Capacetes na mão

Cada pessoa gasta seu tempo livre como quer. Uns assistem a séries. Outros jogam games ou se divertem olhando redes sociais. Acompanhar eventos esportivos também é uma opção, embora não muito agradável para a maioria dos torcedores dos campeonatos nacionais. Pôquer online, carteado, yoga, jogar pedrinhas para o alto e catá-las antes que toquem o chão. Alguns, dignamente, não fazem nada. Mas poucos, muito poucos, num sábado qualquer, usufruem da liberdade andando de moto para saudar seu líder supremo.

Foi o que fizeram 6.661 motociclistas no último sábado na cidade de São Paulo, número registrado pelo pedágio do km 39 na Rodovia dos Bandeirantes. Conduzidos pelo mandatário do executivo da nação, desprovido de máscara, abusaram da liberdade e saudaram, aos quatro ventos, o neoliberalismo. Talvez urrassem, sobre seus cavalos motorizados, trecho do Hino da Proclamação da República que diz “Liberdade! Liberdade! / Abre as asas sobre nós”.

De fato, se quiseram fazer suas vozes ouvidas ao homenagear a liberdade, provavelmente não obtiveram sucesso. Isso porque, segundo o Ministério da Infraestrutura, a frota total de motocicletas na cidade de São Paulo, em 2020, é de aproximadamente 1,2 milhão. Ou seja, a tal motociata presidencial mobilizou cerca de 0,5% dos veículos sobre duas rodas registrados. Os outros 99,5% certamente tinham mais o que fazer.

A organização do evento anunciou a participação de 1,3 milhão de motos, número maior do que a frota registrada. Faz parte do delírio coletivo. Delírio que não contaminou os trabalhadores que utilizam o veículo para o próprio sustento. O SindimotoSP, Sindicato dos Motoboys de São Paulo, declarou-se contrário à manifestação. A categoria, anteriormente, havia pedido a inclusão dos motociclistas no Plano Nacional de Imunização. A solicitação foi desconsiderada pelo governo federal. Motoboys, em vez de gastarem seu tempo com bobagens, ficam expostos ao entregar compras em nossas casas. Contribuem, com seu serviço, para evitar o espalhamento da covid-19. O governo, como esperado, lhes negou apoio.

Passeata mesmo, ou motociata, só para uma pequena parte dentre os que usam motos para diversão nos dias livres. Livres? Oprimidos pelo antigo chefe ou patrão que lhes pagava um salário, pode ser que uma parcela dos 6 mil tenha recebido a notícia de que, por conta da crise, estariam livres para procurar emprego em outro lugar, seus serviços dispensados pelos neoliberais empregadores.

O que fazer, então, com a liberdade? Pegar a estrada e seguir alguém que, assim como eles, não sabe para onde vai? Tão difícil como conseguir um trabalho é deixar de acreditar. Não importa no que ou em quem. No desespero, cata o capacete, de preferência aquele ilegal que deixa a orelha de fora, bem transgressor, liga o motor da motoca e vai.

O caminho da tal liberdade talvez não dure muito. Com o preço da gasolina, não seria estranho se parte dos motociclistas tiver deixado os veículos no acostamento. No retorno do evento, o pedágio do km 36 da mesma rodovia acusou 6.216 veículos. Se comparados aos 6.661 que iniciaram o percurso, mais de 400 ficaram pelo caminho. Ou voltaram a pé, seus capacetes na mão.

“Das lutas na tempestade / Dá que ouçamos tua voz” diz outro trecho do hino citado acima. Aos que, por falta de gasolina, retornaram da manifestação a pé, pelo acostamento, oxalá tenham, ao menos, levado um cachecol no bolso da jaqueta. No dia, não chovia. Mas era quase começo de inverno, o caminho de volta é longo e, de tarde, costuma esfriar. Desgastados, não vacinados e de garganta fraca, correram o risco, ao cantar a República, de se libertarem da própria voz.

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP