As mulheres decidiram ir comprar as flores

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“Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores”. A frase, que abre o romance mais conhecido de Virginia Woolf, Mrs. Dalloway, pode perfeitamente abrir esta reflexão sobre o momento singular das mulheres na literatura. Afinal, as mulheres decidiram elas mesmas escrever, traduzir, editar, produzir, divulgar e vender livros. E o mês de junho, em plena pandemia e governo obscurantista, já pode ser considerado especial para essas mulheres, que se uniram para celebrar o Dalloway Day e transformaram a literatura de Virginia em uma grande festa.

O romance Mrs. Dalloway se passa inteiramente em uma única tarde do mês de junho, um século atrás, nas ruas de Londres, narrada pelos olhos, ouvidos e pensamentos de Clarissa, que decide ela mesma ir comprar as flores para a festa que prepara para aquela noite em sua casa. Durante a travessia, reflete – entre outros assuntos – sobre a condição de ser mulher no pós-guerra, como muitas de nós estamos a refletir neste período pandêmico. E como Virginia tornou-se um ícone da literatura feminista no mundo e no Brasil, várias mulheres decidiram transformar a data em uma celebração não só da obra da escritora inglesa, mas do espaço da mulher na literatura e na cultura.

“A frase ‘Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores’, tornou-se uma espécie de rota de fuga imaginária. Dizer que “ela mesma” iria comprar as flores sempre me sugeriu uma espécie de escape muito próprio da mulher, que foge para dentro de si até mesmo nas atividades mais corriqueiras e banais do dia a dia e encontra nesse refúgio interno a serenidade de que precisa para existir na sua singularidade”, explica a editora Simone Paulino, que trouxe a data para o Brasil no ano passado, quando foi comemorado no país o primeiro Dalloway Day.

Aliás, Simone é uma das mulheres que “decidiu ela mesma ir comprar as flores”: criou e dirige a Editora Nós, que publicou e publica livros de diferentes autoras e já lançou algumas que se tornaram campeãs de vendas. Claro, ela não está sozinha. Ana Carolina Mesquita traduziu os diários de Virginia Woolf para o português para a sua tese de doutorado. As duas haviam se encontrado no mestrado, se reencontraram, se uniram, uma traduziu, a outra editou, e publicaram os diários da escritora pela primeira vez no Brasil. Mas se duas mulheres fazem uma bela festa, mais mulheres fazem uma festa maior ainda.

A elas se juntou Johanna Stein, que abriu a primeira livraria do país só de livros escritos por mulheres, a charmosa “gato sem rabo”, em frente ao Minhocão, no centro de São Paulo. “Queremos desmistificar a noção de que a narrativa masculina é universal”, diz a empresária. Nas redes sociais da “gato sem rabo” escritoras leram trechos de livros de Virginia Woolf durante todo o Dalloway Day. Como nas festas não podem faltar bons drinks, vieram as mulheres baristas do Eugênia Café, que fizeram um “shot de flores com sotaque inglês”, como elas mesmas definiram, que muitas mulheres receberam em casa.

Vale ressaltar que toda essa comemoração foi online por causa da pandemia. Leituras online. Livros e drinks enviados para as casas das leitoras. Rodas de conversas e aulas remotas sobre Virginia, por aplicativos de reuniões no computador ou celular. Mulheres conectadas para fazer literatura. Para ler, escrever, conversar, trocar ideias, conhecimentos, experiências. Em um momento em que estamos todas isoladas, com fome e sede de cultura.

Foi bonito, foi gostoso, foi potente. Que alegria participar desta época histórica em que as mulheres decidiram elas mesmas irem comprar as flores.

Lídice Leão é jornalista e mestranda em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo, onde pesquisa o sofrimento psíquico da mulher. É pesquisadora do Laboratório de Estudos em Psicanálise e Psicologia Social (LAPSO) do Instituto de Psicologia-USP.