Os surdos na 'motocilada'

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Não há solidão maior que a do homem no centro do poder, ensinam as fábulas e a História.

Se Bolsonaro tivesse um, apenas um amigo sincero, dir-lhe-ia que um desfile circense de machões com seus sonoros escapamentos é tudo o que a "maioria silenciosa" -- que o elegeu -- não quer ver neste momento de crise e confusão. Lembrar-lhe-ia que, quando o presidente silenciou no ano passado, sua popularidade subiu e que só vem se enfraquecendo a cada palavrão, bufada e blefe neste ano. Notar-lhe-ia que o povo talvez lhe pareça muito fácil de manipular, mas certamente não o é a ponto de se impressionar com o ronco de motores e o tremular de bandeirões quando vê e sente a morte às portas, no vizinho, no colega de trabalho, na própria casa.

Explicar-lhe-ia que de nada adianta mostrar força ao lado de 20% da população enquanto os 80% restantes não veem resultados nem a tal verdade que libertará. Que a democracia não é uma tábula rasa na qual prevalece o macho mais alfa, ou uma corrida maluca sem regras nem um mínimo de razoabilidade, mas é o regime do bom-senso que dá à população mais vulnerável o recurso do voto para se livrar de governantes insensatos e inativos.

Mas quem vai contar essas verdades ao chefe? Ministros já foram enxotados por muito menos. Ao fim da jornada, quase sempre a democracia é salva pela surdez arrogante e pretensiosa dos que a desprezam.

Guilherme Hobbs é programador