Perdão, você disse extremismo?

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Hoje no Brasil, além das fake news , há as falsas verdades. Por exemplo, é uma falsa verdade afirmar serem as urnas eletrônicas suscetíveis de escamotear a realidade. Em nome desta falsa verdade, defende-se o retorno ao voto de cabresto, atentatório à cláusula pétrea do segredo do voto popular. Isto é, em nome de uma hipótese facilmente desmontada pela realidade dos fatos, defende-se a volta `a anti-democracia e se corre o risco de eleger um ditador “democraticamente”.

Se o Presidente do Tribunal Superior Eleitoral vem a público esclarecer a impossibilidade de se fraudarem eleições por meio das urnas eletrônicas e o chefe da Nação o chama de imbecil e defensor de um candidato supostamente anti-democrático, sem provas sobre a fragilidade das urnas eletrônicas e sobre a tendenciosidade de sua defesa da lisura do processo eleitoral, o que se deve fazer? Acreditar em quem ? No ignorante em álgebra elementar ou no decodificador das astúcias humanas?

Se durante uma Pandemia o mesmo chefe da Nação , sem provas, argumenta serem as vacinas ineficazes e retarda a aquisição delas por decisão própria e ,desta forma, contribui para as altas taxas de mortandade do vírus letal, você consegue estabelecer um vínculo suspeito entre vacinas e a condenação das urnas eletrônicas? Ou será legítimo acreditar que a ciência a preservar sua vida na Pandemia nada tem a ver com a tecnologia que protege a autenticidade de seu voto no processo eleitoral ?

Se o chefe da maior potência militar do planeta, onde o processo eleitoral se vale tanto de cédulas quanto de outros mecanismos eleitorais, declara ter sido derrotado por fraude eleitoral , exige inúmeras recontagens de votos e por fim estimula a invasão do Congresso Nacional no dia em que será confirmada legalmente a eleição de seu oponente, está ele a exercer seu direito constitucional ou simplesmente a extrapolar sua óbvia natureza doentia e anti-democrática? O fato de as alegações de fraude naquele grande país democrático terem sido apoiadas por quem acusa as urnas eletrônicas de serem passíveis de fraude, sugere a você que tanto um quanto outro político são sagazes indivíduos a perceberem os males criptografados nas tecnologias eleitorais ou apenas almas-irmãs no desprezo à democracia e na volúpia de poder absolutista ?

Você acredita ser sadia uma política econômica a reduzir os investimentos públicos em educação e saúde, os direitos trabalhistas de milhões de brasileiros e a aprofundar o nível de pobreza do povo ? Você a considera uma política moderna e aceitável para um país com os recursos agrícolas, minerais e humanos como o Brasil? Você acredita na motivação altruísta do responsável pela economia brasileira quando promete abrir as burras da República porque se teria finalmente convencido ser necessário reverter este quadro de calamidade humana? Ou você percebe a manobra demagógica no ano eleitoral de 2022 a merecer ser lubrificado pelo pão e circo dos imperadores romanos?

Você sabia ter Milton Friedman, guru do neoliberalismo e mestre do nosso senhor da economia , apregoado que a liberdade dos mercados deveria ser defendida contra "excessos" democráticos? Você sabia ter o neoliberalismo feito do Chile de Pinochet um campo de ensaio para a privatização da previdência social, com a consequente penúria de idosos e aposentados? Voce sabia que nosso senhor da economia defende o mesmo tipo de reforma da previdência social em nosso país? Você sabia que nosso genial ministro da economia participou dos experimentos econômicos neoliberais de Pinochet? Enfim, você acredita que nosso guru da economia tenha alguma preocupação social e se torne um defensor de investimentos públicos em educação, saúde e infraestrutra ? Você acredita que a privatização da energia elétrica do país não aumentará sua conta de luz? Não aumentará nossa dependência de forças nem sempre coincidentes com o interêsse público, mas inquestionavelmente em busca de uma maximação de lucros? Você acredita que a abertura do mercado universitário brasileiro para grandes conglomerados de educação internacional tornará a educação mais acessível aos jovens brasileiros de classe média? Ou fará da educação superior um meganegócio discriminatório e associado a visões de um mundo que desconhece ou deliberadamente ignora as necessidades de desenvolvimento social de países como o Brasil ? Você realmente acredita numa reforma administrativa que tornará o servidor público sujeito a injunções políticas e demissões arbitrárias resultará em benefício para a cidadania? Para o consumidor? Ou apenas fará do serviço público um toma lá da cá do coronelato político? E a reforma tributária ? Acabará com a sonegação? Nem isso. Os impostos serão mais progressivos? Como no bolero, fumando, espero.

