incompetência. Há um alto nível de maldade (ou sadismo, como queiram) que parte do presidente e contamina as esferas administrativas. Não fosse isso, Bolsonaro teria aproveitado a capacidade dos servidores públicos do Ministério da Saúde para sair-se como o salvador da pátria na pandemia. Teria ordenado a rápida compra de vacinas e hoje, a pouco mais de um ano para a eleição de 2022, não carregaria o ônus de ter de justificar aos brasileiros as mais de 500 mil mortes decorrentes da covid-19. Agora, francamente, dá para acreditar em atos de empatia vindos de uma pessoa cujo livro de cabeceira foi escrito por um torturador? A perversidade presidencial engole qualquer rastro de esperteza pragmática com objetivos eleitorais.

Ao tão somente atacar o Judiciário, Congresso, governadores e opositores, Bolsonaro mostra que seu jogo é o da esperteza tacanha, alicerçada em décadas de vivência no subterrâneo do poder, onde passar a perna parece ser a lei vigente. O atual mandatário da República parece sentir, de longe, o cheiro da maldade que exala dos encanamentos de onde frequentou. Seu olfato, no entanto, não está treinado para perceber coisas boas, que existem em todo canto, inclusive no Congresso Nacional.

Parece que a perspicácia miúda levou o governo federal a exercer sua única habilidade: criar oportunidades e se aproveitar delas. Ao deixar centenas de milhares morrerem, imagino se integrantes do alto escalão no planalto não esboçaram um leve, quase imperceptível, sorriso no canto de um dos lábios. E enquanto o regozijo preenchia suas presas com veneno, não se aproveitaram da necessidade da população para encher os bolsos com propina.

Deve haver um certo prazer na alta bandidagem. Prazer em submeter o outro, em enganar, ter poder suficiente para manipular, escolher quem se beneficia ou não de políticas públicas. Esse pessoal deve vibrar quando aprende, de ouvir falar, que o bem deve ser feito aos poucos e a maldade vir de uma vez: que morram centenas de milhares e depois, a conta-gotas, a gente traz a vacina.

A ajuda para a reeleição não virá do Ministério da Economia. Paulo Guedes está mais preocupado com seus próprios interesses e maldades. Observe os insensatos planos de privatização de estatais. Os Correios, por exemplo, obtiveram em 2020 um lucro líquido de R$ 1,53 bilhão. Está no site do Governo Federal, a um clique no Google. Você venderia sua empresa se obtivesse o maior lucro dos últimos dez anos? Pois bem. A reforma tributária, por sua vez, mais lembra um pacotão de insanidades, haja vista a proposta de aumento do imposto sobre os livros.

Bolsonaro aparenta não se importar. Alheio à sua popularidade em queda livre, grita, esbraveja pelo voto impresso, busca oportunidades para organizar um golpe de estado.

Se a leitora, o leitor e eu valorizamos as instituições democráticas e, portanto, melhores condições de vida, convém ficarmos atentos. Esta semana, o TSE fez a sua parte: determinou que o presidente seja investigado quanto ao ataque às urnas eletrônicas. A nós, cabe lutar para que atuais sádicos oportunistas ocupantes do Palácio do Planalto não usufruam do poder por mais alguns anos.

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores. Autor do romance “Através”.