O deus da ignorância

Quem tem criança em idade escolar e se preocupa, ainda que moderadamente, com a interação social das filhas e filhos, se depara com situações constrangedoras. Uma unhada na bochecha, mordida no dedinho, um ou outro sopapo. Como pais, somos induzidos pela escola a agir com prudência, mostrar à prole que não se deve morder a orelha do amiguinho. Caso o pequeno agredido tenha o nosso sangue, o manual do bom senso educacional dita que orientemos nossos herdeiros a, se reagirem, que o façam para se defender, nunca atacar.

Nem sempre é fácil. A depender do dia, a vontade é de esbravejar com os responsáveis pelo agressor mirim. Ou mesmo cobrar alguma atitude do pobre professor ou professora que, além de ter de lidar com uma sala lotada de crianças, ao final do dia, cansado, é obrigado a prestar contas aos progenitores.
O livro “O deus da carnificina”, da escritora e dramaturga Yasmina Reza (Editora Âyiné, 2021), peça de teatro cuja versão em francês foi publicada em 2007, eleva a questão mencionada a um outro patamar. Dois casais se reúnem para resolver um conflito entre seus filhos. Ferdinand, de 11 anos, agrediu, com um bastão, o colega Bruno, que perdeu seus dentes incisivos. A mãe de Bruno, Véronique, após redigir uma notificação do ocorrido, recebe os pais de Ferdinand em sua casa para resolver o incidente, ao lado do marido, de forma civilizada.

Em busca de conciliação, a conversa entre os pais dos garotos se desenvolve de tal forma que, em certo trecho do livro, a exposição dos adultos traz à tona uma reflexão sobre suas próprias fragilidades e os difíceis acordos, explícitos e implícitos, que se apresentam para encaminhar o desfecho. A condição humana, presente nas sutilezas dos diálogos, só reforça a precariedade das relações sociais, como no trecho em que Alain, pai do garoto agressor, diz: “Véronique, será que alguém se interessa por alguma coisa além de si mesmo? Todo mundo gostaria de acreditar na possibilidade de melhorar as coisas. E seríamos ao mesmo tempo quem faz as melhorias e quem se beneficia delas.”

Quando Alain, um advogado mais preocupado em atender as ligações de trabalho no celular do que resolver o conflito em questão, prossegue dizendo que “os homens se debatem até a hora da morte”, pode sustentar o ponto de vista de que a raça humana não tem jeito e, de certo modo, justificar seu modo de agir. É cada um por si.

Se a cada um cabe cuidar da própria vida, por que se preocupar com o sujeito ao lado? Os filhos dos outros são problemas dos outros. A vida alheia não nos diz respeito. Amparados na ignorância e ausência completa de senso de coletividade, temos o direito de ser como somos.

Somos o que queremos ser, livres para agir do modo que escolhermos. Por que não sair de casa sem máscara enquanto o país acumula mais de meio milhão de mortos? Nos damos, da mesma forma, o direito de optar por determinada vacina pois, ouvimos dizer, a imunidade desta ou daquela não é boa. Desprotegidos, ameaçamos nossas vidas e as dos próximos. As vidas que valem pouco.

É só abrir a janela de casa ou apartamento para constatar calçadas repletas de indivíduos caminhando como se não houvesse um vírus mortal. Bares lotados de gente sem proteção, espalhando a doença sem se preocupar com a saúde da pessoa ao lado, sua família e amigos. Pessoas que não abrem mão dos seus direitos, mas fazem questão de se esquecer dos deveres que mantém possível a vida em sociedade. O deus da carnificina agradece.

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores. Autor do romance “Através”.