Você realmente acredita que o futuro de nosso país já tão comprometido por tantos desvarios e desvios de rotas poderá ser melhor se continuarmos a imaginar que “com um empurrãozinho “ da sorte e por força de um destino escrito nas estrelas tudo cairá em nossas mãos graças a homens iluminados a nos advertir sobre os riscos de vacinas ? Ou será melhor tomar logo uma dose tripla dessas vacinas excomungadas?

Não creio no que ouço nem no que vejo propagado como verdades míticas dia sim dia não. Nossos salvadores da Pátria nos advertem: grandes extremismos certamente se abaterão sobre nós caso não sejam reeleitos. E me pergunto: quizás, quizás, quizás…

Vejo porém com grande preocupação a campanha facinorosa de estimular a posse e o porte de armas cada vez de maior calibre e a oferta de munição sem vergonha a cidadãos despreparados cultural, intelectual e emocionalmente. E sempre a mensagem subversiva: “ é fácil instalar uma ditadura no Brasil”. Mais uma vez é necessário recordar a mesma insanidade de Trump a levar hordas de anarquistas a invadir o Congresso americano aos gritos de “ matemos o vice-Presidente”. Belíssima defesa da Democracia. Irretocável patriotismo de um Presidente leal como um escorpião.

Não acredito neste vaticínio nem nesta bruxaria. Não acredito que o Brasil esteja melhor social e economicamente do que há dez anos atrás. Não crescemos. Involuímos. Nossa politica externa dos últimos dois anos e meio nos eliminou de qualquer encontro relevante das Nações Unidas ou fora dela. Na OMC sequer apoiamos nossos aliados nos BRICS numa discussão séria sobre os monopólios leoninos da propriedade industrial das vacinas e dos fármacos em geral. Nos transformamos num poodle do Trump que nos correspondeu com alta de tarifas em nossos produtos de exportação de manufaturados. Já fomos a sexta economia do mundo e hoje estamos em queda livre.Nosso Ministro da Economia trombeteou um acordo mais do que desfavorável à industria de transformação e aos serviços brasileiros. Desarticula o Mercosul em especial ao transformar nossas relações com a Argentina nos bons tempos em que nos odiávamos fraternalmente, nos estranhávamos nas Nações Unidas e nossos Exércitos estudavam reciprocamente cenários de guerra militares. Nada desta política terá sido benéfica para nosso país e sobretudo não acredito na campanha transviada de que possa ter havido nos últimos quarenta anos ou que venha a haver nos próximos anos extremismos em nossa conduta interna ou externa, iguais ou maiores dos que vivemos hoje. Aqui hoje a razão e o bom-senso abriu alas para as “Fat boys “ da violência enrustida pronta a explodir em sua sanha unidimensional, edipiana e abertamente projetiva.

Acredito porém - cada dia com maior conviccão- na determinação e na inteligência de um povo a fazer de uma prancha de isopor um trampolim para o pódio onde se reconhece a criatividade de atletas jamais bafejados pelo poder do dinheiro arrogante. Acredito numa jovem mulher a transformar seu destino por sua persistência e disciplina e a nos trazer uma medalha de Prata.

Acredito numa tranquila menina e seu “skate"mágico a desafiar obstáculos com a suavidade de uma fada. E que ainda por cima nos relembra a prudência de evitar aglomerações , de usar máscara e vacinas nesses fake tempos em que vivemos.

E todos eles a enviar uma mensagem solidária a cada um de nós. A nos dizer que não estamos sós. E silenciosamente nos revelam que neles frutificou a semente plantada por seus avós ao se recusarem fazer de suas vitórias, em tempos passados, um canto de subserviência ao autoritarismo.
E ao vê-los tão infinitamente mais jovens do que eu, me curvo diante de tanta sabedoria. E agradeço-lhes o melhor Brasil que construirão.