Por efeitos práticos

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Inácio de Loyola vivia na corte espanhola num tempo em que cavalheiros se acomodavam a uma vida de ócio e preguiça.

Incomodado, Inácio ansiava por participar de uma expedição contra os rebeldes. Finalmente, após quatro anos, encontrou a sua oportunidade. Tropas francesas, encorajadas por uma revolta em Castela, cruzaram a fronteira espanhola.

Correndo para local onde o inimigo concentrara ataque à linha de defesa, Inácio tombou com perna despedaçada. Com o fracasso da dolorosa operação, a deformidade física de uma perna demasiado curta seria o maior de seus infortúnios.

Certa noite, Inácio levantou-se de sua cama, ajoelhou-se em oração, e apreendeu algo que seu coração já conhecia: confiar o cuidado de sua pessoa ao Criador. Daí, seus infortúnios se transformaram em exortação para permanecer firme.

O progresso de Inácio foi árduo, lento e gradativo, de uma tarefa a outra, do erro à correção, do fracasso ao êxito; um progresso que não reside no conhecimento humano das coisas que são verdadeiras, mas em viver conforme a verdade.

Em pequeno livro que chamou Exercícios espirituais, Inácio mostrava que é possível, graças à força de vontade, desenvolver um senso aguçado de discriminação entre ações éticas e não éticas, e agir de acordo com a vontade de Deus.

Os múltiplos, e reiterados, ataques aos exercícios espirituais foram mais do que compensados por efeitos práticos: transformar um grupo de estudantes entusiasmados em uma ordem de força conquistadora do mundo, a Societas Jesu.

Engenheiro, é autor de "Por Inteiro" (Multifoco, 2019)