A estátua queimada

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Eu devia ter uns 7, 8 anos. Raramente ia visitar meus primos, mas quando o fazia era aquela festa. Pouco antes de sair de casa, a ansiedade era grande. O percurso de 10 quilômetros, talvez menos, parecia interminável. Ia cruzando os dedos para pegar os semáforos abertos, sem trânsito. No final da avenida que ligava os bairros, o carro virava à direita no clube Banespa. Estávamos chegando. Era o ponto onde uma euforia boa tomava conta dos pés calçados de kichute. Aproveitava para checar se os enormes cadarços estavam bem presos às canelas, separadas do interminável cordão por meias que iam até os joelhos. A brincadeira se aproximava. Cinco minutos, no máximo.

A felicidade só não era maior porque a um quarteirão dali o automóvel pararia em mais um semáforo, sempre vermelho. Aguardava a luz verde apreensivo, o olhar fixo no cruzamento. Pois, do banco de trás do carro, à esquerda, era possível observar a figura indigesta: uma imagem que me causava estranhamento e embrulhava o estômago. A estátua do Borba Gato.

Àquela época, não fazia ideia de quem fora o sujeito de sobrenome felino. Mas intuía ter sido um cara muito feio. E ruim. Pois quem construiu a estátua fez questão de caprichar no mau gosto. O bloco de concreto em forma de gente adquiria ares tenebrosos, dado que parecia emergir do centro de uma pracinha até que bem cuidada, de grama verde. Pobre grama, pobres gatos que lá urinavam. Sua sorte é que a espingarda ao lado do Borba, tão desproporcionalmente grande, jamais seria usada para abatê-los. Ao contrário da arma original, portada pelo homem que devia orgulhar-se de ser responsável por inúmeras mortes de humanos e felinos.

Anos depois, por conta de um trabalho na região, passei algumas vezes ao lado da tal estátua. A via de frente e de costas, era quase a mesma coisa. Expressão facial nula, de indiferença. Talvez de propósito. A vida alheia pouco importava ao homenageado. Mas a sensação, essa era diferente: o nó no estômago deu lugar à vergonha alheia. Vergonha pelos pedestres obrigados a passar ao lado daquela aberração. Sou contrário à ocupação de espaços públicos por empresas privadas. Mas se, sem que eu soubesse, alguém construísse um bar ou edifício no lugar daquela coisa horrorosa, talvez minha memória seletiva fizesse questão de apagar a imagem que estranhei desde a infância.

Semana passada atearam fogo na estátua do Borba Gato. Logo após o ocorrido, vi a imagem pela internet e penso que ficou menos feia. O prefeito de São Paulo saiu do casulo e bradou que um empresário, anônimo, ofereceu dinheiro para restaurá-la. Alguém seria capaz de tamanha incapacidade artística? Se sim, sou a favor. Com uma condição: que junto à estátua se construa um museu onde a história do assassino seja contada em detalhes. Quantas mortes causou? Por sua ação, quantas injustiças foram cometidas, quantas tribos foram escravizadas, usadas e eliminadas para que o explorador cumprisse seu propósito?

Há gente que se orgulha do que fez o antigo sertanista? Então que se depare com seus assassinatos. Sou a favor da manutenção da estátua. Sou a favor da sua restauração, desde que acompanhada de relatos históricos dos feitos de Borba Gato e sua turma. Para que sua feiura se justifique ao escancarar a história de crueldade.

Voltando à infância, me lembro de certa vez, ao lado da escultura, perguntar ao meu pai quem tinha sido aquele homem. Algum pilantra que virou estátua, me respondeu. O embrulho no estômago passou na hora.

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores. Autor do romance “Através”.