Meu amigo Juscelino

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Em 2022, Juscelino Kubitschek (1902-1976) faria 120 anos. Nascido em Diamantina, ele amava as terras mineiras e o Rio de Janeiro, mas sua grande paixão, em seus últimos anos de vida, foi Brasília.
Embora tenha tido minhas raízes políticas na UDN (partido pelo qual me elegi deputado estadual e assumi a liderança do governo de Carlos Lacerda na Assembleia Legislativa), tive o privilégio de ser amigo de JK, a partir da formação da Frente Ampla contra a ditadura militar, em 1966.

Em 1975, ganhei de presente de Juscelino Kubitschek seu excelente livro, de novecentas páginas, "Por que construí Brasília", editado pela editora Bloch, do querido dono da Revista Manchete, Adolfo Bloch (1908-1995).

Juscelino Kubitschek teve o apoio e o carinho de Adolfo Bloch, depois que foi cassado pelo marechal Castelo Branco (o primeiro presidente do golpe militar de 1964), em junho de 1964.

Quando saiu da presidência da República (não havia reeleição e Jânio Quadros ganhou a eleição de 1960), JK candidatou-se e foi eleito senador por Goiás.

Adolfo Bloch ajudou Juscelino do ponto de vista material e também do ponto de vista do afeto. Os dois almoçavam na pérgula de o Copacabana Palace, jantavam no restaurante Montercalo, estive várias vezes com eles.

Perseguido pela censura, até a sua morte, em acidente de carro, em Resende, em agosto de 1976, JK não teve a divulgação que merecia, na mídia, quando seu livro "Por que construí Brasília" foi lançado, em outubro de 1975.

Na dedicatória do exemplar que me presenteou, Juscelino Kubitschek escreveu: "Ao meu querido amigo Mauro Magalhães que, como eu, foi condecorado (ele escreveu essa palavra condecorado entre aspas para lembrar que ele foi cassado em 1964 e que eu, também, fui cassado em 1969) pelo esforço que fizemos em benefício de nossa terra, homenagem deste livro que relata a luta pela construção de uma cidade, o que ambos dedicamos o melhor de nossas forças. Tenho certeza de que seus cinco filhos se orgulharão de seu nome".

Depois que fui cassado em 1969, passei a visitar Juscelino. Uma vez por semana, pelo menos, eu ia ao apartamento do ex-presidente, na Avenida Atlântica, em Copacabana, para conversar e tomar um uísque.

Ali, ele tirava os sapatos (tinha um problema em um dos pés) e lembrava do tempo do antigo PSD mineiro.

Nessas conversas, imaginávamos a possibilidade de construir outra cidade no Rio de Janeiro. Pensávamos em um município pequeno. Chegamos a pensar em Búzios. Ali, construiríamos casas, escolas, postos de saúde. Finalmente, em 1976, encontrei o Distrito de Conceição de Jacareí, que pertence a Mangaratiba (vizinho a Angra dos Reis), perto de Itacuruçá e Muriqui (que também fazem parte de Mangaratiba). Juscelino ficou todo animado. Ele parecia um arquiteto, embora fosse médico e político. JK daria as ideias. Eu executaria. Mas ele morreu no acidente.

Depois de concluir o curso de Humanidades no Seminário de Diamantina, em 1920, Juscelino mudou-se para Belo Horizonte. Em 1927, formou-se em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais e, em 1930, especializou-se em Urologia em Paris.

Em dezembro de 1931, casou com dona Sarah Lemos Kubitschek. E, tornou-se amigo de Benedito Valadares, o fundador do PSD em Minas.

Eleito deputado federal em 1934, perdeu o mandato com o advento do Estado Novo.
Mas, em 1940, foi nomeado prefeito de Belo Horizonte.

Com a criação do PSD, JK foi eleito deputado federal e não parou mais. Como governador fez Minas Gerais entrar na siderurgia com a Belgo Mineira.

São muitas as histórias de JK. Ele foi o último presidente da República a assumir o cargo no Palácio do Catete. Foi o primeiro presidente civil, antes de 1964 e depois de Artur Bernardes, a cumprir seu mandato até o fim.

Empolgou o país com seu slogan "Cinquenta anos em cinco". Houve, no seu governo, forte crescimento econômico. E, finalmente, nos deixou Brasília e o exemplo de que uma convivência democrática, inesquecível, como a que aconteceu em seu governo, pode ser possível.

*Empresário e ex-deputado.